O programa arrancou entre 10 e 11 de Junho, quando o primeiro voo partiu de Joanesburgo com 268 passageiros a bordo, refere o Departamento de Assuntos Internos sul-africano. Desde então, registaram-se 14 ligações, a última das quais chegou na última sexta-feira ao país.
De acordo com a imprensa local, a operação conta com o apoio operacional da companhia Air Peace e é financiada, em parte, pela Redeemed Christian Church of God (RCCG), uma das maiores congregações neopentecostais da Nigéria, liderada pelo pastor Enoch Adeboye, com presença em múltiplos países, incluindo Angola. No entanto, o governo nigeriano tem promovido este tipo de voos há mais tempo, desde 2019, confirmam comunicados do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Nigéria e da Nigerians in Diaspora Commission (NIDCOM).
O processo de repatriamento surge depois de uma nova nuvem de xenofobia ressurgir nos céus da terra do Arco-Íris. Os protestos populares arrastam-se desde Janeiro e são organizados por grupos contra a imigração ilegal, como a Operation Dudula (que em zulu significa "expulsar") e o movimento March and March.
A pressão, associada ao desemprego e a acções contra estrangeiros em hospitais e comércios, já provocou a saída de milhares de cidadãos do Malawi, Gana, Moçambique e Zimbabué, para além da Nigéria.
Porém, o mal-estar entre nigerianos e sul-africanos não é novo. As duas maiores economias do continente mantêm uma disputa generalizada no domínio desportivo e cultural, com rivalidade acentuada nas redes sociais, o que tem servido de rastilho sempre que vêm à tona episódios de natureza xenófoba.
A monitorização do African Centre for Migration and Society regista discriminação xenófoba contínua entre 2022 e 2024, incluindo violência, encerramento de lojas e bloqueio de unidades de saúde, enquanto analistas associam o fenómeno a factores que vão além do apartheid.
Em entrevista à televisão sul-africana eNCA, em Maio deste ano, o veterano negociador do fim do apartheid e actual embaixador da África do Sul nos Estados Unidos, Roelf Meyer, considerou que o projecto de reconciliação não falhou, todavia a sua concretização económica sim, o que deixa os cidadãos frustrados e propensos a culpar o outro ao longo de linhas raciais e étnicas num país que é um mosaico de clãs, povos e uma herança cultural multiétnica.


