Os ataques russos às pontes sobre o Rio Dniepre, que ligam as margens da cidade de Kiev, estiveram fora do mapa dos alvos russos nestes quase cinco anos de conflito, após a invasão da Ucrânia, a 24 de Fevereiro, mas essas limitações acabaram agora, por decisão do Kremlin e isso pode mudar o curso da guerra de forma radical.

Olhando para os media russos, esta abertura de uma nova "frente", que se junta aos ataques ao estratégico sector energético ucraniano, visa punir as recentes decisões anunciadas pelo Presidente Volodymyr Zelensky de intensificar os ataques às refinarias russas.

Estes ataques extraordinários às pontes sobre o Rio Dniepre, em Kiev, seguiram-se a um aviso, o segundo em menos de três meses, do Ministério da Defesa da Rússia, aos diplomatas e civis, especialmente os estrangeiros, para abandonarem a capital ucraniana.

E o Kremlin veio dizer igualmente que esta intensificação dos ataques contra infra-estruturas estratégicas na Ucrânia, como o mostram as longas filas de trânsito para atravessar a cidade de Kiev, "é da inteira responsabilidade de Zelensky".

As autoridades em Moscovo alegam que se trata de uma "retaliação sobre as repetidas ameaças" do Presidente ucraniano de atacar o sector energético da Federação, para cortar o financiamento da guerra, ao mesmo tempo que insiste em pedir aos seus aliados ocidentais mais mísseis de longo alcance para perseguir esse objectivo.

Esta intensificação, para volumes que não tinham ainda sido vistos nestes quase 5 anos de conflito, a que Moscovo chama "operação militar especial", da chuva de drones e mísseis sobre Kiev está a gerar receios de que a resistência ucraniana possa quebrar.

E para evitar que isso suceda, este Domingo, 04, quando ainda se sentia no ar o fumo dos ataques russos sobre a capital ucraniana, o chanceler alemão Friedrich Merz chegou a Kiev para uma visita surpresa onde voltou a prometer a Zelensky mais dinheiro e mais armas europeias.

Merz apontou ainda para a necessidade de a Ucrânia manter a resposta adequada as ataques de Moscovo, entregou mais 8,5 mil milhões de euros a Zelensky, insistiu no apoio total da União Europeia a Kiev, mas deixou um pedido ao Presidente russo para "parar a guerra".

O chanceler alemão, que atravessa uma crise interna nunca vista na Alemanha desde a II Guerra Mundial, com a extrema-direita fascista quase a chegar ao poder, e, conforme as sondagens apontam, o seu partido, a CDU, à beira do abismo eleitoral, prometeu ao Presidente Vladimir Putin que a União Europeia volta a "falar" com a Rússia se a guerra acabar.

Esta abordagem, estranha, segundo vários analistas, até porque os danos deste conflito sobre a economia da Europa ocidental são avassaladores, e com a economia do "motor" europeu, a Alemanha, a colapsar devido ao fecho da torneira do gás e crude russos baratos, a França a viver dos tumultos sociais mais sérios em décadas, é evidente que a corda ameaça rebentar antes do lado ocidental que do russo.

E não há sinais de que Moscovo possa reduzir a intensidade dos ataques sobre a Ucrânia, porque, com o aproximar do Inverno, o corte das energia é um objectivo estratégico nesta guerra, de um e do outro lado.

Mas os russos parecem estar a levar a melhor, apesar de ser evidente que ao se aproximar dos cinco anos, este conflito, que já tem mais calendário que a I e a II Guerras Mundiais, Moscovo também mostra incapacidade para acelerar uma solução militar.

E isso, porque, contrariando as ameaças que repete para media ver, sobre a Rússia, Volodymyr Zelensky veio agora, já neste fim-de-semana da visita do alemão Friedrich Merz a Kiev, dizer que está pronto para um encontro com Putin em qualquer local que seja indicado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump.

Por vontade do ucraniano, esse encontro tripartido, Rússia-EUA-Ucrânia, teria lugar quanto antes nos Emiratos Árabes Unidos, mas Zelensky não colcou quaisquer abjecções geográficas para que esse encontro possa acontecer, embora seja claro que Moscovo não faz parte das possibilidades, como o Kremlin tem proposto repetidamente, dando-lhe "todas as garantias" de segurança.

Alguns analistas, como o norte-americano John Mearsheimer, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago e um dos mais reputados especialistas em política internacional, notam que a tenacidade ucraniana é e foi evidente ao longo destes anos, mas o conjunto do "mapa" dos interesses está a levar a sua capacidade de resistir ao limite.

Por isso, juntando a incapacidade ucraniana de parar a "chuva" de mísseis russos, porque os EUA e a União Europeia deixaram de lhe fornecer defesa anti-aérea, ao impacto desta guerra, que soma à do Médio Oriente (ver links em baixo), com a Europa Ocidental à beira do colapso económico, social e político, Mearsheimer conlcui que "a guerra vai parar em breve" por exaustão da capacidade ocidental de a prolongar.

Recorde-se que o objectivo principal da NATO (União Europeia e EUA) era "humilhar a Rússia no campo de batalha", como repetem os líderes europeus há anos, levar uma "derrota estratégica" ao coração de Moscovo e provocar o colapso do regime de Vladimir Putin.

Sabe-se hoje que a economia russa está a resistir melhor que as melhores expectativas ocidentais, apesar dos danos severos gerados pela guerra, e que a Europa Ocidental chegou a uma encruzilhada histórica em que o caminho do abismo do regresso do nazi-fascismo ao poder na Alemanha e na França, Espanha ou até Portugal, está a ser "alcatroado" pela crise económica e social gerada pelo conflito na Ucrânia.

Além disso, nota ainda John Mearsheimer, por incrível que pareça, nunca a possibilidade de uma guerra nuclear esteve tão presente, porque, essencialmente, a Europa Ocidental não pode perder esta guerra na Ucrânia porque seria o colapso da União Europeia, o que empurra este bloco de países para uma situação de escalada em direcção a um conflito aberto com Moscovo.

E se esse cenário se concretizar, seja por guerras híbridas, ameaças além do tolerável por ambas as partes, "segundos" após o primeiro tiro convencional, o mundo estaria numa guerra nuclear que dificilmente não passaria as fronteiras da Europa para o mundo.