Falou-se de imediato de milhares de mortos entre a população israelita, e foi isso que primeiro surgiu em destaque em todos os media do Planeta, mas logo depois seguiu-se o relato da ousada operação guiada pelas Brigadas dos Mártires de al-Aqsa, o braço armado do Hamas.

E de imediato uma pergunta começou a ganhar tracção entre as páginas dos jornais mais atentos e os ecrãs das televisões menos sujeitas à pressão da propaganda israelita que foi célere a ganhar terreno: como é que os melhores serviços de intelligentsia do mundo foram surpreendidos por um grupo de "terroristas" descalços?

Para o ocidente "telecomandado" por Israel e pelos EUA, o Hamas, com uma folha Excel repleta de crimes bárbaros na sua história, é uma organização terrorista, mas para uma boa parte do mundo é apenas uma organização de resistência à ocupação israelita da Palestina.

E foi esta organização política, com um braço armado que são as Brigadas dos Mártires de al-Aqsa, a que se juntou à Jihad Islâmica e mais 11 grupos de milícias locais, que lançou o histórico, ousado e mortífero ataque a Israel a 07 de Outubro de 2023, cujas consequências perduram até hoje e vão, seguramente, definir uma boa parte do futuro no Médio Oriente.

Entre aqueles que viram neste ataque, que mais tarde se concluiu que tinha resultado em 1200 mortos do lado israelita, incluindo dezenas de estrangeiros, e em 250 reféns levados para Gaza, um acto terrorista e os que olharam para o momento como uma acção de resistência, pouco ou nada se alterou nestes três anos.

Só que em Gaza tudo mudou.

Um território com 365 kms2 espalhados por uma faixa de 40 kms na costa do Mediterrâneo com uma largura de 9 kms, 2,3 milhões de habitantes, o que dá uma densidade populacional das maiores do mundo, onde é impossível acender um fósforo sem que alguém se queime...

... a resposta israelita, com recurso a uma gigantesca máquina de guerra erguida nas horas seguintes, entrou por Gaza adentro, via terrestre, marítima, e pelo ar, despejando milhões de toneladas de bombas, que algumas organizações compararam em equivalência destrutiva, às duas bombas atómicas largadas pelos EUA no Japão, em 1945.

E não é para menos, porque os números não enganam: mais de 75 mil mortos, na sua esmagadora maioria mulheres e crianças, milhares de corpos ainda por retirar debaixo dos escombros, apesar dos funerais colectivos que ainda hoje ocorrem por isso mesmo, e com entre 70% e 85% dos edifícios, públicos e familiares arrasados...

Gaza é hoje um amontoado de ruínas onde mais de 2 milhões de pessoas lutam diariamente para sobreviver, onde, e apesar do acordo de cessar-fogo assinado em Outubro de 2025, neste ano morreram mais de 1200 palestinianos em ataques israelitas, o último dos quais ontem, na terça-feira, 06, onde foi morto um trabalhador civil destacado numa força de segurança, tendo pelo menos 10 ficado gravemente feridos.

Neste território massacrado pela resposta israelita ao ataque de 07 de Outubro, tudo falta, como refere a ONU, através dos seu gabinete para o apoio aos refugiados palestinianos, desde alimentos, água potável, medicamentos a combustíveis...

Mas falta mais que isso...

Falta perceber o que efectivamente aconteceu para que três das mais prestigiadas, senão mesmo as mais reconhecidas em todo o mundo, organizações de intelligentsia, a Mossad (externa), o Shin Bet (interna) e a AMAN (militar), além das Forças de Defesa de Israel (IDF) estacionadas ao longo da fronteira de Gaza aos milhares, não tivessem percebido...

... o que alguns analistas e especialistas militares, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, com vários livros publicados sobre este conflito, consideram pouco plausível, porque as organizações palestinianas que conduziram a ousada operação no sul de Israel levaram meses a treinar e a planeá-la.

Desde que a resposta pesada de Telavive, comandada directamente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, começou, na qual foram empregues milhares de carros de combate, a marinha e, especialmente, os vários esquadrões de F-35, os mais sofisticados aviões de guerra da actualidade, fornecidos pelos EUA, bem como as bombas e os mísseis usados...

... muito ficou soterrado na espuma das notícias, mas alguma coisa começou a transparecer logo nos meses seguintes, como, por exemplo, em Junho de 2024, quando o próprio chefe do Shin Bet, Ronen Bar, foi questionado sobre como é que tanta permissividade e amadorismo foi possível naquele dia trágico para isarelitas e palestinianos.

A resposta para estas dúvidas não demorou, porque se ficou a saber, em notícias da CNN e The Guardian, que a "secreta" egípcia tinha avisado o Governo de Benjamin Netanyahu para o iminente golpe da resistência palestiniana no sul de Israel, além de que entre portas também o Haaretz, o mais prestigiado jornal de Israel, iniciou uma longa investigação deixando emergir mais dúvidas que certezas.

