Nada de novo a Oeste, se em Kiev o objectivo maior ainda for manter esta guerra com os russos em nome, como o Presidente Volodymyr Zelensky repete exaustivamente, dos valores da União Europeia e da NATO, organizações que lhe prometeram tudo...

... mas não deram nada, além de armas e dinheiro para manter aceso o conflito com a Federação Russa, embora a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e uma das mais ferozes incentivadoras desta guerra, tenha voltado hoje a garantir que Kiev fará parte do "Clube dos 27" em breve.

Tal como Ursula von der Leyen tem prometido que a Ucrânia tem à sua espera um lugar de honra na União Europeia, também o chefe da NATO, o empenhado holandês Mark Rutte, não se cansa de garantir que a entrada de Kiev nesta organização militar ocidental está igualmente em cima da mesa.

Apesar de alguns analistas apontarem há muito que nem a União Europeia nem a NATO são possibilidades sérias para Kiev aderir, devido às repercussões económicas e políticas dessa adesão, em Kiev também Zelensky mantém o pé no acelerador da guerra com um calendário apertado.

E não podia ser mais apertado, de facto, porque no dia em que chegam à capital ucraniana dezenas de líderes europeus e norte-americanos, o Presidente Volodymyr Zelensky aparece numa situação periclitante na última sondagem para as "futuras" eleições Presidenciais ainda sem data marcada.

Apesar de já terem passado mais de dois anos do prazo legal para a realização de eleições gerais, que deveriam ter sido em Maio de 2024,estas foram adiadas sucessivamente devido à Lei Marcial em vigor devido à guerra.

E Zelensky recusa dar esse passo, argumentando que eleições agora e nestas condições seriam um factor de divisão do país quando a união é o elemento mais importante para continuar a resistir aos avanços russos na linha da frente.

Isto, apesar de agora estar a ser desafiado nesse sentido, de forma clara pelo seu ex-ministro da Defesa, Mikhail Fedorov, e de forma menos efusiva pelo seu antigo CEMGFA e actual embaixador no Reino Unido, general Valery Zaluzhny, alegando que "não há condições para fazer as eleições com uma guerra a decorrer".

Entre os seus apoiantes no Ocidente, a questão das eleições na Ucrânia, com as quais Zelensky pode revalidar o seu poder, ou perdê-lo, parece um tabu, embora nos media o tema comece a deixar a sombra mediática para ganhar a atenção das das luzes no palco.

Uma das dúvidas que emergem do dia de hoje em Kiev, onde estão dezenas de líderes ocidentais, com destaque para presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula Leyen, o presidente do Conselho Europeu, o português António Costa, o primeiro-ministro britânico Andy Burham, ou os senadores norte-americanos Richard Blumenthal e James Lankford, é se este tema será ou não aflorado.

Provavelmente não, especialmente porque a reunião da denominada coligação da "boa vontade" para a Ucrânia, composta pelos países da União Europeia e da NATO, que decorre em Kiev, tem como ponto único da agenda revalidar o apoio incondicional a... Zelensky.

A chamada Coligação da boa vontade sobre a Ucrânia, composta por cerca de 30 Estados aliados de Kiev, reúne-se na capital ucraniana por ocasião do 35.º aniversário da independência do país.

A reunião terá um formato híbrido - alguns dirigentes não estarão em Kiev, caso do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, participando por videoconferência - e será coorganizada pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, e pelo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, que participa pela primeira vez num encontro deste grupo.

"A Rússia não deve ter dúvidas sobre a nossa determinação", declarou Burnham, em comunicado, antes de chegar a Kiev.

"Não cederemos até que se estabeleça uma paz justa e duradoura", afirmou o líder do Governo do Reino Unido, na primeira viagem internacional desde que assumiu o cargo, no final de julho.

Esta coligação, lançada em março de 2025 por Paris em coordenação com o Reino Unido, reúne países dispostos a fornecer garantias de segurança à Ucrânia para impedir uma nova agressão da Rússia após o fim do atual conflito.

"A Ucrânia precisa urgentemente de reforçar a sua defesa aérea", afirmou a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, que integra uma comitiva governamental que junta a Dinamarca, Estónia, Finlândia, Islândia, Letónia, Lituânia, Noruega e Suécia.

