Parece que foi há séculos que a Argentina e Messi deixaram de ser miragem no imaginário de muitos adeptos angolanos para se tornarem realidade quando se apresentaram no 11 de Novembro em 2025. Seguiram-se Will Smith, LeBron James e a E1 Series, algo que ninguém esperava que pudesse, algum dia, agitar as águas da Baía ou captar a atenção do público.
Todavia, nenhum dos anúncios causou maior perplexidade do que o Evereste que surge no horizonte a partir de um encontro em Nova Iorque entre o vice-comissário e director de operações da NBA e o Presidente da República, João Lourenço.
O Novo Jornal ajuda-o a entender a razão pela qual a célebre premissa de que "o sonho comanda a vida" nem sempre ordena ao Comandante, sobretudo quando, do outro lado da barricada, estão cordilheiras que não podem ser sobrepujadas pela simples vontade humana ou pela ambição de atrair investimentos.
É facto que a NBA é movida cada vez mais pela sua missão de expansão global e pelo envolvimento em territórios por explorar, sendo África um dos grandes motores desse retorno. O exemplo da Basketball Africa League (BAL) está à vista, acumulando números robustos que respaldam o sucesso desta aposta no continente, com mais de 250 milhões de dólares já injectados no PIB do continente e uma estimativa oficial a rondar os 5,4 mil milhões de dólares em termos de crescimento do seu impacto até 2034.
Aqueles que consideram que o dinheiro movimenta as engrenagens estão correctos, até certo ponto. No entanto, há um grau de ingenuidade quando não se contempla que nenhum investidor coloca capital sem perspectiva de retorno. E num País onde o luxo contracena diariamente com a miséria, nem mesmo o maior dos arranha-céus privados da capital consegue ofuscar as deficiências estruturais de um desafio implausível.
Para perceber a dimensão do abismo, importa traduzir os manuais técnicos das emissoras norte-americanas (como a ESPN e a TNT) para compreender as condições que Luanda teria de proporcionar para que os playoffs pudessem sequer acontecer em solo nacional. A NBA exige para transmissões globais em Alta Definição e 4K uma iluminação vertical na quadra rigidamente fixada entre os 1.500 e os 2.000 LUX (medida utilizada para aferir a luminescência), associada a uma taxa de oscilação (flicker rate) das lâmpadas inferior a uns matemáticos 0.3%. Qualquer variação acima disso destrói os replays em super câmara lenta.
Na prática, exigir estabilidade numa frequência destas ao Pavilhão do Kilamba - onde os picos de tensão e a dependência de geradores locais são crónicos - é ignorar o óbvio e pairar na esfera ficcional ou onírica. Além disso, os regulamentos da liga exigem sistemas automáticos que mantenham a arena estritamente entre os 18°C e os 22°C.
Num território em que nem que chamassem o Toy Limpa Chão daria para evitar que a humidade tropical de Luanda tornasse a quadra impraticável e escorregadia, este é um feito térmico impensável para os actuais sistemas de climatização dos recintos nacionais.
Uma empreitada desta natureza, que no mercado norte-americano custa entre 5 a 7 milhões de dólares por jogo apenas em custos logísticos da chamada "bubble" (voos privados transatlânticos para comitivas gigantescas, árbitros, técnicos e segurança blindada), obriga a níveis de seriedade, segurança, controlo e projecção mediática que Angola não conseguiu sequer demonstrar quando se debateu com a possibilidade de albergar as fases decisivas da BAL, fazendo-nos patinar entre promessas vazias e chocar contra o chão concreto da realidade.
Não obstante, há que considerar a incógnita quanto à temporalidade na qual se projecta a recepção dos playoffs.
Um detalhe que abriria a possibilidade teórica de este sonho ser materializado seria a construção de uma infra-estrutura de raiz, porém essa opção exigiria um investimento estratosférico à semelhança do último pavilhão construído na NBA, em 2024, em Inglewood, Los Angeles, chamado Intuit Dome, que requereu um montante de 2 mil milhões de dólares para atingir os actuais padrões exigidos pela liga.
Observe-se, paralelamente, que, em África, cidades como Kigali e Cairo estariam na linha da frente, muito mais preparadas para receber algo que não se resume a um mero jogo de basquetebol. Não estamos a falar de pré-época; estamos a falar de Playoffs! Sim, meus senhores: um nível de competição que, historicamente, jamais ocorreu fora de solo americano ou canadiano.
As condições logísticas exigidas para produzir e transmitir um evento desta dimensão global obrigam-nos a reflectir sobre outra obviedade: Angola consegue, sequer, cobrir o Girabola com qualidade em todo o território nacional? A resposta é não - e estamos a falar de uma modalidade e escala completamente diferentes.
Veja-se, por exemplo, os constrangimentos crónicos que persistem no próprio complexo do Kilamba, a arena que albergou a final do Afrobasket. Será que se espera que seja transformada numa nave espacial que esteja apta a descolar com todos lá dentro, rumo ao mesmo lugar onde paira o Angosat-2? Será que o UNITEL Basket serve sequer de referência para entendermos que a Arena não está habituada a gerir essa magnitude de evento? Os elevadores têm andares e sobem, sobem, até que o limite os impede de continuar a subir.
Não vale a pena comparar esta empreitada a uma visita papal; essa é uma logística de outra natureza que não implica a alteração milimétrica do calendário competitivo de todo um campeonato multimilionário. Além disso, antes que um jogo de playoffs pudesse sequer ser equacionado em solo africano, a NBA teria obrigatoriamente de testar o terreno com jogos de pré-época. Uma fase de adaptação progressiva que é absolutamente imperativa para salvaguardar a integridade física de atletas de alta competição.
Mesmo diante das pretensões de se projectar uma nova realidade para o País, a conclusão prática impõe-se. Sabemos que é mais fácil mover uma única estrela de uma constelação do que mover toda uma constelação de estrelas até nós. Uma constelação viva e exigente, para a qual se tornaria obrigatório albergar centenas de jornalistas internacionais, gerir toneladas de equipamentos de alta tecnologia e blindar rotinas de luxo. Perante isto, perguntamos: era disto que Agostinho Neto falava quando dizia que "o mais importante é resolver os problemas do povo"?
No afã de querermos ser melhores, de sermos vistos pelo mundo e de projectarmos outra imagem de Angola, não podemos cometer o erro de querer dar a imagem de sermos mais americanos do que os próprios americanos. A megalomania corre sempre o risco de fazer ruir toda e qualquer boa intenção, transformando planos legítimos em meros exercícios de oratória e propaganda concebidos para capturar as mentes.
