Lá em cima, a chuva chega miudinha, dessas que não molham mas beijam. É um orvalho que aquece a alma enquanto cá dentro, o vidro embacia. O verde, não é o frondoso das florestas mas não é parco. É um verde que escorre pelas encostas, que se pendura nos socalcos e que promete mundos. E as paredes, talhadas pelo vento e pelo tempo, contam histórias de eras, de águas que passaram, de ventos que cantaram. São rugas de pedra, lembranças esculpidas à mão por um escultor paciente que respondia pelo nome de natureza.
Convém não ignorar que esta obra não nasceu de um capricho ou de um rabisco feito à pressa num guardanapo. Foi pensada a sério, com a gravidade que o caso merecia. Lá para os finais dos anos 60, o Grupo de Estudos da Junta Autónoma de Estradas de Angola debruçou-se sobre a montanha como quem se debruça sobre um problema de matemática superior. Com o apoio de fotografias aéreas e depois no Laboratório de Fotogrametria da JAEA, aquelas imagens transformavam-se em mapas precisos, com curvas de nível que mais pareciam as linhas da mão de um adivinho.
Depois do gabinete veio o suor. Porque traçar uma estrada no papel é uma coisa; agarrar naqueles desenhos e dizê-los à montanha, é outra. Foram precisos homens de coragem e trena. Duas equipas de topografia lá se aventuraram por aquelas encostas, por volta de 1969 e 1970. Uma desceu desde o Miradouro até meio da serra. A outra, subiu desde a Tampa, lá na base da Leba. E ali se encontraram, no meio da montanha, como dois mineiros a abrir um túnel. Apertaram-se as mãos, conferiram-se as medidas e estava feito o milagre: a estrada ligava-se, perfeita, curva a curva. Um encontro que não foi obra do acaso, mas sim do cálculo, da técnica e da teimosia em domar o indomável.
Estamos na Serra da Leba. Um caminho que une, que separa. O colosso que junta o planalto ao litoral. O cordão umbilical que liga o Lubango a Moçâmedes. Dá vontade de parar o carro, bater palmas e oferecer um café aos engenheiros, projectistas e topógrafos que traçaram aquelas linhas no mapa. É o ex-líbris, o postal, o suspiro do turista. Por ela sobem e descem o desenvolvimento, o comércio, o peixe, o turismo e a esperança.
Mas não se deixe enganar pela poesia, porque a mesma estrada que nos orgulha também nos fere. O asfalto, esse, está doente. Está manchado por uma imensidão de buracos. Feridas abertas no tempo e no alcatrão. Não sangram, não, mas fazem sangrar. Fazem sangrar os pneus, os amortecedores, a paciência de quem ali trafega. E pior, fazem sangrar vidas. Numa curva, um desvio, um susto. De noite, esta obra-prima é uma armadilha.
A vegetação nativa é, aos poucos, removida da paisagem para fazer carvão. É agora uma actividade tão normalizada que quase ninguém se espanta. As árvores arrancadas dão lugar à erosão agravando o risco de deslizamentos de terra. A falta destas facilita o correr mais rápido da água que, por sua vez, acelera os processos erosivos. E para os mais atentos não é apenas erosão ambiental. É também erosão do tecido social. Famílias que se fixam indiscriminadamente e crianças pedintes que mendigam no serpentear da vida. Mãos estendidas sem resposta.
De nada serve o encontro perfeito das equipas no meio da serra em 1970, se hoje os automobilistas se encontram... é com os buracos, degradação, morte. E não há curva de nível que safe um pneu mal alinhado.
É irónico, não é? Temos uma espinha dorsal da região, mas com hérnias discais. Um monumento à engenharia que precisa de engenheiros... para ser consertada. E ali fica ela, a Serra, linda e imponente, a espreitar lá do alto os homens que a engravidaram de beleza, mas a deixaram parida ao abandono.

