Num dos episódios relatados por Azulay, acontecido algures fora de Angola, um militar aborda um fotojornalista que se encontrava a fazer cobertura numa perigosa zona de conflito armado. Detinha um inimigo capturado. O beligerante propôs ao repórter o seguinte: que registe, em imagem, a execução iminente. Uma fotografia crua, directa, com potencial para circular o mundo e disputar prémios internacionais como o World Press Photo. A lógica era imediata: uma imagem forte, bastava carregar no obturador.
O repórter recusou. Não iria transformar a morte em espectáculo, nem colaborar numa encenação que desvirtuava o acto jornalístico. Não estava ali para produzir troféus visuais à custa de uma vida. Pelo contrário, estava ali para reportar. A recusa foi, em si mesma, uma escolha ética. E uma afirmação de limites (entre o profissionalismo e a ética).
Recordo este exemplo a propósito da guerra no Médio Oriente e de como alguns meios de comunicação ou jornalistas banalizam a morte e a destruição. Com frequência crescente, a morte surge tratada na comunicação social com uma leveza desconcertante. Não apenas como facto, mas como produto. Veja-se o título da Deutsche Welle: "Barato e mortal. O drone iraniano que revoluciona a guerra", a propósito da máquina bélica Shahed 136. O foco desloca-se. A letalidade passa a atributo. A eficácia substitui a gravidade. O resultado é um texto que descreve capacidade de destruição com tom quase técnico, longe de consequências humanas.
O mesmo padrão repete-se. O Semanário Expresso anuncia em letras garrafais: "O drone assassino já está nos Açores: MQ9 Reaper aterrou na Base das Lajes", sobre o norte-americano MQ9 Reaper, conhecido como "drone assassino". A CNN escreve sobre a mesma arma: "Caros, furtivos, inteligentes e espectaculares". São máquinas concebidas para matar, apresentadas como se fossem dispositivos de alta performance, comparáveis a produtos de engenharia de consumo. A guerra é descrita em termos de inovação. A morte surge como consequência secundária.
A morte deixou, em muitos casos, de ser tratada como ruptura para passar a ser registada como rotina. Perdeu-se o peso do acontecimento, diluído em contagens sucessivas, em balanços diários que somam vítimas como se fossem dados de circulação. A dor, que deveria convocar recato e responsabilidade, surge nivelada por uma linguagem neutra, quase administrativa. Este jornalismo, que transforma vidas em números e números em títulos, não informa melhor - apenas distancia. E, ao fazê-lo, normaliza o que nunca deveria ser normal: a perda humana reduzida a estatística.
As redes sociais amplificam este desvio. A lógica do alcance, do clique e do "gosto" empurra conteúdos para uma exposição rápida, muitas vezes desprovida de contexto e medida. A morte torna-se mais um elemento de consumo imediato, ajustado a títulos curtos e imagens fortes, pensados para circular e não para informar. Neste ambiente, o critério editorial cede lugar à reacção instantânea, e a gravidade dos factos é frequentemente subordinada ao seu potencial de viralização. O resultado é um jornalismo contaminado pela urgência digital, onde a dor alheia é convertida em tráfego.
Desde o início do conflito no Golfo Pérsico, as autoridades iranianas contabilizaram pelo menos 1.332 mortos - entre os quais o "Ayatollah" Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica desde 1989, entretanto substituído pelo seu segundo filho, Mojtaba Khamenei, e o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani - e mais de 10.000 feridos. Na sequência da fracassada tentativa de cessar-fogo, o Papa Leão XIV criticou a escalada de violência, o que resultou em fricções diplomáticas entre o Vaticano e a Casa Branca.
No fim do dia, ao sabor do sensacionalismo da imprensa, a notícia sobrevive. Mas a humanidade que deveria contê-la, essa sim, morre em silêncio sob o peso da propaganda. O jornalismo que não se detém na dor já não serve a vida; serve apenas ao espectáculo.n
* Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto
