Além dos 4 mil milhões de pessoas que os BRICS agregam, na sua versão expandida (+) nos últimos dois anos, em Nova Deli vai estar ainda, na Cimeira de Chefes de Estado e de Governo desta organização que nasceu em 2010, 41% do PIB em Paridade de Poder de Compra (PPP), reduzindo-se esse "cimento" para 35 triliões se considerado apenas o Produto Interno Bruto (PIB) na sua formulação antiga.
São, nesta cada vez mais em uso forma de avaliar o poderio económico dos países, PIB PPP, perto de 80 triliões (biliões na escala euro-africana), o que faz deste grupo um dos que mais cresce em potencial de gerar influência no mundo.
Mas, como vários analistas notam, à medida que alarga fronteiras, aumentam as fricções geradas pela diversidade de interesses que se manifestam com cada vez mais sonoridade dentro dos BRICS+.
E um dos mais abrasivos conflitos internos no universo dos BRICS+, que recentemente alargou a sua geografia para mais seis países, dois deles africanos, a Etiópia e o Egipto, ocorre entre a Rússia e a Índia, apesar de as relações económicas e de proximidade diplomática entre Moscovo e Nova Deli serem históricas e sólidas, especialmente na área militar.
É que a crescente relevância dos BRICS+ criou sérios embaraços entre as potências dominantes das últimas décadas, assente na Ordem Mundial baseada nas regras desenhadas pelos EUA no pós-II Guerra Mundial, e para o seu interior foram lançadas repetidas "granadas sem cavilha" diplomáticas.
Uma delas foi atirada pelos EUA de Donald Trump sobre Nova Deli ao ameaçar e aplicar sanções económicas à Índia se este novo gigante asiático não revisse as suas relações comerciais com Moscovo, especialmente no fluxo de energia russa, petróleo e gás russos, por estarem sob punição europeia e norte-americana no âmbito da guerra na Ucrânia.
O primeiro-ministro Narendra Modi, como nota John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais prestigiados analistas em política internacional, foi, assim que Donald Trump chegou à Casa Branca, encostado à parede e obrigado a um jogo de cintura para o qual poucos estão preparados.
Desse jogo fazia e faz parte conseguir contentar Washington ao afastar-se de Moscovo mas apenas o suficiente para que as relações económicas entre a Rússia e a Índia, vistas como estratégicas em Nova Deli e Moscovo, não fossem irreversivelmente comprometidas, o que é um dos focos de maior fricção no seio dos BRICS.
Para lidar com essas questões escaldantes, e de forma a ser possível revigorar a plenitide funcional dos BRICS enquanto ferramenta de pressão do Sul Global (todos os países em ascensão e desenvolvimento) sobre o Ocidente Alargado (EUA, Europa Ocidental, Japão, Austrália, Coreia do Sul...), o Presidente russo Vladimir Putin chegou esta sexta-feira, 11, a Nova Deli.
Putin aterrou um dia antes do arranque da Cimeira dos BRICS+ na capital indiana para um acelerado programa de reuniões com Narendra Modi, e entre as delegações de alto nível dos dois países, com objectivos bem definidos, aliviar a tensão entre ambos, fortalecer os laços comerciais e diplomáticos e... lidar com a pressão de Donald Trump.
Aparentemente, a pressão sancionatória de Trump sobre Modi já não é o que foi ao longo de 2025, porque, com o afastamento evidente dos EUA do conflito no leste europeu, e uma aproximação notória com Vladimir Putin, pode estar em cima da mesa uma nova abordagem bilateral Rússia/Índia permitida pelas recentes conversas de Putin com o seu homólogo norte-americano.
E a razão é simples: como um dos grandes importadores de crude em todo o mundo, a Índia é um parceiro de negócios estratégico para Moscovo, e o contrário também é verdade, pelo menos antes de Putin ter ficado incomodado com Modi e lhe ter alterado os preços da energia, retirando os descontos, pelo menos durante algum tempo.
Se este imbróglio entre Putin e Modi for resolvido nesta 18ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo dos BRICS, esta plataforma de interesses pode ter uma nova oportunidade para se revigorar, caso contrário, como muitos analistas admitem, o seu definhamento poderá ser inevitável.
Se isso assim acontecer, o normal será o eixo Moscovo-Pequim começar a escolher novas direcções e o Irão e a Coreia do Norte poderão ser a nova plataforma de interesses, mas agora com China e Rússia no comando claro e assente numa ideia antiga que Presidentes dos EUA como Richard Nixon, ou alguns dos seus mais ágeis diplomatas, como Henry Kissinger, procuraram impedir por todos os meios.
Ideia essa que era, e ainda é nalguns meios e think tank norte-americanos, impedir que à extraordinária capacidade industrial e fabril chinesa, aliada a uma inovação permanente em todos os sectores da economia, se juntasse infinita disponibilidade de recursos naturais da Rússia, energia e alimentos desde logo, sem esquecer os minérios, e a sua ainda superior capacidade de inovação militar, como o mostra o seu programa balístico hipersónico.
Entretanto, esta Cimeira dos BRICS vai ainda contar com todos os restantes líderes dos países-membros, incluindo o chinês Xi Jinping, com quem se espera que Putin e Modi reúnam, sendo essas bilateralidades e trilateralidades que mais despertam o interesse mediático nas próximas 48 a 72 horas.










