Mesmo que não se queira validar o seu depoimento, ao menos tinham de o ouvir, se realmente o objectivo é a busca da verdade. Em cartas datadas de Dezembro de 2020 e Novembro de 2021, JES denunciou a violação dos seus direitos constitucionais, alegando que nunca havia sido chamado a prestar esclarecimentos, apesar de várias acusações públicas envolvendo directa e indirectamente o seu nome. A primeira carta é de 4 de Dezembro de 2020, escrita em Barcelona, sendo dirigida ao Procurador-Geral da República, Hélder Fernando Pitta Grós, com o assunto "pedido de audição no processo-crime n.º 12/20 que corre seus trâmites legais junto do DNIAP/PGR", nela, ex-PR "roga obséquio" para que em face da sua situação de saúde e ausência do País por esta razão, agravada pela situação imposta pela pandemia da Covid-19, fossem criadas condições através da nossa representação diplomática em Espanha, para que, por videoconferência, prestasse declarações. JES refere ainda no documento que, como já lhe "haviam cortado" o direito ao contraditório no processo relativo à transferência dos 500 milhões de dólares do BNA, quando ainda se encontrava em Angola, porque "nunca foi chamado na fase inicial do processo, como deveria ser", para no mínimo confirmar em que circunstâncias se processou a transferência, então remeteu cópias do requerimento para conhecimento de várias entidades como o Presidente da República, João Lourenço, o então presidente da Assembleia Nacional, o então juiz conselheiro presidente do Tribunal Constitucional e juiz conselheiro presidente do Tribunal Supremo, o então Provedor de Justiça, os líderes dos grupos parlamentares da Assembleia Nacional e a 10ª Comissão da Assembleia Nacional, dá para perceber que tentou com tudo e com todos. Ainda assim, não obteve uma única resposta.

Já em Luanda, a 08 de Novembro de 2021, JES faz um novo pedido de audição à PGR e desta vez até acrescenta a palavra "urgente" ao pedido, reafirmando o facto de não ter obtido qualquer resposta ao pedido feito no ano anterior (anexou uma cópia da carta). Denúncia que tem sido alvo de imputações públicas por "vários órgãos de comunicação social e da Televisão Pública de Angola, em particular", envolvendo factores que afectam o seu bom-nome, honra e consideração, sem ter tido oportunidade de se defender. É bastante surreal e difícil de acreditar o homem que governou Angola durante 37 anos com todo o poder e autoridade estar aqui a implorar para ser ouvido, a expressar total disponibilidade para prestar declarações formais às autoridades competentes e a ser "ignorado com sucesso". E neste segundo pedido, JES, além dos remetentes anteriores (que aqui já citei), envia também para os partidos com assento parlamentar, para o presidente da CEAST e também ao do CICA. E este documento foi reconhecido em notário.

Alguns dias depois, a 24 de Novembro do mesmo ano, José Eduardo dos Santos apresentada também por escrito (e com assinatura reconhecida em cartório notarial) um depoimento formal no âmbito do referido processo, o tal que investiga dois ex-colaboradores directos seus, os generais Hélder Vieira Dias "Kopelipa" e Leopoldino do Nascimento "Dino", envolvendo alegados ilícitos relacionados com a China International Fund. Este depoimento visava reforçar o seu pedido de audição oficial, ignorado em duas cartas anteriores e exercer o seu direito constitucional ao contraditório e à defesa. JES anexou ao documento uma declaração em que diz que o General Dino nunca ocupou cargos executivos no Estado, nunca foi gestor público e que nem representou Angola em contratos comerciais e financeiros, que a parceria com a CIF foi coordenada pelo então vice-Presidente da República, Manuel Vicente. É que o nosso antigo PR chegou a dizer que, se não fosse ouvido em tempo útil, seria forçado a falar publicamente. Por que razão a PGR nunca se dignou a ouvir JES? Por que razão nunca se ouviu também Manuel Vicente, se o objectivo é a busca da verdade e JES esteve sempre disponível para colaborar? Ele só fez o depoimento e as declarações porque não estava a ser ouvido. Apesar de não ter sido ouvido em vida pelas autoridades competentes, estes depoimentos tornados públicos aqui no NJ são um testemunho póstumo de defesa, de reivindicação e apelo à justiça, que vão contribuir para o debate sobre a Justiça e o seu papel na história contemporânea de Angola.