Internamente, este resultado foi uma catástrofe para os republicanos, que perderam o Congresso em toda a linha, desde a Casa dos Representantes, a câmara baixa, que já era esperada, embora não de forma tão pesada, até ao Senado, que era menos esperado mas havia igualmente indicadores claros nesse sentido.

Com este resultado, Donald Trump tem agora dois meses - os novos representantes e senadores tomam posse no início de Janeiro - para tentar encontrar uma solução milagrosa que impeça os democratas de cumprirem as suas ameaças de lhe despejarem para cima um camião de processos de destituição.

Desde os famosos "Ficheiros Epstein", que envolvem o seu nome no maior escândalo de pedofilia internacional de sempre, a inconstitucionalidade que foi avançar para a guerra com o Irão sem informar o Congresso, até ao questionamento da sua sanidade mental para ocupar o cargo, embora neste aspecto, os democratas precisem do apoio do vice-Presidente JD Vance.

Estas eleições traduzem o absoluto descontentamento do eleitorado norte-americano com a política económica da Casa Branca, como, de resto, as sondagens anteciparam, especialmente uma da Fox News, mais próxima do eleitorado conservador, ao colocarem como as três razões principais para votarem contra Trump a inflação, o preço dos combustíveis e a corrupção.

Esse descontentamento não sobressai apenas nos resultados totais, onde, embora ainda faltassem contar alguns votos no momento da publicação desta análise, nada de substancial será já alterado, com os democratas a conseguirem pelo menos 54 dos 100 lugares no Senado (câmara alta) e dos 435 lugares na câmara baixa (Representantes) já tinham 225, mais de metade, faltando ainda apurar o resultado final...

... aparece ainda na vitória de Abdul El-Sayed, no Michigan, cuja candidatura gerou uma gigantesca discussão nos EUA devido às suas origens no Egípto, chegando ao país ainda jovem, sendo a sua eleição mais relevante porque a sua colega de partido que com disputou as "primárias" endossou o seu apoio ao histórico republicano Mike Rogers.

Há mais de 40 anos que o Michigan não elegia um democrata para o Senado. Mas com mais peso histórico foi a vitória democrata no Kansas, onde desde 1932 mandavam os republicanos e agora foi eleito Adam Hamilton, um democrata que vem do meio religioso local, sendo igualmente incandescentes as derrotas do partido de Trump na Carolina do Sul e, ainda mais extraordinário, no Texas.

Até Janeiro, Donald Trump e o seu staff têm muito em que pensar, porque alguns dos agora eleitos já o aconselharam a contratar um bom advogado, tal é o ódio existente no seio da política norte-americana e, além de si, também o seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, está na mira dos democratas sob ameaça de impeachment, especialmente devido a algumas acções militares claramente ilegais tanto á luz da Constituição dos EUA como da Lei internacional.

Para já, e após ser clara a catástrofe eleitoral do seu partido, Donald Trump disse a The New York Times que vai aceitar os resultados sem demoras, embora tenha acusado os candidatos derrotados por este pesadelo eleitoral.

O líder republicano considerou mesmo, como é seu timbre, culpando tudo e todos menos ele, que alguns dos derrotados na corrida para o Senado e para a Câmara dos Representantes, candidataram-se para o prejudicar e foram escolhidos contra a sua vontade, pelas estruturas locais do partido.

Por outro lado, em declarações a The Wall Street Journal, Trump admitiu que a guerra com o Irão foi fulcral nesta derrota devastadora mas acrescentou que foi a "decisão certa" e que "voltaria a fazê-lo" se fosse hoje.

O mundo em volta

As eleições nos Estados Unidos são de tal modo relevantes para o resto do mundo que há muito que se ironiza com a ideia de que todo o Planeta Terra devia contribuir para a escolha do inquilino da Casa Branca, e, desta vez, essa ideia alegórica tem mais substrato que nunca, porque a guerra lançada por Trump e o seu amigo israelita Benjamin Netanyahu contra o Irão, primeiro em Junho de 2025, e depois em Fevereiro deste ano, mudou claramente o eixo de rotação da economia mundial.

Com este resultado, e já livre de ter de se candidatar a um novo mandato nas eleições de 2028, por este ser já o seu segundo - o primeiro foi 2017-2021 -, Donald Trump tem até Janeiro as maiorias nas duas câmaras do Congresso para acomodar as suas decisões, desde logo avançar ou não para uma nova vaga de ataques sobre o Irão, como Netanyahu o tem pressionado a fazer, embora se trata da guerra mais impopular em décadas na sociedade norte-americana, precisamente por haver essa percepção de que é Washington a ser comandado por Telavive.

Se o fizer, o Congresso não o impedirá até Janeiro, mas o seu Partido Republicano já tem o foco nas eleições que vai ter de disputar dentro de dois anos, com as duas figuras mais importantes da sua Administração, Marco Rubio, secretário de Estado, e JD Vance, vice-Presidente, na disputa pelo lugar.

E a retoma da guerra, devido às suas consequências para a economia mundial e a norte-americana em especial, podem ser do agrado de Trump, que não esconde a sua vontade de vingança sobre Teerão, mas não o será para Vance ou Rubio, nem para a estrutura republicana que já está a pensar nas eleições de 2028 e precisa de melhorar, e muito, a economia nacional.

Com os analistas claramente divididos quanto ao que o inconsistente Trump vai fazer, até porque é bem conhecida a sua capacidade de mudar de opinião várias vezes ao dia, este resultado eleitoral pode determinar o desfecho para o conflito no Golfo Pérsico abrindo uma nova "guerra", desta feita entre os interesses do Partido Republicano e dos candidatos a candidato Presidencial em 2028, e a vontade do Presidente que, sem a obrigação de uma recandidatura, está mais livre para ceder à pressão de Benjamin Netanyahu.

É que o primeiro-ministro israelita, ao contrário de Trump, está na luta pela manutenção no cargo e as recentes eleições de 27 de Outubro não lhe facilitaram a vida, devido ao resultado que não lhe garante uma maioria para Governar, nem mesmo em coligação, e precisa que o seu "amigo" norte-americano avance para a guerra de forma a que Israel o possa secundar, visto que nenhum líder israelita perdeu eleições em situação de guerra no país e as eleições deverão ter de ser repetidas nas próximas semanas...

A outra frente de guerra onde estas eleições podem determinar um desfecho abrupto é no leste europeu, onde a Ucrânia, sem o apoio norte-americano, poderá claudicar de um dia para o outro, sendo que Washington já começou a tirar o pé do acelerador do apoio a Kiev, aproximando-se de Moscovo.

Nestes dois anos que restam a Donald Trump na Casa Branca, encontrar uma saída airosa no Médio Oriente, diluindo as tensões com o Irão, e pondo fim à guerra na Ucrânia, o que só será possível forçando Kiev a negociar sob condições difíceis com Moscovo, poderá ser a derradeira oportunidade para conseguir pelo menos um rodapé positivo no que os livros de história vão registar da sua passagem pela Presidência dos EUA.

Vai seguir esse caminho no conflito com o Irão, ou ceder à pressão de Netanyahu? Vai deixar cair Volodymyr Zelensky em Kiev ou ceder à pressão dos lideres europeus que pugnam por uma maior assertividade bélica dos Estados Unidos ao lado dos ucranianos no conflito com os russos?

Algumas semanas serão suficientes para perceber as suas escolhas sobre que caminho seguir. Mas podem ser apenas dias...