Perante este cenário, e sem que os seus aliados norte-americanos e europeus tenham capacidade de lhe enviar novos stocks de mísseis de defesa anti-aérea, Patriot PAC 3, o Presidente ucraniano faz nova jogada com o objectivo de aliviar a pressão.
A forte pressão russa, tanto pelo ar como na frente de batalha, ganha maior relevância com o aproximar do Inverno no Hemisfério Norte, onde as temperaturas podem atingir 20º negativos na Ucrânia, levou Volodymyr Zelensky a anunciar que vai enviar a Moscovo uma "inovadora" proposta de paz.
O anúncio do líder ucraniano, feito na terça-feira, 11, surgiu, noticiado pela Reuters, sem detalhes quanto ao conteúdo que deverá chegar a Moscovo através dos Estados Unidos, mas alguns analistas não têm dúvidas de que Zelensky está obrigado a ir mais longe que nas propostas anteriores face a uma iminente catástrofe militar e social no seu país.
O que Volodymyr Zelensky tem feito ao longo desde longo conflito, que começou com a invasão russa a 24 de fevereiro de 2022, mas com raízes no golpe de Estado de 2014, em Kiev, onde foi afastado o Presidente pró-russo Viktor Yanukovich, é dizer aos russos que aceita congelar a guerra enquanto se negoceiam termos mais sólidos para a paz.
Putin "a leste" destes problemas
Essas propostas foram sempre rejeitadas por Vladimir Putin, que, sempre que este tipo de ocasião se coloca, lembra a Zelensky que em Abril e Março de 2022 os dois países tinham definido um acordo de paz desenhado nas conversações de Istambul, na Turquia.
Esse acordo, que concedia aos russos muito menos do que aquilo que entretanto alcançaram pela via das armas, especialmente no plano territorial, desmoronou por interferência do Reino Unido e dos EUA, com a visita de rompante do então primeiro-ministro Boris Johnson a Kiev.
Nessa ida à capital ucraniana, Johnson, com respaldo de Washington, onde o então Presidente Joe Biden decidira apostar tudo numa derrota militar russa na Ucrânia, prometeu a Zelensky "apoio ilimitada em armas e dinheiro até onde for preciso", deixando o líder ucraniano sem forma de recusar, recuando sim no acordo com Moscovo.
Desde esse momento que EUA e os países europeus da NATO mantiveram um fluxo ininterrupto de armamento e dinheiro a ponto de o ex-CEMGFA ucraniano, Valery Zaluzhny, actual embaixador em Londres, ter dito que Kiev recebeu tudo o que a NATO tinha e podia entregar para alimentar a guerra com os russos e nada resultou como previsto.
Porém, e essa é a razão a montante para esta nova proposta de Volodymyr Zelensky que, via EUA, vai chegar ao Kremlin, tudo mudou quando Donald Trump chegou à Casa Branca, em Janeiro de 2025, iniciando um lento mas progressivo fade out desta guerra no leste europeu.
Primeiro com as armas, depois com o dinheiros norte-americano a escassear, apenas dependente dos aliados europeus, os ucranianos começaram a sentir dificuldades no campo de batalha, que Kiev foi conseguindo diluir com a aposta em levar a Guerra à profundidade russa através de drones de produção caseira e europeia...
O derradeiro esforço
Esta aposta foi, segundo alguns analistas, uma derradeira tentativa de Zelensky conseguir impor a Putin negociações para acabar com a guerra em moldes razoáveis para Kiev, naquilo que ficou conhecido pela ofensiva de 40 dias que apostou, especialmente, em atacar a região de Moscovo.
Findo esse prazo, e nada mudando em termos de capacidade ofensiva russa, que o próprio Zelensky vem agora dizer estar a ser acrescida de novas armas norte-coreanas, além do reforço da indústria militar russa, as unidades russas a ganham terreno dia após dia.
E, mesmo que lentamente, no Donbass, onde os últimos redutos ucranianos, as cidades de Slaviansk e Kramatorsk, já estão cercados ou em via de o serem, deixando a conquista desta geografia, que era o objectivo inicial do Kremlin, inclusive no tal acordo de Abril de 2022, que Boris Johnson destruiu, à mercê de uma decisão final para terminar essa "missão".
Face a este cenário, perante o insucesso da ofensiva aérea dos 40 dias, olhando para a iminente perda do Donbass, sabendo que nas outras regiões, Zaporizhia e Kherson, os russos estão a ganhar tracção, sem ignorar as crescentes dificuldades logísticas das unidades ucranianas na linha da frente, Zelensky e os seus conselheiros voltam-se agora para uma nova ofensiva diplomática.
Num recente vídeo divulgado nas redes sociais ucranianas, (não totalmente validado de forma independente), uma unidade militar ucraniana na região de Zaporizhia, dirige-se ao Presidente Zelensky descrevendo uma situação claramente inaceitável.
Nesse documento, o comandante do grupo militar descreve um cenário de fome e sede excruciantes, militares que não são substituídos há mais de oito meses e com munições contadas, lamentando que em Kiev se esteja a dizer ao mundo que a situação é tudo menos a que estes homens estão a viver, anunciando sucessos que não existem.
