E não é bom sinal porque se os ucranianos, à beira da exaustão militar e económica, parecem querer acabar com a guerra rapidamente, o que exigem em Abu Dhabi está muito longe de ser aceitável do lado russo.
Também não é bom sinal, porque mesmo com alguns elogios do lado russo sobre os esforços que estão a ser feitos por Donald Trump, na condição de mediador, o que exigem para tirar o dedo do gatilho nem é visto como uma possibilidade em Kiev.
E estamos a falar de quê quando se fala das exigências de um e do outro lado, destacando apenas três pontos das longas listas de condições que russos e ucranianos levaram para a capital dos Emiratos Árabes Unidos e das quais ainda não recuaram formalmente?
Do lado russo:
- A garantia inamovível de que Kiev desiste do seu processo de adesão à NATO, mantendo a neutralidade, afastando das suas fronteiras quaisquer forças militares ocidentais e proceder à sua desmilitarização para níveis considerados seguros em Moscovo.
- Que a Ucrânia e os seus aliados ocidentais reconheçam a soberania de Moscovo sobre a totalidade das cinco regiões anexadas em 2014 (Crimeia) e em 2022 (Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia).
- E que a cultura, língua e tradições religiosas russas estimadas pela população ucraniana sejam respeitadas, com foro constitucional, no que restar da Ucrânia após a assinatura de um acordo de paz.
Do lado ucraniano:
- A saída das fronteiras de 1991, data da Independência do país da antiga URSS, de todos os militares russos que entraram no país a 24 de Fevereiro de 2022, sem condições, de forma a que Kiev escolha as suas parcerias internacionais, incluindo aderir à NATO, sem qualquer interferência russa, bem como g
- Que a Federação Russa assuma a responsabilidade de custear a reconstrução da Ucrânia após longos anos de destruição.
- E que sejam fornecidas garantias de segurança à Ucrânia que englobem a presença de forças militares ocidentais no país como travão para futuras agressões russas, com o respaldo norte-americano em pano de fundo.
Estas são apenas três de um conjunto alargado de condições de um e do outro lado que, mesmo para quem não segue atentamente esta guerra, que é já, de longe, a mais violenta na Europa desde a II Guerra Mundial, que terminou em 1945.
E facilmente se percebe que em nenhum destes pontos será possível sem um profundo "reset" conseguir que russos e ucranianos encaixem cedências de forma a acomodar consensos.
Conversa para entreter?
Portanto, como sublinham vários analistas, dentre estes John Mearsheimer, um dos mais renomados especialistas norte-americanos em política internacional e geoestratégia, professor da Universidade de Chicago, em Abu Dhabi não é a paz que se negoceia, é ainda só e apenas o formato daquilo que serão eventuais negociações de paz.
Também Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, autor de dois dos mais importantes livros de análise a este conflito, avança que os interesses intestinos do lado ucraniano, que se misturam com os europeus e ocidentais de modo geral, neste momento torna am qualquer avanço negocial impossível, apesar de eventuais palavras amistosas dos dois lados.
É por isso que tanto Mearsheimer como Baud apontam para um afunilamento da continuação da guerra como a única solução para acabar com ela, porque isso levará à cedência de um dos lados que, então será colocado na posição de ter de aceitar as condições do vencedor, como sucede em todos os conflitos historicamente falando.
Com o pragmatismo que a situação existe, neste momento, ao fim de quatro longos anos de guerra, a mais letal e destrutiva em mais de 80 anos na Europa, embora a Rússia esteja a ver a sua economia a desacelerar perigosamente anos após anos, é do lado ucraniano que o aperto é maior actualmente.
E isso deve-se a dois factores determinantes, como, em síntese, alinhavava recentemente o major general Agostinho Costa numa conversa num canal brasileiro no YouTube "Geopolítica e História Militar:
- O declínio do apoio militar e financeiro dos EUA ao esforço de guerra de Kiev e à exaustão das suas capacidades de reposição de perdas humanas na linha da frente, como também recentemente admitiu o novo ministro da Defesa ucraniano.
- E a sistemática e aparentemente impossível de tratar chuva de misseis e drones que há meses destroem as infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias e energéticas em todo o território da Ucrânia.
