Torno a citar a analogia que Walter Marques faz, em Moeda e Mercados Financeiros, em que refere que, numa economia o sistema financeiro é o coração, que pulsa o sangue por via das veias para todos os órgãos do corpo, neste caso as estradas, que levam a riqueza para todos os pontos da economia, ou do país. Portanto, não se pode falar de relançamento da produção nacional, sem se ter em conta as vias de comunicação. As estradas e as pontes que ligam localidades, são o factor preponderante para circulação dos factores de produção, entre as diversas regiões do país. As terras férteis para a prática de agricultura, fornecedora de matérias-primas para a indústria, distam de várias centenas de quilómetros. Actualmente, o transporte, quer dos insumos, quer da produção final, faz-se com imensas dificuldades, dado o estado, quer das estradas primárias, quer das estradas secundárias, sem falar das terciárias, que algumas são mesmo intransitáveis.
As vias primárias, as que interconectam as capitais províncias, com raras excepções, encontram-se em profundo estado de degradação, estão esburacadas, com crateras ao longo de toda a sua extensão. Quer se viaje do Norte ao Centro ou do Litoral ao Interior, do Centro ao Sudoeste ou ainda do Médio Norte ao Noroeste, são muito curtas as distâncias em que não é necessário fazer gincana para a fuga das largas crateras (buracos). Algumas estradas até foram construídas recentemente. Por exemplo, o troço de Quilengues - Cacula, na Estrada Nacional (EN) n.º 105, mais ou menos dois anos depois de concluída a obra, começaram a surgir os buracos como cogumelos. Foi intervencionada algumas vezes, mas os buracos foram surgindo em catadupa. Está hoje a ser reconstruída de raiz, por uma outra construtora. A mesma EN 105, no troço Benguela - Catengue, que foi um dos troços construídos no período das grandes obras de reconstrução nacional, aparenta ter sido bem construída, pois os buracos que vão surgindo, devem-se a utilização intensiva e a falta de manutenção. O mesmo não se pode dizer do troço, Catengue - Chongoroi, que foi alvo de duas intervenções de tapa buracos e já se encontra novamente com muitos buracos. A EN 105, liga duas grandes capitais provinciais, Benguela e Lubango, tem uma intensidade de circulação que torna imprescindível que se mantenha fluida ao tráfego rodoviário, dada a sua importância para a economia nacional.
Quanto ao estado das estradas secundárias e terciárias, as que conheço, por exemplo, a estrada que liga o Sumbe à Gabela, Estrada Nacional (EN) n.º 240, está em péssimo estado de conservação. Uma outra estrada secundaria, que sai da EN 280 ao Município da Chicomba, (o famoso triângulo do milho), é uma estrada terra batida, com pequenos pontecos, que é transitada com imensas dificuldades, particularmente no tempo chuvoso. A estrada que liga o Huambo à Huíla, um troço muito importante para os residentes no Nordeste da Província da Huíla, o troço entre Cuima e Cusse (vem sendo trabalhado há mais de 10 anos, ainda não está concluído). Este eixo é conhecido pela sua tradição de produção de milho e feijão (Caconda, Caluquembe e Chicomba). Portanto, as estradas são a força motora para alavancar a economia nacional, sem as quais, a mobilidade dos factores de produção far-se-á com imensas dificuldades.
Escrevo sobre o impacto das estradas no impulso à produção nacional pela quarta vez neste espaço. Referi no artigo publicado no dia 24 de Fevereiro de 2024 (já lá vão dois anos), que, num passado não muito distante, as estradas terciárias, as que ligam as sedes municipais às comunas e estas às aldeias, eram trabalhadas pelos próprios aldeões, com enxadas, abrindo valetas, colocando pedras nos buracos, permitindo a mobilidade de viaturas que moviam produtos agrícolas dos campos longínquos. Tomei contacto pela primeira vez com os camiões da Companhia Angolana Alves Ferreira (COALFA), difunda fábrica de vinhos do Huambo, na minha aldeia natal, quando vinham carregar laranja e tangerina do meu pai. Portanto, o problema não é só dinheiro, é também uma questão de vontade política e de liderança.
Vale também referir que não basta construir estradas. Deve-se ter em conta o padrão do pavimento das estradas que se constroem, o qual, devido à variabilidade dos solos deste extenso país, não pode ser uniforme para todas as regiões. Por exemplo, o padrão do pavimento asfáltico para as estradas das regiões com elevado volume de quedas pluviométricas, não pode ser idêntico com a das zonas semiáridas, onde as chuvas são mais irregulares; um outro aspecto a ter em conta é a largura das estradas. A EN 280, no troço que parte da EN 102 em direcção à Matala, e que igualmente liga o Lubango ao Namibe, é muito estreita, a sua reduzida largura tem sido a causa de muitos acidentes, de que tem resultado perdas de vidas humanas e materiais; a manutenção das estradas tem de ser permanente, tal como o seu uso é permanente; não se pode falar apenas da qualidade das estradas, sem garantir a consistência na sua manutenção. A limpeza das valetas e valas de drenagem, as acções de tapa buracos (que no passado era da responsabilidade dos cantoneiros, espalhados pelo território nacional). Hoje assiste-se o alargar de um buraco, a ponto de tomar a largura do pavimento.
Ouvindo o racional de alguns políticos, percebo que o problema do abandono que se assiste das estradas, que são críticas, para impulsionar a transformação da estrutura da economia, não tem muito a ver com a falta de dinheiro. Tem, sim, a ver com as prioridades que se estabelecem na alocação de recursos monetários. Em nenhum momento, nas actuais circunstâncias, iria priorizar a construção de um centro de convenções, mantendo a estrada que liga o Cuito a Camacupa sem asfalto, ou, ao menos, sem melhorar a sua transitabilidade. Igualmente, nesta fase de recursos limitados, pensaria em priorizar o financiamento de actividades reprodutoras efectivas da economia, que proporcionem o alargamento da base tributária, assim aumentar a oportunidades da colheita de receitas públicas e, assim, poder financiar mais a produção e disseminação de conhecimento. Justificar o investimento no centro de convenções com a oportunidade que vai criar no sector do turismo é, no meu entender, uma miopia. A indústria do turismo é uma indústria de paz, como se diz, tem muito a ver com o conforto criado pela acumulação de capital no passado, ou seja, tem de se criar condições de prosperidade primeiro, não o inverso, o que se assemelha a colocar a carroça à frente dos bois. Os turistas não vão para países sem estradas, com um sistema nacional de saúde deficiente e com profundas assimetrias entre os diversos grupos sociais, que, por norma, é indicação de insegurança e de existência de elevados níveis de criminalidade. Acima de tudo, os que cuidam das nossas estradas devem mudar o seu modus operandi, pelo menos, cortem o capim nas bermas das estradas, por favor!