Inovadora em quê?
Este conjunto de reveses ucranianos não pode deixar de ser considerado nesta nova proposta de paz que Zelensky diz estar prestes a ser entregue aos russos pelos enviados norte-americanos escolhidos por Donald Trump para serem intermediários entre Kiev e Moscovo, o seu amigo e homem de negócios, Steve Witkof, e o seu genro, Jared Kushner.
Especialistas como John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, ou Larry Wilkerson, ex-coronel e chefe de gabinete do então secretário de Estado de George Bush, Collin Powell, apontam para uma de duas situações, ou Zelensky precisa de ganhar tempo ou esta de tal modo aflito que não lhe resta mais que dar a Putin o que ele quiser, procurando sair o mais airosamente possível desta humilhante situação de derrotado.
John Mearsheimer tem defendido que a Ucrânia está sem condições de manter este conflito, com um claro entendimento que se os interesses nacionais ucranianos fossem a prioridade do regime de Kiev, estas negociações já estariam a decorrer com base nos pressupostos definidos em 2024 por Vladimir Putin.
Pressupostos esses que assentam, principalmente, na construção de uma nova arquitectura de segurança para a Europa, na aceitação da neutralidade de Kiev fora da NATO, no reconhecimento das regiões anexadas pela Rússia, a desmilitarização da Ucrânia e a aceitação da cultura, religião e língua russas no país sem restrições constitucionais.
Jacques Baud e Larry Wilkerson, militares de carreira, apontam com mais ênfase para a ideia de que Kiev visa antes de mais ganhar tempo de forma a desenhar a melhor estratégia, que pode ser tanto procurar uma saída airosa perante o desenrolar vertiginosa de uma catástrofe militar, ou esperar que os aliados se reorganizem e lhe forneçam novas remessas de armamento.
Esta última possibilidade ganha no campo das probabilidades porque o próprio Volodymyr Zelensky tem dito, em tom de desafio, que a Rússia está quase de joelhos e que se receber mais apoio dos seus aliados ocidentais, poderá conseguir os seus objectivos, que passam por expulsá-los do território ucraniano.
Um dos maiores desaires do Presidente ucraniano foi ter ouvido de Donald Trump que, afinal, os EUA já não lhe vão fornecer uma licença para produzir no seu país os sistemas Patriot PAC3, uns dos mais sofisticados projectéis anti-mísseis balísticos norte-americanos.
Além disso, tem-se multiplicado em iniciativas com o fito de convencer os seus aliados da NATO de lhe fornecerem esse tipo de armas.
Face a isto, é de ter em conta que em Moscovo começa a ganhar terreno uma linha mais dura entre os dirigentes, que defende passar este conflito para um patamar mais robusto, abandonando as limitações de uma "operação militar especial", como os russos ainda o definem.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, em declarações à imprensa russa, disse de forma clara que a Rússia está em guerra com a NATO, considerando que os líderes europeus estão, numa tradução livre, a encaminhar este conflito para um beco sem saída onde não desejariam estar quando lá chegarem.
A grande expectativa agora é perceber o conteúdo de mais esta proposta de paz de Zelensky dirigida ao Kremlin, embora, segundo a notícia da Reuters, nas suas palavras se possam antever indícios de manobra dilatória.
O Cisne-negro
"Fizemos chegar a nossa proposta aos mediadores norte-americanos, mas os EUA podem reforçar as nossas defesas, em primeiro lugar no aspecto anti-aéreo, colocando pressão sobre os russos, sendo este plano diferente dos demais porque visa antes terminar com a guerra que o seu prolongamento", diz Zelensky citado pela agência britânica de notícias, sem que se percebe, por estas palavras, em que é que a proposta difere das anteriores, que falharam.
Da parte de Moscovo, como Vladimir Putin tem repetido exaustivamente, não há espaço para qualquer cessar-fogo sem que Kiev aceite os termos e as condições da Federação Russa para terminar com o conflito.
Putin tem mesmo dito, sem mudar uma vírgula ao longo destes anos, que a Rússia vai conseguir os seus objectivos integralmente, seja pela via negocial, "a que se prefere", ou pela via das armas, "se tiver de ser".
O "cisme negro" neste cenário que tem o mais longo e mortífero conflito na Europa desde a II Guerra Mundial, tem cada vez manos elemento de surpresa, que é a crescente possibilidade de os aliados europeus de Kiev entrarem directa e oficialmente na guerra com a Rússia, face ao beco sem saída em que a situação de está a transformar.
O antigo coronel norte-americano Larry Wilkerson dizia ainda esta semana que a NATO e a Rússia já estão em guerra, e os russos sabem-no, porque há centenas de elementos das forças de segurança e secretas europeias que morrem na Ucrânia sob o fogo russo.
"E todos sabem que isso está a acontecer. Falta apenas reconhecê-lo e agir nesse contexto. O que seria uma catástrofe de proporções historicamente nunca vistas", alertou.
