Este ano, o discurso sobre o Estado da Nação será o último antes das eleições. Mas importa recordar que o estado de um país não se mede apenas pelas infra-estruturas inauguradas, pelos barris produzidos ou pela electricidade que ainda sobra. Mede-se também pela capacidade de preservar os recursos naturais que sustentam a vida e o bem-estar das gerações actuais e futuras. E, na biodiversidade, o balanço que conta não está nos discursos, está no terreno.

Há motivos para orgulho. No último ano, Angola reforçou a sua rede de protecção com as novas áreas de conservação da Serra do Moco, no Huambo, e da Serra do Pingano, no Uíge. O Plano Nacional da Biodiversidade 2026-2030 dá-nos, finalmente, um rumo estratégico para gerir o sistema nacional de áreas de conservação ambiental.

Dois marcos colocaram o País no mapa mundial da conservação. Angola viu reconhecida pela UNESCO a sua primeira Reserva da Biosfera, que abrange uma parte do Parque Nacional da Quiçama e uma parte marinha. Lisima, no Moxico, passou a ser a primeira zona húmida angolana de importância internacional ao abrigo da Convenção de Ramsar e é o quinto maior sítio Ramsar do mundo.

Estas conquistas são da Nação. Devem-se a técnicos, investigadores, comunidades e instituições que trabalharam durante anos para que fossem possíveis. Mas uma linha traçada no mapa não protege uma floresta nem garante a sobrevivência das espécies. Quem as protege é o fiscal no terreno, a comunidade que beneficia da conservação, o plano de gestão com orçamento para ser implementado, os parceiros que mobilizam conhecimento e experiência.

Com mais de 1.650 quilómetros de costa, Angola continua sem uma única área marinha de conservação, embora o ordenamento do espaço marinho seja apontado como prioridade há anos. A área proposta no Namibe está encalhada ,e a biodiversidade marinha local está a ser dizimada silenciosamente. A Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, publicada em 2018, está desactualizada, e não se protege bem aquilo que não se conhece.

As áreas de conservação ambiental que já existem continuam frágeis, com poucos fiscais, pouco financiamento e poucos quadros técnicos experientes. Entretanto, o pangolim, o manatim, os elefantes da floresta, as tartarugas marinhas e a Palanca Negra Gigante continuam ameaçados. A palanca é o símbolo que demos à nossa Selecção de futebol, à nossa companhia aérea e ao nosso orgulho. Uma Nação que deixa desaparecer o seu próprio símbolo perde mais do que uma espécie.

Angola subscreveu o Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal e a sua meta 30x30, que pede a protecção de 30% das áreas terrestres e marinhas até 2030. Faltam pouco mais de quatro anos. Só com parques nacionais não chegaremos lá. As Outras Medidas Efectivas de Conservação Baseadas em Área (OECMs) abrem um caminho que é nosso. Reconhecem a conservação que já ocorre em terras comunitárias, em florestas sagradas, em concessões privadas bem geridas e em iniciativas da sociedade civil. Fazem da conservação uma tarefa de todos, e não apenas do Estado.

Nada disto funcionará sem pessoas. Precisamos de formar quadros técnicos, de mais fiscais e de verdadeiras parcerias com universidades, organizações não-governamentais e parceiros internacionais. Sem capacidade humana e institucional, as metas ficam no papel.

A pergunta que se impõe em 2026 não é que legado deixa um Governo. É que Angola deixamos aos nossos filhos. A resposta vai depender da execução e não dos anúncios: da coragem de pôr o longo-prazo à frente do imediato e de trabalhar no terreno com esperança activa. O futuro dos angolanos que ainda não nasceram depende das escolhas que fizermos hoje. E um dia serão eles a julgar o que esta geração foi capaz de fazer.