Não há, e nesta quarta-feira, 11, o 12ª dia desta guerra, para além dos ataques sobre o Irão e a resposta de Teerão contra Israel e as bases americanas nos petroEstados do Golfo Pérsico, também o Estreito de Ormuz permanece encerrado.
E sem esta passagem aberta entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, o mundo deixa de ter, diariamente, cerca de 20% do crude que consome, cerca de 100 milhões de barris, além de quase 20% do LNG, o que fez dos mercados energéticos uma "pilha" de nervos.
Na segunda-feira desta semana o barril de Brent chegou mesmo a bater nos 120 USD, uma valorização, ainda assim, segundo vários analistas, quando a economia global acabara de perder 20% do seu "gás" de um dia para o outro.
Foi, porém, bastante para diluir esse nervosismo que o Presidente dos EUA tenha vindo falar num fim para breve do conflito, porque o "trabalho" estava praticamente feito no Irão.
O que provocou uma queda igualmente abrupta do preço do barril, tanto no Brent, que serve de referência para as exportações angolanas, como no WTI, de Nova Iorque, que passou dos 100 USD, uma machadada gigantesca na economia norte-americana.
Os mercados acreditaram em Donald Trump mesmo que não tivessem nada a que se agarrar para confirmar as suas expectativas, e o barril deslizou para perto dos 83 USD, mostrando que o desejo por vezes também comanda este negócio trilionário.
Mas, com o tempo a passar, e com declarações oriundas de Teerão a garantir que o Estreito de Ormuz não voltará a abrir até que os EUA parem os ataques, aceitem dar garantias sólidas de que não voltam a bombardear, ou Israel...
... o nervoso miudinho voltou aos mercados, especialmente depois de Ali Larijani, o chefe do Conselho de Segurança Nacional, e a voz de comando neste período de transição na liderança Suprema do Irão, dizer, na respota a Trump, que a guerra vai durar "o que for precuso"...
... para garantir que nem americanos nem israelitas voltam daqui a uns meses - depois de em Junho de 2025 ter decorrido a "guerra dos 12 dias" - a atacar o Irão, exigindo ainda o levantamento das sanções a que o país está sujeito a quase meio século.
Isto, porque, depois da eleição de Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, o Supremo Líder assassinado no primeiro dia de guerra, 28 de Fevereiro, para liderar o país como novo Supremo Líder, o Irão já disse a diferentes vozes que não procura um cessar-fogo sem condições claras e inequívocas.
E foi neste contexto de incerteza, quando o "pouco tempo" de Trump começa a ganhar corpo de tempo demais para a crise que começa a afectar a economia global, que o barril de Brent voltou a galgar terreno para se ficar acima dos 90 USD de novo.
E as coisas não estão ainda mais aceleradas nos batimentos cardíacos dos mercados internacionais de crude porque as grandes economias mundiais, como o Japão, a Alemanha ou os EUA estão a começar a falar em libertar partes das suas reservas estratégicas para acalmar a "sede" de petróleo que se começa a fazer sentir no eixo da economia mundial...
E este movimento pode ser ainda maior se a reunião do G7, prevista para as próximas horas, concluir pela necessidade de todos os membros abrirem a torneira das suas reservas, e derem autorização para desamarrar a Rússia das sanções que impedem este gigante energético de colocar o seu crude e o seu LNG nos mercados.
Para já, nesta quarta-feira, 11, perto das 14:30, hora de Luanda, o barril de Brent estava a valer 90.7 USD, mais quase 4% que no fecho de terça-feira, sendo que no WTI a subida é igualmente expressiva, para os 86,10 USD.
Para Angola, que viu coincidir os seus mais promissores períodos de crescimento económico com preços elevados do barril nos mercados, este é um tempo de oportunidades, porquanto 90 USD representa um excedente de quase 30 USD face aos 61 USD usados como valor médio anual para o OGE 2026.
Angola soma ganhos, mas...
O actual cenário internacional, embora escorregadio, tende a manter os preços acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.