Mas a máscara de Netanyhau caiu quando, ainda em 2024 surgiu a primeira notícia de que o Presidente dos Emiratos Árabes Unidos, sheikh Zayed bin Sultan Al Nahyan, telefonou directamente ao primeiro-ministro israelita para o avisar sobre o ataque que estava a ser preparado pelo braço-armado do Hamas.

A todos estes indícios de que algo de grave e perverso tinha acontecido naquele mês de Outubro de 2023, o Governo de Telavive, com o apoio explicito dos Estados Unidos, sobreviveu alegando tratar-se de mentiras descaradas dos media anti-semitas e dos seus inimigos internos.

Uma referência clara ao jornal Haaretz, visto como uma das vozes que se opõem ao Governo mais radical, religiosamente e ideologicamente, de sempre em Israel, liderado por Netanyahu, com o suporte dos fascistas radicais Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Interna, e Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, ambos líderes de dois pequenos partidos extremistas.

Mas a vida do ainda primeiro-ministro israelita, que está de novo na corrida para se manter no Governo nas eleições deste mês, a 27 de Outubro, que sabe que assim que for afastado do cargo, terá de enfrentar vários processos na justiça onde está acusado de graves crimes de corrupção e branqueamento de capitais, começou a complicar-se ainda mais na semana passada.

É que o Haaretz, numa investigação dos seus jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval, chegaram a uma chamada telefónica criptografada de 45 minutos entre o Presidente dos EAU para Benjamin Netanyahu, pelo menos dez dias antes do ataque de 07 de Outubro de 2023, alertando sobre a grande ofensiva planejada por Yahya Sinwar. Então líder do Hamas, com apoio de vários grupos da resistência em Gaza.

Com um calendário apertado entre esta revelação e as eleições de 27 de Outubro, Netanyahu voou para Abu Dhabi na semana passada para, ainda segundo os media israelitas e outros, convencer o sheikh Zayed bin Sultan Al Nahyan a desmentir aquela notícia de que o tinha avisado.

As várias abordagens a este tema...

...desde logo, para que servia a Netanyhau deixar que o trágico ataque ao seu país tivesse lugar? A resposta mais convincente é que esse cenário seria a janela de oportunidade para cumprir o acordo que tinha com os seus dois ministros mais radicais, Smotrich e Ben-Gvir, que lhe exigiam para não derrubar o Governo no Parlamento a invasão de Gaza.

O próprio Ben-Gvir admitiu após o 07 de Outubro que era seu objectivo, e tinha exigido isso mesmo a Netanyahu, que Gaza fosse de novo governada por Israel, criando ali colonatos até ao mar, expulsando os 2 milhões de cidadãos do território para um qualquer país árabe da região, propondo mesmo o deserto egípcio.

O que veio quase a ser conseguido quando o Presidente dos EUA, Donald Trump, que desde o primeiro minuto após chegar à Casa Branca, em Janeiro de 2025, apoiou a resposta pesada de Israel contra Gaza e avançou com a proposta de fazer de Gaza um gigantesco resort turístico à beira do Mar Mediterrâneo. Este objectivo ainda não foi descartado.

Mas o mais relevante do ponto de vista de Benjamin Netanyahu para deixar que o 07 de Outubro acontecesse é que com uma guerra desta dimensão em curso, o seu Governo minoritário e frágil, dependente de dois partidos minúsculos e extremistas, estaria assegurado, garantindo-lhe protecção contra os processos na justiça.

Se as sondagens estiverem correctas, todo este esforço acabou por ser em vão, porque mais de 60% dos israelitas desaprovam o seu Governo, e o seu partido, o Likud, deverá sofrer uma derrota abrasiva no próximo dia 27 de Outubro.

Todavia, se há algo que Benjamin Netanyahu já demonstrou é que tem sete vidas políticas como os gatos e que de um momento para o outro pode encontrar o "golpe de asa" que lhe permita dar a volta e manter-se no poder, prolongando a sua condição de primeiro-ministro por mais quatro anos, somando esses aos 19 anos que leva no cargo, embora de forma intermitente.

E tudo fará para que assim seja porque (ver links em baixo), além dos processos na justiça em Israel, Netanyahu tem a pender sobre si um mandato de captura internacional emitido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra em Gaza.

E no Tribunal de Justiça Internacional da ONU corre um processo por genocídio em Gaza, aberto pela África do Sul e mais duas dezenas de países, onde foram já feitas provas de que existem indícios fortes de que este, que é o mais grave crime contra a Humanidade, está a ocorrer naquele território.

Em Israel estão previstas cerimónias ao longo do dia para homenagear as vítimas do ataque sem precedentes, lançado a partir de Gaza por membros do Hamas, que resultou na morte de 1221 pessoas, segundo os dados recolhidos pela AFP.

Em Gaza, os mais de 2 milhões de palestinianos vão passar este dia como passaram todos os dias desde 07 de Outubro de 2023: a tentar sobreviver mais 24 horas.