Devo reconhecer o importante apoio da Dra. Irene Neto, filha de Agostinho Neto que, em seu nome e da Fundação António Agostinho Neto (FAAN), teve a disponibilidade de me fornecer material que me permitiram fazer uma apresentação com sucesso e com foco, sobretudo, numa relação baseada na solidariedade política, o reconhecimento académico, a literatura e a memória africana. Uma abordagem realçando aos diplomatas angolanos em Abuja que a relação entre Agostinho Neto e a Nigéria constitui um capítulo particularmente importante, e ainda "insuficientemente estudado", da história política, diplomática e cultural africana do século XX. Ela não começa com a independência de Angola, em 11 de Novembro de 1975, nem se limita às relações diplomáticas estabelecidas entre os dois Estados, como referiu Irene Neto... é que Agostinho Neto já era conhecido nos círculos literários nigerianos muitos anos antes da independência de Angola!
Em 1964, a revista literária Black Orpheus, publicada em Ikeja, Lagos, incluiu três poemas de Agostinho Neto, nomeadamente "African Poem", "Friend Mussunda" e "Kinaxixi". Ou seja, onze anos antes da independência nacional, a sua poesia já chegava à "Naija". A Nigéria literária antecipava-se à Nigéria política no conhecimento do trabalho de Neto.

É importante referir que durante a luta anticolonial angolana, A Nigéria não ocupou para o MPLA exactamente o mesmo lugar operacional que países como a Tanzânia, a Zâmbia, o Congo-Brazzaville e a Argélia desempenharam em momentos distintos, particularmente no acolhimento dos movimentos de libertação, na formação política, no apoio diplomático e, nalguns casos, militar, como refere a informação partilhada pela FAAN. Mas o "Gigante de África", possuía algo diferente: peso continental! Era o país mais populoso de África, uma potência regional em ascensão, um grande produtor de petróleo e um Estado cuja posição podia alterar o equilíbrio político dentro da Organização da Unidade Africana (OUA). Com a chegada ao poder de Murtala Muhammed em Julho de 1975, a sua política externa caracterizou-se por uma maior assertividade africana, um forte compromisso com a libertação do continente e uma atitude particularmente firme contra os regimes de minoria branca e o Apartheid na África do Sul. A Nigéria reconheceu formalmente o Governo do MPLA, dirigido por Agostinho Neto, a 24 de Novembro de 1975; a decisão teve grande repercussão internacional, como refere o documento a que tivemos acesso: "Lagos não se limitou a reconhecer o Governo de Luanda e mobilizou também a sua diplomacia para encorajar outros Estados africanos a fazê-lo.

"Agostinho Neto não sabia a quem bater à porta. Quando desesperado, lembrou-se dos amigos da Nigéria. (...) Por lá, havia muita gente milionária, mas em matéria de solidariedade africana, havia também muita gente séria. Gente que assumiu como sua a causa angolana. E sabendo que quem, naquele momento mais agonizante, mais precisava dessa solidariedade era Agostinho Neto, Murtala Mohammed, o Presidente nigeriano, não hesitou em estender-lhe a mão com armas e apoio financeiro", escreveu o jornalista Gustavo Costa no artigo "Agostinho Neto não merecia isso...", na sua coluna "Palavra de Honra", do Novo Jornal, em Setembro de 2020. O apoio nigeriano não foi exclusivamente diplomático, tendo sido também académico, com a atribuição de bolsas de estudo. Outro aspecto relevante foi o de Murtala Mohammed ter advertido as companhias petrolíferas norte-americanas que ponderavam abandonar Angola de que uma atitude dessa natureza poderia afectar igualmente os seus interesses na Nigéria - o que foi confirmado em declarações da engenheira Albina Assis e de Desidério Costa. Tivemos neste quesito a solidariedade nigeriana a incidir simultaneamente sobre a legitimidade política, a sobrevivência económica, a formação de quadros e a capacidade material de um Estado que acabava de nascer: Angola .

Murtala Mohammed foi assassinado a 13 de Fevereiro de 1976. O general Olusegun Obasanjo sucedeu-lhe no cargo e manteve as linhas fundamentais da orientação africana e anti-apartheid da política externa nigeriana. É sob a presidência de Obasanjo que Agostinho Neto recebe, a 19 de Janeiro de 1978, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lagos - uma verdadeira consagração africana em vida de Agostinho Neto!

Muito ainda se pode escrever e publicar sobre esta ligação de Agostinho Neto à Nigéria e o apoio deste país à Angola. Teremos certamente espaço para publicação das informações recolhidas e partilhadas com o NJ pela Dra. Irene Neto e a FAAN.