Fernando Dias da Costa, candidato vencedor das eleições presidenciais, segundo todos os dados disponíveis, só não está em prisão com os cinco acima referidos, porque conseguiu escapar dos algozes e refugiar-se na Embaixada da Nigéria em Bissau, onde permanece desde final de Novembro.
A prisão dos cinco destacados políticos guineenses e o refúgio forçado do vencedor das presidenciais numa Embaixada em Bissau testemunham a continuidade do regime totalitário do derrotado Presidente Umaro Sissoco Embaló (USE).
Ao tolerarem violações de direitos humanos e da dignidade humana de políticos da oposição e activistas na Guiné-Bissau e de outros estados do continente, organizações africanas como a sub-regional CEDEAO e a própria União Africana (UA) contribuem para o seu próprio descrédito e sua transformação em párias.
A manutenção da prisão desse grupo de políticos deixa claro o objectivo dos golpistas. Evitar a concretização da mudança política pela via pacífica, travar a escolha dos guineenses bem como o fim de um regime que "normalizou a tortura" a opositores e críticos, testemunhou o activista Armando Lona, numa conferência da Diáspora guineense em Lisboa, no último Sábado, 3 de Janeiro.
Jornalista, investigador e líder da Frente Popular (organização da sociedade civil), Armando Lona, detido pelo regime de Bissau em 2024, denunciou torturas de que ele e seus companheiros de cárcere foram vítimas, durante dez dias consecutivos, por organizarem uma manifestação contra a dissolução ilegal do Parlamento por Sissoco Embaló.
Com o lema: "República i anós" (República somos nós), ou seja, a República pertence aos cidadãos e não aos decisores políticos, a Frente Popular é uma plataforma criada em 2024 por organizações da juventude, de mulheres e sindicatos para pôr a nu o "golpe constitucional" na Guiné-Bissau, a dissolução do Parlamento em Dezembro de 2023.
Descrevendo a natureza sanguinária do poder na Guiné-Bissau, Lona admite que, tal como o seu grupo, Domingos Simões Pereira e outros presos políticos estejam a ser vítimas dos "esquadrões de tortura", criados pelo regime de USE, agora representado pelos militares golpistas, seus aliados.
Estas prisões cumprem a agenda de Sissoco Embaló, nomeadamente a de impedir, como tantas vezes repetiu, que Domingos Simões Pereira volte a ocupar funções de Estado no seu País.
A destituição da Assembleia Nacional Popular (ANP), Parlamento guineense, presidido por Domingos Simões Pereira, faz parte desse plano sissoquista, visando retirar ou reduzir a presença Domingos Simões Pereira do palco político nacional.
Nos últimos seis anos, USE protagonizou golpes palacianos, derrube anti-constitucional do Parlamento, captura armada do Supremo Tribunal de Justiça, dos partidos, dos sindicatos, dos media e nomeação de inúmeros governos de iniciativa presidencial, num sistema semi-presidencial, transformando o Presidente no único poder efectivo e sem qualquer escrutínio.
E ainda, sem conseguir retirar DSP da liderança do seu partido, ordenou ataques à sede do PAIGC e desencadeou outros actos contra o partido, nomeadamente artimanhas jurídicas para impedir a realização do Congresso do partido fundado por Amílcar Cabral.
Todas essas violações das leis e da dignidade dos cidadãos, a tortura e outras formas de violência praticadas pelo regime guineense, denunciadas por diferentes formações políticas e por inúmeras organizações da sociedade civil africanas e guineenses, nomeadamente a Liga Guineense dos Direitos Humanos, foram sempre ignoradas pela CEDEAO e pela própria UA.
No lugar de sanções e outras medidas punitivas em defesa da vida e da dignidade dos guineenses, essas organizações africanas, como é seu apanágio, normalizaram a situação e deixaram e continuam a deixar os guineenses entregues à sua própria sorte, provavelmente a espera do pior para depois, cinicamente, lamentarem.
Por omissão, essas organizações ajudaram a criar o monstro Embaló e a alimentarem a sua acção ditatorial, tal como fazem em outros casos, contribuindo para que o continente pareça "um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço", na expressão de Agostinho Neto.
Com o comportamento da UA, da CEDEAO e outros organizações sub-regionais, o neocolonialismo francês tem uma auto-estrada aberta para controlar países africanos e a Administração Americana licença para fazer do continente o seu brinquedo.
Trump dá-se ao luxo de entrar sem pedir licença e, bombardear algumas áreas da Nigéria em nome de pretensa protecção de cristãos, ou apoderar-se de recursos minerais de um outro Estado, RDC.
Num continente com autocracias e ditaduras em maioria e muitos governos ao serviço da agenda expansionista imperialista e neo-colonialista de Washington ou Paris, para muitos políticos torna-se mais fácil ou rentável comover-se com qualquer indisposição de um ocidental que com o sofrimento dos seus concidadãos ou de outros africanos.
Muitos desses governantes trabalham principal ou exclusivamente pela sua manutenção poder, agindo, por isso, para a salvaguarda das "boas relações" ou interesses ocidentais, para garantir a sua permanência no poder, meio indispensável ao enriquecimento pessoal, familiar e do seu restrito grupo.
Esses mesmo políticos, como lembra Carlos Lopes, intelectual da Guiné-Bissau, por falta de legitimidade nos seus países, fazem de reuniões, audiências, até encontros de ocasião com os ocidentais uma espécie de aceitação, de reconhecimento da sua importância no panorama internacional e, consequentemente, nacional.
"Muitos líderes africanos sofrem com a falta de legitimidade interna e sabem que aparecer em um palco europeu lhes garante status", sublinha Carlos Lopes, acrescentando que "a Europa pode «comprar» um líder sem gastar um centavo; basta convidá-lo para um evento e não convidar aqueles que defendem a posição africana comum".
Como se viu recentemente com o Presidente da União Africana e de Angola que se manifestou satisfeito com elogio de ocidentais que o "incentivaram a prosseguir" o actual rumo que levou ao aprofundamento da miséria em Angola.
Nos oitos anos de mandato de João Lourenço, a pobreza em Angola aumentou 80%, o número de crianças fora do sistema de ensino passou de 2,5 milhões para cerca de cinco milhões. Enquanto isso, crescem os lucros dos ocidentais com negócios com Angola.
Em busca de palmadinhas ocidentais nas costas, políticos africanos matam, ajudam a matar, retiram dignidade aos povos que dizem representar. E quando as populações, principalmente os jovens da Geração Z, se revoltam, protestam e recusam a continuação desses regimes opressores e repressores, as respostas são invariavelmente as mesmas: há mão externa
Numa altura em que, com Donald Trump, o mundo ficou mais desregulado, África, antes de se bater por reformas da também obsoleta e inoperante ONU, devia reformar-se a si própria no sentido da integração. Reformar as suas organizações, e deixar de servir de bobo da corte de políticos europeus em particular e ocidentais em geral.
Europeus como franceses e portugueses na linha da frente do branqueamento do regime ditatorial de Sissoco Embaló, lamenta Armando Lona.
Mas os guineenses, farol da Luta de Libertação Nacional em África, hoje símbolo da resistência contra a tirania, reafirmam a sua aposta em mudar pacificamente o País e servir de exemplo ao Continente.
Assim, enfrentando todo o tipo de repressão, organizam protestos contra o auto-golpe sissoquista, pela libertação imediata e incondicional dos presos políticos e pelo respeito dos resultados eleitorais do escrutínio de 23 de Novembro último.
Resistência extensível à Diáspora, nomeadamente em Portugal, que mesmo perante condições climatéricas adversas, vai-se desdobrando em conferências, semanalmente, aos Sábados, acções de protestos de rua e de denúncia da continuidade da ditadura sissoquista.