O anúncio de que a Casa Branca recusou a proposta entregue aos norte-americanos pela delegação iraniana à 81ºAssembleia-Geral da ONU, que teve lugar na semana passada, foi feito por The Wall Street Journal, mas em Teerão entende-se que se trata de gestão político do assunto e não uma resposta definitiva.
É que em Teerão não se "compra" esta versão porque é a mais célere e fácil forma de Donald Trump colher os frutos de uma "vitória" semanas antes das eleições intercalares nos EUA onde todas as sondagens antecipam uma catástrofe eleitoral para o seu Partido Republicano.
O Irão sabe que as sondagens apontam quase sem possibilidade de mudança de cenário para a perda da maioria nas duas câmaras do Congresso, Representantes e Senado, embora o Senado ainda possa ser mantido se Trump resolver o problema dos valores recorde a que chegaram por estes dias os combustíveis nos EUA.
E para isso, Donald Trump tem forçosamente de reabrir o Estreito de Ormuz, o que só poderá suceder pela via negocial, como o demonstram os meses de inúteis bombardeamentos intensos, além de que é também o Irão que possui a "chave" para reabrir o Estreito de Bab al-Mandeb, que liga o Mar Vermelho/Canal do Suez ao Oceano Índico.
Se por Ormuz passam, em tempo de paz, mais de 20% do petróleo global prozuido no Golfo Pérsico, para o mundo através do Oceano Índico, em Bam al-Mandeb transita 20% do comércio geral global, incluindo a sua função de rota alternativa aos sauditas para exportar 5 milhões de barris por dia que a AnsarAllah, do Iémen, bloqueou após a retioma da guerra com Riade.
É por isto que o Irão vê com estranheza a resposta acelerada de Trump, que veio igualmente dizer que se Teerão está a fazer propostas destas é "porque está perder de forma pesada neste conflito" com os EUA, embora na sexta-feira, 24, dia em que se conheceu a proposta do Irão, um porta-voz sénior do Departamento de Estado tenha dito não haver pressa em Washington para responder aos iranianos.
Alguns analistas apontam como certo que a proposta iraniana está a ser ponderada mas Donald Trump não o pode admitir porque serias dar o braço a torcer considerando que se trata de uma proposta que basicamente condensa em sete dias o que seria para fazer nos 60 contidos no Memorando de Entendimento assinado por ambos os países em Junho mas do qual os EUA saíram unilateralmente.
Assim, como avançam as agências, o Irão confirmou estar ciente da postura negativa dos Estados Unidos em relação à proposta para reabrir o estreito de Ormuz dentro de sete dias, mas sublinhou que continua "a aguardar" uma "posição definitiva".
No sábado, o Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que rejeitou o plano de sete dias apresentado pelo Irão para reabrir a passagem marítima pelo estreito de Ormuz, que está bloqueada pela guerra.
"Vimos a primeira reação do Presidente dos Estados Unidos, mas ainda não recebemos nada dos mediadores", disse, horas mais tarde, o chefe da diplomacia do Irão, Abbas Araqchi, numa publicação nas redes sociais citada pela Lusa.
"É claro que o Presidente disse muitas coisas boas, assim como muitas contraditórias, algo que, infelizmente, ouvimos frequentemente dele. Estamos à espera que os mediadores nos transmitam a sua posição definitiva", declarou Araqchi.
O ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou que Teerão "nunca fechou a porta à diplomacia e às negociações" perante uma situação que se encontra, segundo as suas palavras, "num impasse".
"Não há ninguém no mundo hoje que possa acusar o Irão de não ter tentado a via diplomática. Encontramo-nos numa posição política superior a este respeito", sublinhou Araqchi.
"Só uma solução negociada pode tirá-los [os Estados Unidos] deste impasse. Esta é a nossa posição. Muitos países partilham esta posição connosco e compreendem-na", assegurou o ministro.
Além disso, o diplomata sustentou que a República Islâmica se manteve firme sempre que os seus "inimigos decidiram optar por outro caminho" que não a diplomacia.
Na sexta-feira, Araqchi, anunciou, a partir da sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, que Teerão apresentou a Washington um plano de sete dias para restabelecer o tráfego marítimo normal através do estreito de Ormuz.
O plano inclui, recorda a Lusa, entre outras medidas, um cessar-fogo de sete dias no Médio Oriente, o levantamento do bloqueio naval dos EUA contra o Irão, o fim das sanções ao petróleo iraniano e a libertação de bens iranianos congelados.
Posteriormente, o Irão aceitaria reabrir o estreito de Ormuz e, ao sétimo dia, Teerão e Washington retomariam as negociações para um acordo final, que incluiria o programa nuclear iraniano.
Araqchi explicou que Teerão transmitiu a proposta a Washington através do Qatar, um dos mediadores do conflito, e sugeriu que poderia avançar se "o lado norte-americano levasse a sério a possibilidade de se chegar a um acordo".
"Eles fizeram uma proposta, mas eu rejeitei-a", disse o Presidente dos EUA, Donald Trump, aos jornalistas, no Jardim das Rosas da Casa Branca, antes de embarcar num helicóptero.
Apesar do bloqueio do estreito, Trump afirmou que os EUA têm "controlo total" de Ormuz e que "grandes quantidades" de petróleo fluem pela via navegável todos os dias, com 29 petroleiros a passarem por lá na noite de sexta-feira para sábado.
"Querem fazer um acordo, o que é ótimo, eu gosto de acordos. Mas esse acordo não seria aceitável", acrescentou o chefe de Estado norte-americano.










