A sua geração foi a dos que tiveram que tomar a difícil decisão - muitos deles num momento em que tinham diante de si uma avenida de facilidades aberta pelo diploma recém-conquistado de um curso superior, o que, na época, ainda mais do que agora, era atributo de uma pequena minoria - de abandonar o espaço geográfico governado por Portugal para se juntar aos que se predispunham a trilhar o árduo caminho de uma diáspora que se ia estabelecendo em países que apoiavam lutas de libertação, entre outras a de Angola, com o firme objectivo de voltar aos seus territórios de origem para ajudar a construir nações, países livres e independentes, onde o sol pudesse brilhar para todos.
Uma geração dificilmente entendida nos dias de hoje, principalmente pelos mais jovens, que, moldados por uma conjuntura que privilegia o individualismo, apoiados pelas concepções liberais tão em voga, estão igualmente focados na diáspora, mas na Europa ou similares, à procura de uma oportunidade que lhes proporcione a satisfação dos seus desejos. Parece ter deixado de fazer sentido a célebre frase proferida pelo Presidente dos EUA, John F. Kennedy: "Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti - pergunta o que podes fazer pelo teu país".
Talvez por isso não seja tanto de admirar a falta de participação de jovens no lançamento do livro "As Ideias e as Coisas", de Luís Bernardino, que aconteceu no pretérito sábado. A sala, felizmente bem composta em termos de participantes, era um mar de neve encimando veneráveis cabeças. Numa sessão com a presença do autor e mediada por Carlos Melo, Manuela Sande apresentou as preocupações do autor sobre o percurso que a saúde (não) tem tido em Angola, e Fernando Pacheco resumiu, de forma brilhante, as grandes preocupações filosóficas, políticas e sociais expressas no livro, que caracterizam o mundo em que vivemos, onde o nosso país não tem sido capaz de estar à altura das expectativas criadas pelos sonhos e promessas que alimentaram os que lutaram para que a independência fosse um facto a 11 de Novembro de 1975.
Volvidos 51 anos, o país desigual que somos - desigualdade que se transformou em ideologia - não pode deixar de desiludir quem dedicou a sua vida a ajudar a construir um país que pretendia que fosse mais justo.
Uma doença global que parece minar o bom-senso e o respeito pelo outro, permitindo a ascensão de novos títeres que se julgam os senhores do mundo, destruindo as redes de apoio social que foram sendo criadas, permitindo Gazas, e promovendo, com o disfarce do empreendedorismo, os oligopólios que controlam a economia mundial, na mão de um punhado de super-ricos, não pode senão deixar ainda mais desesperançados os que acreditavam num futuro melhor.
O livro de Luís Bernardino, As Ideias e as Coisas, ora dado à estampa, e que colige textos que obrigam à reflexão sobre um amplo conjunto de temas, é oportuno.
Obriga-nos a pensar no que fomos, no que almejámos e no que somos.
