No arranque desta semana, a última do mês de Fevereiro, o Presidente dos EUA veio aliviar a folga no gatilho quanto a um ataque contra o Irão, depois de fazer deslocar para o Médio Oriente a maior concentração de meios militares desde a invasão do Iraque, em 2003.
Como pode ser revisitado aqui, Trump está surpreendido porque o Irão, mesmo com tantos meios de ataque nas suas imediações, teima em não se render ás exigências dos EUA e de Israel, mas antes pelo contrário, assumindo uma postura de desafio, garantindo uma resposta célere e devastadora contra os interesses dos EUA e dos seus aliados na região.
Alias, é essa surpresa, transmitida pelo seu enviado para negociar com o Irão, Steve Witkoff, que parece estar a conter os mercados petrolíferos que, se bem que estejam há vários dias a engrossar o "verde", em situações semelhantes no passado, esse efeito seria ainda mais vincado.
Ainda assim, a dúvida é evidente e o risco de um ataque está longe de ter sido dissipado, sobressaindo a ideia, como referem vários analistas, de que o Presidente norte-americano está a meio da ponte, pressionado pela economia, que o aconselha a não atacar, e Israel e o seu lobby poderoso nos EUA, que o empurram na direcção oposta.
E é por isso, com a ajuda da Goldman Sachs, que esta segunda-feira, 23, avança com um report onde prevê que o preço médio do petróleo Brent deve cair para 56 dólares por barril no último ¼ de 2026 devido à fraca procura global e excesso de oferta, sem contar com a crise actual no Médio Oriente, o barril se mantém ligeiramente acima dos 71 USD.
Com efeito, sublinhando os analistas que o efeito Irão/EUA deveria ter por esta altura um efeito mais pesado na subida, o barril de Brent, a referência maior para as exportações angolanas, estava a valer, perto das 14:40, hora de Luanda, 71,90 USD, mais 0,20% face ao fecho da passada sexta-feira.
Apesar de ser um valor recorde para Julho de 2025, estes pouco mais de 71 USD reflectem a ideia de que os mercados estão mais impressionados com o facto de o mundo estar a consumir menos energia fóssil e a oferta estar a aumentar ao mesmo tempo que o receio de Donald Trump desencadear um "armagedão" energético com um ataque ao Irão.
Para Angola, porém, 71 USD são 10 dólares acima do valor de referência usado para o OGE 2026, que é de 61 USD, o que, sendo o crude responsável, ainda, por mais de 90% das exportações nacionais, é um momento de fôlego redobrado para as contas do Estado e uma "boa" notícia para a economia angolana.
Isto, numa altura em que a OPEP+ está a recuar também na linha que manteve ao longo de quase todo 2025 com mensais e substanciais acréscimos de produção, o que gerou uma desvalorização acentuada da matéria-prima da qual ainda muito depende Angola.
Com efeito, em Novembro o "cartel" congelou o seu programa de recuperação de quota devido a um evidente e crescente excesso de produção, tendo agora decidido por manter intocada a produção para Março. Uma boa nova para o Governo angolano.
Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

