O armazém não estava devidamente organizado para acomodar a variedade de itens aí armazenados. Adicionalmente, semanas antes tivera visitado um restaurante na capital, que frequento nos dias de semana, pois o seu modelo de bufê e rodízio permite-nos despachar rapidamente e regressar aos nossos afazeres. As minhas visitas precedentes aconteceram nos dias de semana, em que há pouca afluência de clientes, pelo que, nunca me tinha apercebido da trapalhice dos servidores de mesas. Aconteceu que voltei ao restaurante num Domingo, num dia de maior afluência de clientes, a ineficácia da actividade veio ao de cima. Comemos, pois tratava-se de um serviço de bufê, mas as bebidas só chegaram depois de termos terminado de comer.

O servidor de mesa deu a entender que se tinha esquecido de fazer o pedido. Naquele dia pude testemunhar a desorganização do restaurante num ambiente de alta pressão, revelando a ineficiência das operações. Na verdade, deparamo-nos com frequência com demoras no atendimento, ou na resolução de pequenos assuntos, quer em instituições públicas, quer mesmo em instituições privadas. A que se deve esta situação? Será que o problema está na baixa produtividade do trabalho? Será consequência da insuficiência de formação e treinamento dos trabalhadores? Ou estará, ao mesmo tempo, relacionado com a falta de políticas, procedimentos e métodos adequados (os bem conhecidos 3 Ps pessoas, processos e procedimentos) para a execução das tarefas?,. Portanto, pensei que reflectir sobre produtividade de trabalho da realidade angolana, tem uma certa pertinência.

Grosso modo, a produtividade do trabalho é a capacidade de produzir mais valor com a mesma quantidade de trabalho (ou recursos) ou de produzir o mesmo valor utilizando menos trabalho, ou seja, a produtividade do trabalho é a quantidade de valor que cada trabalhador consegue produzir num determinado período. De forma muito simples, pode ser expressa da seguinte forma: produtividade do trabalho = Produção (ou valor produzido) ÷ Trabalho utilizado. No caso de um país é expresso dividindo o Produto Interno Bruto (PIB) pelo número de trabalhadores que participaram no processo. O indicador mais adequado é a produtividade do trabalho, PIB por pessoa empregada, em PPC constante, que o Banco Mundial define precisamente como o PIB dividido pelo número total de pessoas empregadas. Os factores que concorrem para se produzir mais com os mesmos ou menos recursos são diversos. Entre eles, destaca-se, em primeiro lugar, no capital humano. Quanto mais qualificado e capacitado o capital humano, maior será a sua capacidade de produzir mais e melhor. O segundo factor são as infra-estruturas, que concorrem para fluidez dos factores de produção e acesso à ciência, inovação e tecnologia.

Fiz referência neste espaço, não faz muito tempo da dinâmica da economia chinesa, que é unicamente explicada pelo aumento da produtividade do trabalho. A China está a deixar para trás os países ocidentais, particularmente os Estados Unidos de América (EUA), ainda a maior potência económica mundial. Porém, por causa de estar a perder a produtividade do trabalho, se comparada a China, anda muito nervosa e a tomar decisões precipitadas, como a que assistimos com as tarifas comerciais. A China hoje é a indústria do mundo, já não compete apenas nos produtos intensivos em mão-de-obra, hoje é competitiva, essencialmente, nos produtos intensivos em tecnologia.

O Exemplo são as viaturas chinesas, que não devem nada aos seus competidores ocidentais, Japão) e europeus, que são vendidos a preços altamente competitivos, deixando para trás marcas tradicionais (Basta observar como o mosaico do parque automóvel angolano está mudado). Há que se deve esta transformação? Em grande medida, ao aumento exponencial da produtividade do trabalho, resultado do investimento massivo na educação e na qualificação do capital humano, que desembocou no desenvolvimento tecnológico e científico. Digam o que quiserem, mas a China deu passos significativos na transformação estrutural da sua economia, que hoje traduz-se na qualidade dos produtos que apresenta ao mercado, essencialmente, que se repercute, como é óbvio, na qualidade de vida dos seus cidadãos.

