Naqueles anos, o Progresso era muito mais do que um clube de futebol, era uma instituição profundamente ligada à identidade do Sambizanga e um espaço de afirmação social, comunitária e desportiva para várias gerações. Os meus irmãos mais velhos, Vadiago e Pacheco, estiveram ligados à história do clube, quer no seu processo de criação, quer enquanto atletas. Foi através desse ambiente que tomei contacto com muitas das figuras que ajudaram a construir o Progresso e a sua mística.
Entre elas encontrava-se Manuel Domingos Augusto, o nosso M.A. Embora muitos o conheçam, sobretudo, pela sua notável carreira diplomática e política, a verdade é que o seu percurso também passou pelo dirigismo desportivo e pela dedicação ao Progresso Associação do Sambizanga. Foi nesse contexto que o conheci. Eu era apenas um adolescente, e ele já uma referência para muitos de nós. Desde então, e apesar da diferença de idade, sempre me tratou como um irmão mais novo.
Na altura, naturalmente, não imaginava que aquele dirigente desportivo ligado ao Progresso viria a tornar-se uma das figuras mais marcantes da diplomacia angolana. Nem que décadas mais tarde teríamos a oportunidade de trabalhar lado a lado em algumas das mais importantes missões do Estado angolano.
Os anos passaram, mas a ligação manteve-se. Quando fui para Braga, Portugal, estudar, Manuel Augusto já era uma figura respeitada da vida pública angolana. Tinha desempenhado funções de relevo na África do Sul, num período particularmente sensível da transição pós-Apartheid e do restabelecimento pleno das relações entre os dois países. Mais tarde representou Angola na Zâmbia, um dos países mais importantes para a diplomacia angolana na África Austral, numa fase em que a paz e a estabilidade regional constituíam prioridades estratégicas para o nosso País. O seu percurso distinguiu-se igualmente pela versatilidade. Entre 1999 e 2005, exerceu as funções de vice-ministro da Comunicação Social, levando para o Executivo a experiência de jornalista e comunicador. Esta passagem pela comunicação institucional conferiu-lhe uma capacidade rara de transmitir ideias complexas de forma clara e eficaz, qualidade que viria a revelar-se particularmente útil no exercício da diplomacia.
Recordo-me particularmente de um jantar no Galeto, em Lisboa, local de encontro obrigatório para muitos estudantes angolanos dos anos 90. O motivo era simples: queria saber se Braga oferecia boas condições para acolher o seu filho Cláudio, que se preparava para iniciar os estudos universitários. Disse-lhe sem hesitar que sim e acrescentei que estaria disponível para o receber e apoiar no que fosse necessário. O Cláudio acabou por ir para Braga e, a partir daí, os nossos encontros tornaram-se mais frequentes. Sempre que Manuel Augusto passava por Portugal, procurávamos encontrar-nos. Eu continuava a ser um dos seus "miúdos", mas a verdade é que a amizade foi crescendo e ganhando uma dimensão cada vez mais profunda.
Esta relação conheceu uma nova etapa em 1998, quando comecei a trabalhar na Assessoria Diplomática da Presidência da República. A amizade passou a cruzar-se diariamente com as responsabilidades institucionais. Passei a ser um dos seus interlocutores em diversos assuntos de interesse comum e tive a oportunidade de o acompanhar mais de perto no exercício das suas funções.
A primeira vez que fui ao Uganda foi precisamente para o acompanhar numa missão oficial de entrega de uma mensagem do Presidente José Eduardo dos Santos ao seu homólogo ugandês. Manuel Augusto era então embaixador de Angola na Etiópia e representante permanente junto da União Africana, acumulando, igualmente, acreditação diplomática junto do Uganda. Foi uma experiência marcante porque me permitiu observar de perto um diplomata no auge da sua maturidade profissional. A forma como preparava os encontros, como dominava os dossiers e como estabelecia relações de confiança com os seus interlocutores ajudou-me a compreender melhor a essência da diplomacia. O conhecimento profundo das dinâmicas africanas, das suas instituições e dos seus líderes transformou-o numa das vozes mais respeitadas da diplomacia angolana.
Com o passar dos anos, e à medida que assumia responsabilidades cada vez mais elevadas como vice-ministro e depois secretário de Estado das Relações Exteriores, a nossa proximidade profissional e pessoal tornou-se ainda mais intensa. Fizemos inúmeras missões juntos, quer no continente africano, quer em diferentes fóruns multilaterais. Tive o privilégio de aprender observando-o. Manuel Augusto possuía uma combinação rara de conhecimento, experiência e inteligência emocional. Preparava-se meticulosamente para cada missão, conhecia profundamente os temas que tinha em mãos e sabia como poucos interpretar as sensibilidades políticas dos seus interlocutores.
Mas aquilo que mais impressionava não era apenas a sua competência profissional, era também a sua dimensão humana. O sorriso fácil, a boa disposição, a serenidade, a disponibilidade permanente para ouvir e aconselhar, a forma respeitosa como tratava todos os que com ele trabalhavam. Nunca precisou de elevar a voz para afirmar autoridade. Liderava pelo exemplo e ensinava pela prática.
Ao longo dos anos trabalhámos igualmente em várias iniciativas destinadas a reforçar a presença de quadros angolanos nas organizações internacionais. Participámos em diferentes grupos de trabalho criados por orientação do Presidente da República, sempre com o objectivo de aumentar a projecção internacional de Angola e criar oportunidades para as novas gerações.