Neste contexto, que é dramático para ambos os lados mas assume, claramente, uma relevância especial para Kiev, o chefe da delegação ucraniana em Abu Dhabi, Rustem Umerov, chefe do Conselho de Segurança Nacional ucraniano, veio elogiar este "face to face" com os russos, considerando estar a ser "substantivo e produtivo".
E do lado norte-americano, uma fonte ligada às negociações, apontou à Reuters como "produtivas" as conversações trilaterais que decorrem na capital dos Emiratos Árabes Unidos.
A frieza russa
Claramente menos efusivos, os russos, mesmo que antes desta segunda ronda ter começado, ontem, quarta-feira, 04, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, tenha afinado pelo mesmo diapasão de ucranianos e norte-americanos, quanto às expectativas, agora, antes da conclusão desta etapa negocial, Moscovo opta pelo silêncio.
É que, como sublinhava o analista britânico Alexander Mercouris, ambos os lados estão a tentar não frustrar as expectativas do Presidente norte-americano, Donald Trump, mesmo que do lado ucraniano e dos seus aliados europeus não exista interesse em negociar, como o demonstram as palavras de Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, esta semana em Kiev. (ver aqui)
E do lado russo, como o Presidente Vladimir Putin tem repetido quase a um ritmo semanal, para Moscovo qualquer método para acabar com o conflito é bom, seja pela via negocial, mas nos termos russos, enquanto aquele que leva vantagem na linha da frente, seja pela via militar, pela qual afirma que chegará á conclusão dos objectivos da sua "operação militar especial".
Também o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, veio falar deste momento acusando Zelensky de estar "apenas interessado na sua sobrevivência", que se presume política, mas o experiente chefe da diplomacia russa não detalhou se também se referia à sobrevivência física do Presidente ucraniano.
Numa entrevista à russa RT, Lavrov, quando decorrem as negociações de Abu Dhabi, das quais está bem ciente, embora tenha, curiosamente, estado afastado do palco negocial no que diz respeito ao conflito ucraniano, acrescentou ainda que o ucraniano "não está interessado na paz".
E deixou ainda um aviso ao Presidente Volodymyr Zelensky, sobre os seus insistentes pedidos para que os seus aliados europeus e norte-americanos enviem forças militares para o seu país, como também apontou como certo o secretário-geral da NATO, Mark Rute.
Aviso esse que é uma repetição do que já foi garantido pelo próprio Presidente Putin: "Qualquer presença militar ocidental na Ucrânia será um alvo legítimo e levará, provavelmente, a um confronto directo entre a Federação Russa e a NATO".
E quando às garantias de Mark Rutte em Kiev onde este disse, perante o Parlamento, no dia anterior ao começo das conversações em Abu Dhabi, que após ser assinado um acordo, serão enviadas forças militares para a Ucrânia, incluindo aviões de guerra, navios de guerra e tropas no terreno, Sergei Lavrov concluiu que "essas palavras demonstram que Zelensky e os seus aliados europeus não querem a paz".
Media voltam a falar das "meias" dos soldados russos
Entretanto, nem todos entendem que a Rússia tem uma efectiva vantagem. Porque, como sucedia no início do conflito, em Fevereiro de 2022, quando os media ocidentais mais empenhados na defesa da Ucrânia, com destaque para os britânicos, diziam que os soldados russos nem meias tinham para calçar, repetem-se agpora os relatos e reportagens de devastadoras fragilidades do lado russo.
O britânico The Telegraph, por exemplo, avançava esta semana que a Rússia tem os seus arsenais de misseis exaustos, com dificuldades severas para repor stocks, ou no The Guardian, que avança que a economia russa está efectivamente em ruínas e que este conflito pode levar ao desmoronamento do sistema financeiro em Moscovo.
Apesar disso, em Kiev, o Presidente Volodymyr Zelensky, seguindo um guião estratégico ou apenas por desorientação, tem estado nestes dias a passar de um tom desafiante apelando aos seus militares para "matarem 50 mil russos por dia", a um mais caloroso e amigável onde diz ao povo ucraniano que "a situação está genuinamente a caminhar para a paz".
Com o aproximar do 4º aniversário desta guerra, e com cada vez mais vozes internas, incluindo seus aliados, a pedir para que os interesses das pessoas se sobreponham à defesa dos territórios, começa a ser difícil a Zelensky convencer os cidadãos ucranianos que vale a pena continuar um conflito que a maior parte dos analistas considera estar perdido para Kiev.











