À primeira vista, esta pode parecer uma questão exclusivamente cultural ou académica. Não é. Trata-se de uma questão económica, administrativa e estratégica. Sempre que é necessário intervir num edifício público cuja documentação se encontra incompleta, dispersa ou perdida, existe um custo adicional. Sempre que se repetem levantamentos técnicos, se reconstituem arquivos desaparecidos, se elaboram estudos que poderiam já existir ou se tomam decisões com base em informação insuficiente, esse custo é suportado por todos nós.
Ao longo dos últimos cinquenta anos, Angola investiu biliões de kwanzas na construção de escolas, hospitais, universidades, tribunais, administrações municipais, infra-estruturas, equipamentos culturais, bairros, centralidades e edifícios públicos. Este património constitui um dos maiores activos do Estado angolano. No entanto, continua a ser, em grande medida, um património pouco conhecido do ponto de vista documental. Em muitos casos, desconhece-se publicamente quando foi construído, quem o projectou, que transformações sofreu ou qual é o seu estado de conservação. As consequências desta realidade são silenciosas, mas permanentes. As obras atrasam-se porque é necessário produzir novamente informação que já deveria existir. A manutenção torna-se mais complexa e dispendiosa. O planeamento perde rigor. As prioridades confundem-se. O património desvaloriza-se. O investimento público torna-se menos eficiente. O custo do desconhecimento raramente aparece identificado nos orçamentos. Não existe uma rubrica denominada "falta de informação". Contudo, manifesta-se diariamente através da duplicação de trabalho, do desperdício de recursos, dos atrasos administrativos e até da perda
de oportunidades de financiamento. É um custo invisível, mas profundamente real. Talvez o maior desperdício das últimas cinco décadas não esteja apenas em edifícios degradados ou em obras inacabadas. Talvez resida também na informação que nunca chegámos a produzir, organizar ou preservar sobre aquilo que construímos. É precisamente por isso que o conhecimento não deve ser encarado como uma despesa, mas como um investimento. A verdadeira questão não é quanto custa organizar a informação sobre o património construído. A verdadeira questão é quanto custa continuar sem a organizar.
Basta comparar duas realidades. Na primeira, existe informação fiável sobre o património que se administra. Antes de reabilitar uma escola, ampliar um hospital ou adaptar um edifício público a uma nova função, conhecem-se as suas características, o histórico das intervenções realizadas e os elementos necessários para fundamentar as decisões. O tempo de preparação reduz-se, os custos imprevistos diminuem, as obras tornam-se mais eficientes e os recursos públicos são aplicados com maior rigor. Na segunda realidade, essa informação não existe ou encontra-se dispersa. Cada nova intervenção obriga à realização de levantamentos adicionais, à procura de documentação desaparecida, à reconstrução de elementos técnicos e à repetição de estudos que já deveriam integrar o património documental do Estado. O resultado traduz- se em atrasos, aumento de custos, decisões menos rigorosas e maior desperdício de recursos.
A diferença entre estas duas realidades não reside apenas na qualidade da informação. Traduz-se numa diferença profunda na forma de gerir o património público. Quem conhece o que administra consegue planear melhor, estabelecer prioridades com maior rigor, reduzir desperdícios e preparar o futuro com maior segurança. Quem desconhece uma parte significativa dos seus próprios activos acaba, inevitavelmente, por decidir em função da urgência e não da evidência.
É esta a razão pela qual muitos países investem continuamente na documentação e organização do património construído. Não o fazem apenas para preservar a memória ou apoiar a investigação científica. Fazem-no porque compreenderam que a informação constitui uma infra-estrutura estratégica do Estado. Tal como uma estrada melhora a mobilidade ou uma rede eléctrica aumenta a produtividade, uma base sólida de conhecimento melhora a qualidade das decisões, reforça a eficiência da administração pública e valoriza o investimento realizado ao longo de décadas.
Em Angola, onde o investimento em infra-estruturas transformou profundamente o território nas últimas cinco décadas, esta reflexão torna-se particularmente pertinente. Cada edifício cuja informação se perde representa conhecimento que terá de ser produzido novamente. Cada levantamento repetido representa recursos que deixam de ser investidos noutras prioridades. Cada decisão tomada sem informação suficiente aumenta o risco de gastar mais para alcançar resultados inferiores. Os benefícios de uma cultura de documentação estendem- se muito para além da arquitectura. O Estado reforça a sua capacidade de gestão. Os governos provinciais e as administrações municipais passam a planear com maior rigor. As universidades encontram uma base sólida para investigação. O turismo beneficia de uma melhor valorização do património arquitectónico e cultural. As empresas de arquitectura, engenharia e construção trabalham com informação mais consistente, reduzindo riscos e aumentando a qualidade das intervenções. Em última análise, beneficiamos todos.
Talvez tenha chegado o momento de compreender que o verdadeiro património de um país não é apenas aquilo que constrói. É também a capacidade de conhecer, organizar e aprender continuamente com aquilo que construiu. Construir é indispensável, mas conhecer aquilo que construímos é o que pode transformar novos desperdícios em investimento público inteligente, património em valor e memória em futuro.n
* Arquitecto e Investigador Phd em arquitectura
