Os angolanos não irão perdoar os políticos que desperdiçaram 11 anos sem nada fazer. Não vão perdoar quem, desde as cheias de 11 de Março de 2015, ficou impávido e sereno a ver a "banda passar". O testemunho do vice-governador de Benguela para a Área Técnica por altura das cheias de Março de 2015, Victor Moita, é bastante esclarecedor quando diz e passo a citar: "Na sequência dos eventos ocorridos naquele período, foi realizado um diagnóstico técnico que identificou como principal linha de intervenção a necessidade de actuar a montante, isto é, nas zonas interiores da província, com o objectivo de mitigar os efeitos das enchentes do litoral. Este diagnóstico apontava, de forma clara, para a reabilitação e reforço das infra-estruturas hidráulicas existentes, nomeadamente barragens e represas, bem como a regularização dos principais cursos de água e as bacias de retenção localizadas nos municípios do Cubal, Chongoroi, Bocoio, Balombo e Ganda.

A regularização dos rios Cavaco, Coporolo e Catumbela, o desassoreamento e correcção das suas margens e melhoria da capacidade de escoamento de modo a reduzir o risco de transbordo em época das chuvas". Tudo isso foi dito, escrito e recomendado. Entretanto, Victor Moita escreve algo que é ainda mais grave e preocupante: "A implementação destas medidas estruturantes não foi devidamente executada. Verificou-se uma priorização de intervenções na zona urbana da cidade de Benguela, em detrimento das acções preventivas nas áreas interiores, que são determinantes para o controlo hidrológico do sistema como um todo". E conclui deixando algo que aqui coloca o Estado numa situação muito complicada quando diz que: "A ausência de uma abordagem integrada e preventiva resultou na recorrência de eventos de inundação com impactos significativos, evidenciando fragilidades no planeamento territorial e na gestão de recursos hídricos". É preciso dizer mais alguma coisa?
O Presidente João Lourenço terá de fazer perguntas difíceis e tem de exigir respostas aos seus auxiliares. O povo precisa de sentir que João Lourenço está com eles nas preocupações, na dor e na angústia. Quando a população de Benguela diz ao PR: "Faz alguma coisa!", é um sinal claro de que a governação local é impotente e incapaz de resolver os seus problemas, não tem capacidade de lhes apresentar soluções e que só a chegada do "Chefe" pode resolver a situação. O País precisa de uma conversa séria sobre este e outros assuntos.

O Governo falhou no planeamento, nos alertas, na comunicação e na prevenção. O Governo falhou na prontidão, na gestão, na organização. O Governo falhou na solidariedade, falhou na empatia e na resposta tardia. E mais grave ainda, falhou onde não devia falhar: nas lideranças!
Falhou na liderança local, onde se viu o governador de Benguela, Manuel Nunes Júnior, com uma retórica incapaz de fazer uma leitura do momento, do impacto e dimensão da situação. Vimos um governante fazer uma gestão "paliativa" da situação e a aguardar que a salvação viesse de Luanda.
De Luanda, o poder central demorou três dias a reagir. De Luanda, veio uma forte armada governamental acompanhada de um grande aparato mediático, que foram todos praticamente derrubados com o grito do povo ao PR: "Faz alguma coisa!". Os que vieram de Luanda praticamente não tinham palavras de conforto e como proteger uma população desolada, desprotegida, deslocada, frustrada e desorientada. Uma população que vive anos de inacção, de desorganização.

O Estado não pode ser um gigante com pés de barro. O Estado tem de ter instrumentos, tem de ter respostas rápidas e eficazes. O Estado tem de organizar melhor os seus recursos para responder rapidamente às consequências das cheias e prevenir as suas consequências. Temos de ter a capacidade de assumir que a responsabilidade em termos de liderança e estratégia é do Governo. Temos de ter a capacidade de assumir que, durante anos, se falhou em ternos de prevenção, apoio e recuperação. Nunca houve uma cadeia de comando, de coordenação, de comunicação, de estratégia, de orientação e controlo a todos os níveis. Tudo porque há muito temos uma governação de improviso.