Com excepção de algumas horas, no início do cessar-fogo que já dura há mais de três semanas, o Irão mantém o Estreito de Ormuz, entre o Gofo Pérsico e o Oceano Índico, com restrições praticamente desde o início do conflito, a 28 de Fevereiro.
Com esse passo, Teerão ganhou controlo estratégico sobre o fluxo de 20% do petróleo e do gás (LNG) consumido em todo o mundo, além de substantivas quantidades de fertilizantes essenciais e compostos vitais, como o hélio, para a produção de microchips.
Ao longo de dois meses de conflito, metade deste tempo ao abrigo de um cessar-fogo periclitante, agudizaram-se problemas em todo o mundo, com a falta de combustíveis a crescer, inflação galopante, produção agrícola vital atrofiada e sem que se veja o fim desta crise.
Perante a escolha inevitável entre ceder ás exigências de Teerão ou retomar a guerra, Donald Trump escolheu uma 3ª via, ergueu o seu próprio bloqueio naval ao Irão, colocando dezenas de navios de guerra no Mar de Omã.
E com isso, Trump procura impedir o trânsito marítimo de e para os portos iranianos, o que, apesar de Teerão negar a eficácia do bloqueio que os EUA dizem que este está a ter, o efeito está a ser sentido, como o demonstra a proposta mais recente do Irão.
Proposta essa que passa por ambos levantarem as suas restrições à navegação de e para o Golfo Pérsico, embora Teerão não abdique de cobrar uma portagem no Estreito de Ormuz, deixando para mais tarde a discussão sobre o programa nuclear iraniano.
E é aqui que tanto o Irão como os EUA podem estar em esforço insustentável para ganhar o jogo do "quem pisca os olhos primeiro", porque os efeitos dos bloqueios é já uma realidade em todo o mundo.~
Exemplos disso é a escassez de jet fuel que começa a levar companhias aéreas em todo o mundo a eliminar rotas, como já está a acontecer com Luanda, a mais recente foi a Turkish Airlines, já nesta terça-feira, 28, sementeiras deixam de ser feitas e a fome pode vir a afectar severamente mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo em breve, como alerta a ONU, e a inflação galopante não observa fronteiras.
Os Estados Unidos são dos países menos sujeitos às consequências negativas das restrições à circulação no Golfo Pérsico, mas ainda assim Donald Trump já está a sentir problemas.
O que se começa a notar, desde logo, com a falta de fertilizantes e a ameaça de falência de milhares de agricultores, a inflação que gera desemprego ou com a subida eleitoralmente perigosa dos combustíveis.
E é neste efeito sobre os combustíveis que Trump pode ter mais a perder, face ao aproximar das eleições intercalares de Novembro próximo, onde corre o risco de ficar sem maioria nas duas câmaras, Representantes e Senado, do Congresso, sabendo como sabe que os eleitores norte-americanos são extremamente sensíveis ao preço da gasolina.
Perante tudo isto, e não querendo ser o primeiro a piscar os olhos neste jogo de "crianças", Donald Trump tem vindo a fazer publicações reveladoras do seu nervosismo na sua rede social Truth Social.
As mais recentes são que recebeu uma chamada de Teerão, na qual, sem identificar quem, lhe foi dito que "o Irão está a entrar em colapso e por isso quer muito que os EUA levantem o bloqueio naval".
A outra foi já nesta quarta-feira, 29, onde em forma de aviso ameaça o Irão de voltar a ser alvo dos bombardeamentos da coligação israelo-americana, escrevendo: "É bom que o Irão fique esperto rapidamente" e consiga falar a uma só voz.
Isto, já depois de se ter ficado a saber que o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, segundo media paquistaneses, e o norte-americano Axios, ter feito chegar a Trump, via Paquistão - o que não foi ainda nem confirmado nem negado por Teerão - uma proposta inovadora nos seus termos para desbloquear a situação.
Aparentemente, esta proposta iraniana permite que Irão e EUA saiam do jogo do "quem pisca primeiro os olhos" sem efeitos secundários, além dos olhos lacrimejantes de quem queria tudo e conseguiu o necessário, que é deixar a questão do programa nuclear iraniano para mais tarde.
O que levaria a que o Estreito de Ormuz fosse reaberto e o bloqueio naval dos EUA no Mar de Omã fosse levantado, aliviando assim a pressão que se aproxima a passos largos da insustentabilidade e do colapso na economia mundial, como já começam a alertar vários economistas e analistas.
Para agitar as águas e acrescentar dificuldades, e quando esse seria o último passo que se esperaria deles, os petroEstados árabes do Golfo Pérsico estiveram reunidos em Jeddah, na Arábia Saudita, para analisar a situação e a pressão a que a travagem nas exportações de crude e gás sobre as suas economias.
No comunicado final deste encontro de topo do Conselho Consultivo do Golfo (GCC, em inglês), o Irão é acusado de ter traído a sua confiança por os ter atacado, embora sabendo-se que foi a partir das bases americanas no Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Emiratos Árabes Unidos que foram lançados muitos dos ataques da coligação israelo-americana contra o Irão.
O GCC pede ainda a Teerão que dê sinais de que quer reconquistar a sua confiança após os ataques "traiçoeiros" que fez, o que se tratou maioritariamente de ataques ás basses militares dos EUA nestes países.
Para já, o jogo do "quem pisca primeiros os olhos" está ainda a decorrer, mas há uma notícia recente que pode ter ajudado a mudar a maré a favor do Irão.
É que o barril de crude, a acompanhar a saída inusitada dos Emiratos Árabes Unidos da OPEP, está nas últimas horas a atingir níveis recorde, com uma subida para lá dos 114 USD, no caso do Brent, e dos 103 USD, no WTI em Nova Iorque, valores insustentáveis para que Trump e o seu Partido Republicano mantenha expectativas positivas para as eleições intercalares de Novembro próximo.