Em Angola, constato que se fala muito do aumento da produção e da substituição de importações. Mas sem ter em conta os factores propulsores que concorram para a sua efectivação de forma eficiente. Os preços dos produtos nacionais quando comparados com os seus pares, mesmo aqui da região Austral de África, denota-se falta de conectividade. Por quê? Porque as condições em que se processa a produção são muito difíceis, em poucas palavras, traduz-se em: fraca produtividade do trabalho. Fazemos a mesma coisa usando mais recursos que os nossos concorrentes. O capital humano tem menos destreza a exercer as suas funções, a mobilidade de factores de produção, se faz com imensas dificuldades. Mesmo que repliquemos conhecimento provado em outras geografias, há especificidades que exigem ajustamentos que requerem conhecimento do que se pretende ajustar ou adaptar. São visíveis os esforços para aumentar a produção nacional, mas os produtos são menos competitivos quando comparados com os importados de outras regiões. Um exemplo simples é a laranja. A qualidade da laranja nacional vendida nos supermercados comparada com alaranja sul-africana é abismal.

Confunde-se, muitas vezes, produção com produtividade, que não são a mesma coisa. Produção significa quantidade produzida. Produtividade significa a relação entre aquilo que se produz e os recursos utilizados para produzir. Uma empresa pode aumentar a produção contratando mais trabalhadores, comprando mais máquinas ou utilizando mais matérias-primas, sem necessariamente se tornar mais produtiva. A produtividade aumenta verdadeiramente quando a mesma empresa consegue produzir mais com os mesmos recursos, ou produzir a mesma quantidade utilizando menos recursos. Esta distinção deveria ocupar um lugar central na reflexão sobre a transformação da estrutura económica de Angola. Uma fábrica pode possuir equipamentos modernos e trabalhadores competentes, mas dificilmente será competitiva se enfrentar interrupções frequentes de fornecimento de energia, dificuldades logísticas, custos elevados de transporte, demora nos portos, burocracia excessiva, instabilidade cambial, financiamento caro ou dificuldades na importação de matérias-primas. O produto saído deste ambiente acaba por ficar caríssimo!

Angola possui uma das maiores economias da África Austral. Em termos de dimensão económica, está muito acima de países como o Botswana, a Namíbia, as Maurícias ou as Seychelles. Mas a dimensão económica não significa necessariamente eficiência produtiva. Os dados comparativos mostram diferenças importantes na capacidade das economias da região para transformar recursos em rendimento. Em 2023, por exemplo, segundo o Banco Mundial (BM), o PIB per capita em paridade de poder de compra (PPC), situava-se em cerca de $7.245 dólares americanos em Angola, contra aproximadamente $13.846 no Botswana, $13.690 na África do Sul, $10.106 na Namíbia e $29.469 nas Seychelles, sendo Moçambique o país com um valor inferior ao de Angola, em cerca de $1.512 dólares. Estes valores não representam, por si só, produtividade do trabalho. Mas revelam diferenças estruturais relevantes na capacidade das economias para gerar rendimento por habitante. A comparação torna-se particularmente interessante quando observamos países relativamente pequenos, como o Botswana e as Maurícias. Nenhum deles possui os recursos naturais de Angola. No entanto, construíram economias relativamente mais organizadas, com instituições económicas mais previsíveis, maior especialização produtiva, melhor formação do capital humano e maior integração entre empresas, trabalhadores, tecnologia e mercados, o que de certa forma demonstra que a abundância de recursos naturais não substitui a produtividade.

Ao longo da história económica, os grandes aumentos da produtividade não aconteceram porque as pessoas passaram simplesmente a trabalhar mais. Aconteceram porque descobriram formas melhores de trabalhar. A mecanização multiplicou a produtividade agrícola. A electricidade revolucionou a indústria. A informática transformou os escritórios. A automatização, a inteligência artificial e a digitalização, estão, novamente, a alterar profundamente a produção mundial. Inovar não significa necessariamente inventar uma nova tecnologia. Inovar pode significar apenas reorganizar uma linha de produção, reduzir desperdícios, melhorar a manutenção dos equipamentos, digitalizar processos, capacitar trabalhadores, reduzir tempos de espera, ou introduzir métodos mais eficientes de gestão. Em termos económicos, inovação significa encontrar permanentemente formas de produzir mais valor com menos recursos. Por conseguinte, é justo afirmar que Angola não precisa apenas de produzir mais. Precisa de aprender a produzir melhor.
*Economista