"Hoje somos as crianças nuas das sanzalas do mato, os garotos sem escola a jogar a bola de trapos nos areais ao meio-dia."

Adeus à Hora da Largada - Agostinho Neto

A celebração do Dia do Herói Nacional é sempre uma oportunidade para revisitar a vida, o pensamento e o legado de Agostinho Neto, fundador da Nação e primeiro Presidente da República de Angola. Desta vez, proponho uma reflexão sobre uma dimensão menos divulgada do seu pensamento: a visão sobre o desporto e o papel que este poderia desempenhar na construção da nova sociedade angolana.

Esta reflexão tem como principal referência a obra Momentos Sublimes do Desporto Angolano, de António Ferreira "Aleluia", Silva Candembo e Arlindo Macedo, importante trabalho sobre a história do nosso desporto.

Não encontramos na trajectória pessoal de Agostinho Neto grandes referências à prática desportiva. Médico, poeta e intelectual, não era conhecido pela sua ligação directa ao fenómeno desportivo. Porém, enquanto líder do processo de libertação nacional e Presidente da República, demonstrou uma compreensão lúcida da sua importância social e estratégica.

Uma das afirmações que melhor traduz essa visão surgiu numa entrevista ao jornal português A Bola, em 1975. Neto afirmou, em síntese, que se os filhos de Angola tivessem acesso às mesmas condições alimentares da elite dominante, nomeadamente três refeições por dia, muitos campeões poderiam nascer no país.

A ideia continua extraordinariamente actual. O talento não existe isoladamente. Para uma criança tornar-se atleta e um atleta poder chegar a campeão são necessárias condições de alimentação, saúde, educação, acompanhamento e oportunidade. Antes de procurar campeões, é preciso criar as condições para que possam nascer e desenvolver-se.

É nesta perspectiva que devemos compreender a importância atribuída ao desporto depois da Independência. Num país devastado pela guerra, carente de quadros e de estruturas, o desporto foi colocado entre as áreas da construção do novo Estado.

Neto empenhou-se no regresso de quadros desportivos angolanos que se encontravam no exterior e incentivou a reorganização do movimento desportivo. Surgiram comités de reestruturação e comissões instaladoras, seguindo-se a institucionalização das federações nacionais. A divisa "Desporto para Todos" representava a democratização do acesso à prática desportiva, retirando-a da lógica de privilégio das elites e colocando-a ao serviço da juventude.

Em 1976, as Jornadas de Solidariedade Anti-Imperialistas reuniram em Angola países como Moçambique, Congo-Brazzaville, Cuba e Nigéria, constituindo também um dos primeiros momentos de afirmação internacional do novo país através do desporto. O basquetebol teve a honra de constituir a primeira selecção nacional.

A institucionalização das selecções tinha um significado que ultrapassava a competição. Representar Angola internacionalmente era afirmar a identidade, a soberania e o orgulho de uma Nação recém-independente. Em 1980, Angola conquistaria o Campeonato Africano de Juniores de Basquetebol, na Cidadela Desportiva, naquela que ficou conhecida como "a mãe de todas as vitórias". Neto já havia falecido, mas a candidatura angolana para acolher a competição tinha sido apresentada durante a sua liderança.

Décadas depois, os desafios fundamentais permanecem: como garantir alimentação adequada às nossas crianças? Como assegurar o acesso ao desporto e à educação? Como transformar talento em rendimento? Como fortalecer clubes e federações e evitar que milhares de talentos se percam por falta de oportunidades?

Talvez esteja aqui a maior actualidade do pensamento desportivo de Agostinho Neto: o campeão não começa no pódio. Começa na criança, na escola, na família, no clube, na alimentação e na oportunidade de sonhar.

A reflexão sobre as três refeições diárias é, por isso, muito mais do que uma frase sobre desporto. É uma visão sobre desenvolvimento humano, igualdade de oportunidades e construção da Nação.

Agostinho Neto teve um mandato presidencial curto, mas deixou marcas profundas na história de Angola. Também no desporto permanecem as suas impressões digitais. Honrar esse legado é compreender que o desenvolvimento desportivo não se mede apenas pelas medalhas conquistadas, mas também pelas crianças e jovens a quem damos condições para crescer, aprender, competir e acreditar que podem ser campeões.

Porque, antes de termos campeões, precisamos de construir as condições para que eles possam existir.

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga