Em simultâneo, Ronald Lamola, chefe da diplomacia sul-africana, assegurou que "actos de ilegalidade, intimidação e violência contra comunidades migrantes não têm lugar na nossa democracia constitucional".
Ramaphosa, Schreiber e Lamola reagiram depois do Ghana, na voz do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Samuel Okudzeto Ablakwa, ter convocado o representante diplomático sul-africano a quem pediu "uma intervenção para evitar uma escalada ainda maior".
A reacção tardia das principais autoridades sul-africanas significa subestimação da gravidade do problema, sua natureza e repercussões a médio e longo prazos, num continente onde as divisões criadas pela escravatura, colonialismo, Conferência de Berlim (1884-85) e apartheid estão à vista de todos.
No início dos ataques, a ministra sul-africana da presidência, Khumbudzo Ntshavheni, apesar de condenar a violência, de certa forma co-responsabilizou as vítimas ao qualificar como "mera palhaçada infantil que carece de qualquer efeito legal" a eleição de um chefe tradicional pela comunidade nigeriana com o título de "rei do povo Igbo em KuGompo" região do Cabo.
Os ataques afrófobos, sobretudo a cidadãos da Nigéria e do Ghana, desencadeados a partir da tensão criada com a referida eleição na cidade de KuGompo, causaram vítimas, destruição de lojas e outros bens de migrantes africanos, contribuindo para agravar o clima de medo e de insegurança que atinge as comunidades africanas residentes na África do Sul.
Com cerca de 65 milhões de habitantes, a África do Sul, membro dos BRICS e do G20, abriga cerca de 2,4 milhões de imigrantes, maioritariamente africanos dos países vizinhos como Lesotho, Moçambique e Zimbabwe, bem como da Nigéria e do Ghana.
Segundo dados oficiais, a taxa de desemprego ultrapassa os 31% e a de desemprego jovem (entre os 15 e os 24 anos) os 57%. A pobreza atinge mais de metade da população (55%), predominantemente famílias negras, espelhando a continuidade das estruturas sociais e económicas do apartheid. O desemprego afecta principalmente os negros, que constituem 81% da população.
Perante este quadro, grupos de negros sul-africanos, nomeadamente o Operação Dudula (expulsar em zulu) e o March on March, usam os migrantes africanos como bodes expiatórios da sua situação. Justificam a violência afrófoba com a alegação de que o País está inundado de imigrantes, que são a causa do desemprego e do aumento do tráfico e consumo de drogas.
Pela sua história, potencial político e económico (uma das três maiores economias do continente), da África do Sul, liderada pelo ANC, o mais antigo partido africano e maior beneficiário da solidariedade panafricana ao longo dos 46 anos de apartheid, esperava-se liderança no combate pró-integração africana.
Se na frente externa (extra-continental), o País tem sido o farol do continente, como mostra a apresentação no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) da queixa muito bem fundamentada, acusando o regime de Telavive de genocídio contra os palestinianos, internamente tem dificuldades em aparecer como locomotiva do desenvolvimento do projecto panafricano.
Assim, as cíclicas ondas de xenofobia dos sul-africanos surgem aos olhos de observadores africanos e diaspóricos como entrave ao projecto de integração continental.
Neste contexto, a instabilidade causada por mais uma onda de ataques afrófobos abriu o debate em África e na Diáspora sobre a necessidade de o assunto ser tratado não apenas como um problema interno, mas como uma crise continental.
Problema que para o Ghana representa uma "traição" ao panafricanismo e ao "verdadeiro espírito de cooperação, pelo qual os nossos pais fundadores sempre trabalharam incansavelmente".
Traição, afirma Samuel Okudzeto Ablakwa, porque os ataques representam "ódio puro e simples" e "xenofobia sem fundamento" que, enfatiza, são particularmente dolorosos dada a história de solidariedade partilhada de África.
Depois de a União Africana ter reconhecido, por unanimidade, o colonialismo, a escravatura e o apartheid como crimes contra a humanidade e formas de genocídio, que infligiram danos sistémicos aos povos africanos, diferentes vozes defendem uma acção urgente e coordenada da UA na busca de soluções para combater a afrofobia no continente.
Entre essas vozes destaca-se a do chefe da diplomacia do Ghana que apelou aos líderes africanos para que se unam contra tais acções e resistam às tentativas de dividir o continente.
Samuel Okudzeto Ablakwa garantiu que o seu País continua comprometido com os ideais panafricanos e continuará a promover políticas que fomentem a integração africana, enquanto pedia um renovado compromisso com a unidade, a solidariedade e o destino comum do continente.
No mesmo sentido, em carta aberta dirigida à Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e à União Africana, o escritor zimbabweano Jacob Kudzayi Mutisi apelou a uma acção urgente e coordenada, alertando que "o silêncio se torna cumplicidade" diante da violência contínua.
Tal como o ministro ghanense, também Mutisi, citado pelo site zimeye.net, invocou o legado de apoio continental africano à luta contra o regime do apartheid.
"Hoje, décadas após o início da democracia, outros africanos estão a ser atacados, deslocados e, em alguns casos, mortos", escreveu, argumentando que a xenofobia deve ser tratada não apenas como uma questão interna, mas como uma crise continental.
Na carta, Mutisi insta os órgãos regionais a irem além de declarações e a adoptarem medidas concretas, nomeadamente, realização de cimeiras urgentes da SADC e da UA, focadas especificamente na xenofobia e estabelecimento de mecanismos de monitoramento e responsabilização.
Propõe ainda a criação de estruturas de protecção mais robustas para migrantes, pressão diplomática coordenada em vez de amplos boicotes económicos, bem como a realização de campanhas de educação pública para combater a desinformação e as tensões sociais.
Ao mesmo tempo, o intelectual zimbabweano alerta contra apelos indiscriminados ao boicote de empresas sul-africanas em todo o continente, acções que podem prejudicar os trabalhadores comuns - muitos dos quais migrantes africanos - e agravar a instabilidade económica.
Longe de constituir um problema isolado da África do Sul, a questão da afrofobia/negrofobia é uma realidade em várias regiões e países do continente.
Presente na política, nos media, na sociedade em geral e muitas vezes desvalorizada ou mesmo normalizada, a afrofobia representa hoje um barril de pólvora que, rebentando. pode desencadear conflitos de larga escala inclusive militares entre estados africanos.
Por isso, adoptar medidas contra a afrofobia é também uma forma de prevenção contra eventuais conflitos fronteiriços e regionais com consequências política e economicamente desastrosas.
É igualmente travar a crescente erosão político-social do continente que tem no projecto de integração o seu motor de desenvolvimento e sobrevivência.
