Panafricanista, "lutador pela Educação e Emancipação Intelectual dos Povos de África", como se identifica, investigador, pós-graduado em didáctica do ensino superior, licenciado em relações internacionais, Osvaldo Kaholo cumpre pena de prisão efectiva por causa dos seus ideais.

Professor das cadeiras de História de África e Relações Internacionais até ser expulso da Universidade Técnica, numa espécie de pena acessória (não escrita) do opressor, aplicada por instituições ao serviço das malfeitorias do poder político do País.

Kaholo, activista político da boina vermelha, símbolo de coragem, superação ou revolta popular, imagem de marca de outros revolucionários como Thomas Sankara, líder panafricanista do Burkina Faso ou Hugo Chávez da revolução bolivariana da Venezuela, distingue-se pela elevada capacidade crítica e recusa em alinhar acefalamente com ditames do poder e da oposição políticos.

Em Abril passado, pelo crime de "instigação pública ao crime", foi condenado a dois anos e meio de prisão, tempo suficiente para o retirar do espaço público mediático durante o processo do simulacro eleitoral já em marcha.

Processo que começou com os preparativos para a escolha pelo Presidente do MPLA e do País de quem se sentará nos cadeirões do Partido no poder e da Cidade Alta, a partir de Dezembro deste ano e Setembro do próximo ano, respectivamente.

O professor e activista político, para quem a governação do País representa um "abuso contra o Povo angolano" por parte de uma "elite dirigente que pratica o terrorismo de Estado" (DW), foi detido depois de participar nos protestos de Julho do ano passado contra as políticas de João Lourenço.

Protestos que culminaram no massacre de Luanda em que as forças da opressão assassinaram mais de 30 pessoas, entre as quais Ana Mabiala, jovem mãe de 32 anos, morta a tiro em frente a um dos seus filhos menores quando seguia em direcção à sua casa.

Com a prisão do "Soldado do Povo" (expressão do músico e activista Amoroso Rapper Crítico), o poder quer encarcerar a sua capacidade de mobilização, sobretudo dos mais jovens (maioria da população) para a revolta contra o estado de miséria de um País em que a elite política vive de costas voltadas para os problemas do Povo.

Quer aprisionar a denúncia de Kaholo que olha e vê o rei, os príncipes e princesas, duques e duquesas, condes e condessas todos nus num espectáculo degradante que se assemelha à pornografia política.

Quer ainda Impedir que Kaholo, com a sua "bravura, espírito de sacrifício e entrega total em benefício e dignidade de um povo", novamente segundo Amoroso Rapper, e notável oratória e dotes de formador, alerte que a continuidade do actual rumo representa o atraso e suicídio do País.

Para os algozes, esta condenação representa uma medida preventiva e de amedrontamento a outros activistas e críticos dispostos a denunciar as atrocidades de um regime esgotado que nem com maquilhagem conseguirá o milagre de transformar Angola num País assente na dignidade humana.

Ou seja, de acordo com o Bloco Democrático, "a aplicação de uma pena de prisão efectiva a um cidadão por via das suas opiniões políticas e sociais revela um pendor punitivo que visa, fundamentalmente, intimidar a sociedade civil e desencorajar a participação cívica activa".

Prisão que, afirma a activista Laura Macedo, transforma Kaholo em "preso com dono". A condenação, acrescenta, "não foi justa até porque o Ministério Público, depois de ver a sua única prova ser desmontada pela defesa, nas suas alegações finais, pediu a absolvição". Logo, conclui, "ficou provado que o vídeo apresentado (em tribunal e usado como suposta prova para incriminar o activista) foi manipulado".

"Quem manipulou!?", questiona Laura Macedo, uma das dinamizadoras da recente vigília de solidariedade e pela libertação de todos os presos políticos em Angola sob o tema: "Defender direitos não é crime e a liberdade não se prende", organizada pela "sociedade civil contestatária".

A pergunta retórica de Laura Macedo responde-se com as razões. A força e os posicionamentos de Kaholo, um soldado sem medo que incomoda o poder e seus colaboracionistas que fazem de Angola expoente máximo da miséria humana.

Kaholo, abandonado pelos candidatos ao poder em Angola, também critica a oposição sectarista a quem acusa de conformismo e de fazer o jogo do opressor, com a sua condescendência em relação ao autoritarismo.

É igualmente crítico de uma espécie de vermes que se instalou na política angolana e que, com medo da mudança do status quo e perda de benesses pessoais que só um regime de desigualdades e corrupção proporciona, se coloca aberta ou implicitamente ao lado do endocolonialismo.

Tal como agora, também em 2016, os argumentos que levaram a condenação de Kaholo e seus companheiros e companheiras dos 15+2 eram estapafúrdios e pouco inteligentes, típicos de sistemas de justiça que cumprem ordens superiores.

O activista que está preso por "instigação pública ao crime", ao proferir "ofensas contra o Presidente da República e contra generais", os intocáveis do Reino, em 2016 foi condenado a quatro anos e meio de prisão por, juntamente com os companheiros e companheiras dos 15+2, tentar derrubar o Presidente José Eduardo dos Santos.

Conhecendo as manobras, mentiras e propaganda dos makalakatos em Angola, Kaholo escreve que a sua condenação há dez anos foi arranjada para dar credibilidade ao tosco argumento fabricado pela acusação. "Era preciso um militar (no grupo 15+2) para tentar sustentar a narrativa sobre um possível golpe de Estado". Ou seja, sublinha, era preciso um militar para ser acusado de realizar recrutamentos para o mirabolante golpe de Estado.

E, continua, "construíram narrativas de que o Kaholo deveria tirar aviões da Força Aérea, bombardear o palácio de José Eduardo dos Santos e derrubar o MPLA".

Sem medo, assume que "se fosse possível realizar" tal acto e "para ver o povo livre do MPLA, faria com maior naturalidade, nem que fosse com sacrifício da minha vida".

Nesse julgamento, sobre Kaholo, tenente da Força Aérea Angolana, de onde foi expulso a seguir à cadeia (outra pena acessória), pesava a acusação, na Procuradoria Militar, de traição à pátria, extravios de documentos secretos do general Zé Maria e de José Eduardo dos Santos.

O ex-oficial da Força Aérea conta igualmente, em conversa com a autora deste texto, que quando chegou ao estabelecimento prisional de Kakila, em Calumbo, Icolo e Bengo, os opressores "já tinham manipulado a população prisional de que éramos 300 comandos bem preparados, que tínhamos tentado um golpe de Estado, que agarraram 45, incluindo o líder Osvaldo Kaholo e que o restante estava nas matas. Seriam localizados e pagariam severamente pelo acto

Quem tem medo de Kaholo fora das masmorras angolanas? Quem tem medo do carismático, irreverente e sem medo, activista do grito "Resistência!", que luta pelos direitos, pela liberdade e pela dignidade dos angolanos?

Tem medo a casta que precisa da manutenção da podridão política, simulada de democracia, da qual retira privilégios sociais e materiais, sobretudo financeiros, que só um regime assente na injustiça, nas desigualdades, na corrupção e na desumanização do outro, proporciona.

Tem medo aquele que, usando a lengalenga de estar contra o status quo, coloca-se acima de qualquer escrutínio e ataca quem livre e politicamente consciente, recusa o totalitarismo.

Os silêncios sobre a prisão de Kaholo mostram interesses conflituantes. De um lado estão os que como o activista da boina vermelha se manifestam corajosamente em defesa da liberdade e da dignidade do povo de Angola, pondo em risco as suas vidas ou integridade física, e, de outro, aqueles para os quais pelo poder e suas benesses vale tudo, até desencadear ou pactuar com tortura e torturadores.