A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem insistido que a velocidade a que a mais grave e letal febre hemorrágica conhecida está a progredir no leste da RDC exige medidas extraordinárias para travar o avanço, mas agora existe uma possível explicação... científica.

É que um estudo feito por uma equipa multidisciplinar para a OMS, cujo resultado foi avançado pela revista Science, indica que esta epidemia não começou a 15 de Maio como está oficialmente determinado.

Esta equipa, como contou à Science o antropólogo Jules Villa, citado tambem pelo O Globo, que participou nos trabalhos de campo, verificou que o vírus Bundibugyio que está na sua origem, já estava activo na província de Ituri, onde começou, em Janeiro deste ano, pelo menos quatro meses antes da data oficial.

E ao invés de ter sido detectado pela primeira vez na zona de Bunia, a capital provincial, a infecção já estava instalada em Janeiro pelo menos numa aldeia da mesma província, Mongbwalu, conhecida pelas suas minas de ouro.

A equipa deverá publicar o seu estudo na revista The Lancet em breve e se as suas conclusões estiverem correctas, uma parte da velocidade atribuída a esta epidemia na forma como evolui em número de infectados e geograficamente pode ser atribuída a factores até aqui desconhecidos.

Como, por exemplo, o facto de o vírus estar a ser detectado agora em áreas onde efectivamente já estava a infectar pessoas, em Mongbwalu, por exemplo, muito antes de ter sequer sido oficialmente detectado o primeiro caso em Bunia.

Uma imagem que permite explicar melhor este cenário é como se um corredor de maratona tivesse saído da linha de partida muito antes dos demais e todos se tivessem esquecido dele até ao momento em que começou a ser visto na aproximação à meta.

Tal possibilidade, admitem os cientistas, não retira severidade a esta epidemia, porque em nada altera o facto de a estirpe do vírus que está por trás dela, a Bundibugyo, ao contrário das mais conhecidas, não tem nem vacina nem tratamento conhecidos.

E, por outro lado, demonstra que existe ainda a possibilidade de o vírus estar também noutras regiões, tão ou mais remotas que Mongbwalu, onde ainda não foi oficialmente reconhecido pelas autoridades sanitárias congolesas ou pela OMS ou o CDC-Africa, o centro de controlo de doenças da União Africana.

Apesar da recente possibilidade de a epidemia ser mais antiga que aquilo que é oficialmente reconhecida, o CDC-Africa, que está no terreno a par das outras organizações internacionais e as autoridades sanitárias congolesas, mantém a advertência de que se trata de uma epidemia especialmente rápida na sua progressão,

Além disso, é já a segunda mais séria e maior epidemia alguma vez registada, estando já em várias províncias da RDC, desde logo Ituri, onde foi detectada inicialmente, nos Kivu Norte e Sul, Haut-Uele e Tshopo, além do Uganda, onde faz dezenas de vítimas até ser dada como eliminada há cerca de duas semanas.

Um dos dados usados pela CD-Africa para sustentar a ideia da extrema velocidade de progressão desta epidemia é que em 40 dias, desde 15 de Maio, foram confirmados mil casos, quando em 2018, na última grande epidemia, foram precisos 235 dias para atingir esse patamar de infeccões.

Ora, este dado pode agora estar descontextualizado se se confirmar que a epidemia começou em Janeiro e não em Maio, de acordo com o estudo feito para a OMS.

Esta epidemia, que já fez oficialmente mais de 1550 vítimas mortais em perto de 3500 casos confirmados laboratorialmente, apresenta, segundo o CDC-Africa, um conjunto de desafios complexos devido à escassa cobertura sanitária do leste do Congo.

E isso inclui débil rede de laboratórios, pouco pessoal médico especializado, fraca capacidade de diagnóstico e uma acrescida dificuldade que resulta das crenças locais que empurram os doentes para as mãos de curandeiros e feiticeiros ao invés das unidades de saúde oficiais, ajudando à dispersão do vírus e dificultando o tratamento dos pacientes.

Além disso, toda a região afectada vive há décadas situações de conflito militar provocado pelo elevado número de guerrilhas que servem os interesses estrangeiros na exploração de minérios estratégicos, que desde a década de 1990 produziu cerca de 5 milhões de refugiados alojados em dezenas de campos pobremente geridos, sendo focos relevantes na propagação de doenças, incluindo o Ébola.

Este tipo de sociologia conflituosa emergente das infinitas guerras no Congo leva a que, mais que noutras regiões de África, também as equipas médicas sejam comummente vítimas de agressões e violência (ver links em baixo), com hospitais destruídos pelo fogo, etc.

Face a este cenário, em todos os países vizinhos da RDC, incluindo Angola, estão a ser implementadas medidas de controlo fronteiriço, como, por exemplo, a verificação da temperatura corporal dos passageiros, mesmo aqueles que chegam por vias aérea, sendo esse o caso do AIAAN, que serve a capital angolana.