Com um aumento de quase 4% (3,85%), o barril de Brent, que é a referência principal para as ramas exportadas por Angola, estava a valer 80,40 USD, perto das 12:00, hora de Luanda.

Esta reacção dos mercados tem como pano de fundo o risco de uma escalada do conflito em Gaza para o resto do Médio Oriente, região responsável pela produção de mais de 30% do crude consumido diariamente em todo o mundo, acima de 102 milhões de barris por dia (mbpd).

Como os Houthis já ameaçaram, se conseguiram interromper o fluxo marítimo de e para o Canal do Suez, obrigando as embarcações a circular pela sul do continente africano, os custos sobem de forma vertiginosa e o impacto nas economias mundiais será substancial.

Nos últimos números conhecidos, com o começo destes ataques sobre a navegação de e para o Mar Vermelho, após 07 de Outubro do ano passado, quando começaram os ataques israelitas a Gaza como resposta à incursão do Hamas no sul de Israel, o volume de trânsito pelo Canal do Suez, 15 por cento do comércio mundial passa por ali, caiu mais de 40 %.

Há semanas que se esperavam os primeiros ataques sobre as posições dos rebeldes Houthis, no Iémen, como resposta aos misseis e drones lançados por estes "proxys" do Irão contra os navios que entram no Mar Vermelho e que obrigaram já algumas das maiores companhias navais do mundo, incluindo os operadores dos superpetroleiros que fazem chegar o crude do Médio Oriente ao ocidente, a contornar o Cabo da Boa Esperança, no sul do continente africano, impondo cerca de mais 20 dias de viagem para as embarcações que rumam do Oriente para a Europa e EUA.

Esta é uma das situações que os analistas mantinham em aberto como possibilidade de escalda do conflito de Gaza para o resto da região do Médio Oriente e, como se previa, o seu efeito está já a fazer-se sentir nos mercados petrolíferos.

O impacto deste ataque ainda estava, a meio da manha, no patamar das reacções verbais, com os Houthis, que dominam mais de 50% do Iémen ocidental, na geografia que abrange o Estreito de Bab el-Mandabm entre o Mar Vermelho e o Golfo de Aden (Mar Arábico- Oceano Índico) a jurarem vingança, que será sempre mais e mais intensos ataques às embarcações com ligações a Israel e ao alcance dos seus drones e misseis.

Estes ataques dos rebeldes iemenitas são, argumentam, ma acção de apoio aos palestinianos de Gaza que estão há mais de três meses sob ataque israelita (ver links em baixo nesta página).

Para Angola, as contas são estas...

Para Angola, que é um dos produtores e exportadores que mais dependem da matéria-prima em todo o mundo, devido à escassa diversificação económica, ter o Brent nos 80 USD permite, embora não seja o antidoto definitivo, diluir melhor os efeitos devastadores da crise cambial e inflacionista, até porque o país enfrenta também o problema da persistente redução da produção diária.

Com OGE 2024 elaborado com um valor de referência médio para o barril de 65 USD, estes valores actuais permitem um relativo optimismo, mas aumentar a produção é o factor-chave, o que ficou mais fácil depois de Angola ter, em Dezembro passado, anunciado a saída de membro da OPEP, o que deixa um eventual acréscimo da produção fora dos limites impostos pelo cartel aos seus membros como forma de manter os mercados equilibrados entre oferta e procura.

O crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Presidente da República, João Lourenço, deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, actualmente perto dos de 1,1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente pouco acima dos 1,1 milhões de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.