O discurso oficial que ecoou no centro de acolhimento e em bairros afectados, numa cerimónia presidida pelo ministro das Obras Públicas, Urbanismo e Habitação, Carlos Alberto dos Santos, apontava para o arranque da operação há muito aguardada pelas vítimas das enxurradas, mas a realidade é bem diferente.

Mais do que isso, o governador provincial de Benguela, Manuel Nunes Júnior, chegou mesmo a ressaltar que a primeira pedra, hoje "cercada" por uma carrada de brita, representava também o início da reconstrução dos bairros destruídos, tarefa para a qual o Presidente João Lourenço aprovou um orçamento superior a 10 mil milhões de kwanzas.

Na Graça, zona alta do município de Benguela, o local escolhido para as primeiras casas de um pacote inicial de 725, estão somente os sinais de um estaleiro que procura ganhar forma com vinte jovens angolanos, quando o mesmo discurso oficial sugeria a criação de centenas de postos de trabalho.

Tudo isto foi verificado, também ontem, pelo ministro de Estado e Chefe da Casa Militar do Presidente da República, João Ernesto dos Santos "Liberdade", que insistiu nas questões relativas ao cumprimento dos prazos.

Tal como elementos da sua delegação, o ministro de Estado procurou saber, de forma reiterada, se as primeiras 225 casas, as redes para água e energia e os equipamentos sociais (posto de saúde, escola e centro de atendimento ao público) chegam em oito meses, com o 19 de Junho como a data de início.

Em resposta, empreiteiro e fiscal, a Dar Angola, reafirmaram que "os prazos serão cumpridos", sublinhando que, na melhor das hipóteses, a conclusão acontece em Dezembro, dois meses antes do previsto.

Posteriormente, João Ernesto dos Santos deslocou-se ao centro de acolhimento, onde, segundo dados oficiais, já só se encontram pouco mais de 1.200 famílias.

Ali, duas ou três famílias chegam a partilhar a mesma tenda, expostas ao frio e outras intempéries.

"Não merecemos isso, é muito frio, a comida não chega para nada. Ninguém sabe sobre as tais casas, uns nos falam que começou, outros nos falam que ainda", disseram, num breve contacto com o NJ, as senhoras Josefa e Ngueve, enquanto o ministro de Estado e Chefe da Casa Militar do PR visitava os compartimentos.

A dada altura, o governador de Benguela, dirigindo-se a um grupo de sinistrados, afirmou, sorridente, que "o Governo já começou a construir as vossas casas".

Entretanto, o balanço da missão de Ernesto dos Santos, feito pelo comissário nacional adjunto do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, o comissário-bombeiro Edson Fernando Domingos, apresentou uma versão diferente: "a construção [das casas] propriamente dita ainda não começou, mas já está a ser feito o estaleiro da empresa".

De acordo com o oficial, foi identificada a necessidade de reforço do abrigo das famílias que se encontram no centro de acolhimento do novo campismo, com mais tendas, apoio médico, alimentos, energia e água.

Na ocasião, Edson Domingos reafirmou que o Governo de Benguela procedeu já à reintegração de quase 14 mil famílias, que continuam a receber assistência mediante a apresentação de senhas à porta dos armazéns.