Como se pode verificar na leitura dos media ocidentais pró-ucrânia desta segunda-feira, 24, como o britânico The Guardian, ou o português Público, entre muitos outros, todo o foco deste dia são os anúncios do reforço do apoio militar e financeiro a Volodymyr Zelensky.

E o maior der todos veio da líder da Comissão Europeia, Ursula von Leyen, que voltou a garantir, antes de chegar à capital ucraniana, que Kiev tem à sua espera um lugar na União Europeia, mas sem anunciar uma data, sequer uma data meramente de referência.

Isto, porque, como analistas como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíla e da NATO, e vários livros publicados sobre esta guerra, a entrada na União Europeia e na NATO são possibilidades usadas pelos seus lideres actuais como incentivos extraordinários para os ucranianos não amolecerem nas trincheiras perante o avanço russo.

E isso é relativamente certo porque nalguns países, como a Polónia, mais vocal, ou na França, de forma menos vibrante, duas grandes potências agrícolas dentro do bloco dos 27, a entrada da Ucrânia tem sido claramente atirada para um calendário com décadas dentro, que é o mesmo que fechar a porta para o futuro expectável.

Tal cenário é resultado directo de a Ucrânia ser também um potentado agrícola, com condições ainda melhores que aqueles países europeus para a produção agrícola, o que levaria a confrontos inimagináveis dentro de fronteiras, se este país acedesse ao bloco europeu.

E isso nem sequer seria uma noviodade, porque já sucedeu isso mesmo na Polónia, Bulgária, Hungria e outros países, quando, em 2022, após a invasão russa, para ajudar Kiev, foram abertas as fronteiras da União Europeia aos produtos agrícolas ucranianos, desregulando claramente os mercados com muitos milhares de agricultores a protestar contra os seus governos em Varsóvia, Sofia ou Budapeste...

E basta um país recusar aceitar começar o processo de adesão para que este fique esquecido nos arquivos da burocracia de Bruxelas.

Para já, neste 24 de Agosto de 2026, 35 anos após a Independência da Ucrânia da então União Soviética, em 1991, que seria desmantelada oficialmente quatro meses depois, Kiev e Moscovo somam já quatro anos e meio de guerra.

Guerra que dura desde 2014, concentrada no leste ucraniano, no Donbass, na sequência do golpe de Estado em Kiev de 2014, apoiado pelos europeus e norte-americanos, contra o Presidente pró-russo Viktor Yanukovich, e foi revigorada com a invasão russa a 24 de fevereiro de 2022.

Todos os analistas coincidem num ponto, sejam eles pró-ucranianos, como é o caso da totalidade da imprensa ocidental, ou mais inclinados para Moscovo, quase exclusivamente ouvidos nos media do Sul Global, que é o facto de a Ucrânia só poder sair por cima neste conflito, devastador e destrutivo como nenhum outro na Europa desde a II Guerra Mundial, se conseguir uma entrada com tapete vermelho na União Europeia.

Isto, porque a NATO é uma carta fora do baralho, sendo como é a mais vincada das exigências russas, com a sua neutralidade a ser inegociável do ponto de vista de Moscovo, e ainda porque Kiev tem neste momento outro problema que o próprio Zelensky já disse ser gigantesco, que é o afastamento de Washington da frente de guerra, com menos armas, menos dinheiro a chegar à Ucrânia, especialmente os mísseis interceptores Patriot, que há muito "secaram" nos paióis ucranianos.

Do lado russo, tal como em Kiev, a palavra paz tem agora nova tracção, até porque a persistência e resiliência ucraniana estão a criar pesadas dificuldades à economia russa, especialmente com os seus repetidos ataques bem-sucedidos à infra.estrutura energética de Moscovo.

Alguns analistas, por essa razão, devido ao fardo insustentável desta guerra para Kiev e para Moscovo, 2026 deverá ser o último ano inteiro de guerra, e após o Inverno que começa no Hemisfério Norte dentro de semanas, onde se preveem dificuldades nunca vistas tanto de um lado como do outro, mas mais do lado ucraniano, as nuvens deverão começar a dissipar para dar lugar a novas oportunidades para colocar um ponto final naquele que já é de longe o mais aterrador conflito em território europeu desde 1945,