Em 2017, voltámos a partilhar um dos momentos mais marcantes da nossa convivência profissional. Fomos ambos integrados na equipa que acompanhou o então candidato do MPLA à Presidência da República, o camarada João Lourenço, numa série de encontros com Chefes de Estado africanos. Ao longo dessa missão, tornou-se ainda mais evidente o respeito e a consideração de que Manuel Augusto gozava junto de Chefes de Estado, diplomatas e responsáveis de organizações regionais. A sua experiência, conhecimento dos dossiers africanos e vasta rede de contactos faziam dele uma das referências incontornáveis da diplomacia angolana.
Quando, mais tarde, o Presidente João Lourenço anunciou a composição do seu primeiro Governo e confirmou Manuel Augusto como ministro das Relações Exteriores, a notícia foi recebida com naturalidade por muitos dos que acompanhavam a diplomacia angolana. Para aqueles que conheciam o seu percurso, tratava-se do reconhecimento de uma longa carreira construída com competência, dedicação e sentido de Estado. Confesso que também senti uma enorme alegria. Tinha a convicção de que a diplomacia angolana estava entregue a alguém que reunia experiência, autoridade moral e profundo compromisso com os interesses nacionais.
Pouco tempo depois, encontrámo-nos na casa do nosso amigo e colega Salvador de Jesus. Éramos apenas os três. Nessa ocasião, Manuel Augusto comunicou-nos que pretendia contar connosco para integrar a equipa dirigente que iria formar no Ministério das Relações Exteriores (MIREX). No meu caso, convidou-me para exercer as funções de secretário-geral, proposta que recebi como uma enorme honra e, acima de tudo, como uma extraordinária demonstração de confiança.
Os anos que se seguiram foram de intenso trabalho, dias longos, noites curtas e desafios permanentes. Sob a sua liderança, trabalhámos na implementação das orientações estratégicas definidas pelo Presidente da República para a política externa angolana e, em particular, na reorganização do MIREX. Foram anos exigentes, mas também profundamente enriquecedores, durante os quais pude testemunhar a sua dedicação absoluta ao serviço público, a sua atenção aos detalhes e a sua permanente preocupação com a valorização dos quadros do Ministério.
Embora a nossa missão conjunta no Ministério tenha terminado, a vida pública acabaria por voltar a reunir-nos na Assembleia Nacional, desta vez como deputados. Costumava dizer-me, em tom de brincadeira, que agora era a minha vez de orientar os trabalhos, porque eu era vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais de que ele era membro. Mantivemos os nossos encontros, os nossos cafés e as nossas conversas, que nunca deixaram de combinar amizade, reflexão política e preocupação com o futuro de Angola.
Quando fui nomeado embaixador de Angola nos Estados Unidos da América, senti o orgulho pela responsabilidade que também teve no meu percurso. Os nossos encontros passaram a acontecer, sobretudo, em Luanda e em Nova Iorque, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Com o Salvador, o Almeida Luzito e o Aguinaldo Baptista, criámos uma espécie de ritual anual feito de amizade, memória e camaradagem.
Tínhamos um almoço marcado para Março deste ano. Quando cheguei a Luanda, trocámos mensagens. Informou-me que regressaria de uma reunião da União dos Parlamentos Africanos e que almoçaríamos logo depois. Infelizmente, esse almoço nunca chegou a acontecer. A partir daí começaram a chegar notícias cada vez mais preocupantes.
Hoje, ao olhar para trás, percebo que tive o privilégio de acompanhar várias etapas da vida de Manuel Domingos Augusto. Conheci-o primeiro através do Progresso e do Sambizanga, quando eu era apenas um adolescente. Mais tarde conheci o diplomata, o negociador, o dirigente político, o ministro das Relações Exteriores, o deputado e o servidor público. Mas, acima de tudo, conheci o homem.
Ao longo de décadas de amizade e trabalho conjunto, vi-o representar Angola nos momentos mais difíceis e também nos momentos mais promissores da sua história recente. Vi-o contribuir para os esforços de paz, fortalecer a presença angolana em África e no mundo, participar na construção de uma diplomacia moderna e ajudar a formar uma geração de diplomatas e servidores públicos que hoje continuam a servir o País.
A História registará os cargos que ocupou e os resultados que alcançou. Mas aqueles que tiveram o privilégio de caminhar ao seu lado recordarão, sobretudo, a sua humanidade, a sua lealdade, a sua simplicidade e a sua permanente disponibilidade para aconselhar e apoiar.
Num tempo em que tantas vezes se confunde autoridade com distância e liderança com protagonismo, Manuel Augusto ensinou-nos que é possível exercer responsabilidades elevadas sem perder a humildade, sem perder a capacidade de ouvir e sem perder a ligação às pessoas.
Por isso, quando penso em Manuel Augusto, não penso apenas num dos mais destacados diplomatas angolanos da sua geração. Penso no irmão mais velho que a vida me deu, no amigo que sempre encontrou tempo para uma conversa, um conselho ou uma palavra de incentivo, e num homem cujo percurso continuará a inspirar aqueles que acreditam que servir Angola é, antes de tudo, uma missão de carácter, dedicação e entrega.
É assim que escolho recordar Manuel Domingos Augusto: com gratidão pelo amigo, respeito pelo servidor do Estado e saudade do irmão mais velho que a vida me deu.
* Embaixador de Angola nos Estados Unidos da América