A República Democrática do Congo, como tantos outros países, tem tentado explicar-se ao mundo através de campanhas milionárias. Investiu mais de cinquenta milhões de dólares em grandes clubes europeus, acreditando que a associação ao brilho do futebol global poderá projectar uma imagem moderna, forte, desejável. E a diplomacia clássica, feita de contratos, logótipos e visibilidade comprada. Nada de errado nisso. Apenas previsível.
Mas o inesperado aconteceu fora dos gabinetes, longe dos holofotes oficiais.
Um jovem, sem carro, sem casa, sem protecção, sem palco, apareceu no centro da atenção mundial. Michel Kuka Mboladinga Lumumba não trouxe bandeiras gigantes nem discursos inflamados. Não pediu audiências nem reclamou microfones. Ficou. Parou. Resistiu. Em silêncio.

E foi esse silêncio que falou.
Enquanto os milhões tentavam convencer, o gesto simples obrigou o mundo a escutar. Não havia slogan para interpretar, nem nota de imprensa para enquadrar. Apenas um corpo presente, uma identidade assumida, uma história que dispensava explicações. O silêncio transformou-se em linguagem universal.
Talvez por isso, num texto atribuído ao grande Koffi Olomide que se tornou viral nas redes sociais, se tenha percebido algo essencial: há actos que comunicam mais do que qualquer campanha. Há pessoas que se tornam símbolos sem o querer. Há verdades que não precisam de ser ditas.
O que o jovem Michel, a absoluta reencarnação do líder Patrick Lumumba, revelou não foi apenas uma falha de estratégia institucional. Demonstrou, sim, uma distância perigosa entre um Estado e o seu povo. Porque nenhum investimento externo substitui a força simbólica de um cidadão consciente, livre e determinado. Nenhuma marca global consegue comprar a autenticidade de um gesto que nasce da dignidade.
Vivemos uma era em que os países querem ser vistos, mas esquecem-se de ser sentidos. Querem visibilidade, mas não escutam as vozes internas. Querem narrativas controladas, mas temem as histórias reais. E, no entanto, são essas histórias que atravessam fronteiras.
O silêncio de Lumumba não foi vazio. Foi cheio de história, de feridas coloniais não cicatrizadas, de esperanças adiadas, de orgulho africano que recusa ser traduzido em marketing. Foi um silêncio que incomodou porque não podia ser instrumentalizado.
Talvez esteja aí a grande lição: os povos não precisam de falar mais alto para serem ouvidos. Precisam de ser verdadeiros. Quando isso acontece, o mundo pára. Observa. Questiona-se.

E compreende, mesmo sem palavras.

Porque, às vezes, o silêncio não é ausência de voz.
É a forma mais alta de dizer: estamos aqui.

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga