No Sábado, 28 de Março, ao final do

Mas a segunda-feira, o primeiro dia de mercados abertos, ainda estava longe e apenas os media especializados anteciparam o cenário que estaria para chegar, confirmando-se uma escalada abrupta nos preços do barril, tanto do Brent, em Londres, como no WTI, de Nova Iorque.

Até esta terça-feira, 03, o canal de 33 kms, 2,5 deles navegáveis, que liga o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, totalmente controlado pelo Irão, embora do outro lado, oeste, esteja Omã, estava apenas fechado parcialmente, com alguns navios a passar embora sob a mira das armas iranianas...

O que acabou assim que a IRGC anunciou, pela mesma via, uma mensagem via rádio para todas as embarcações a caminho do Estreito de Ormuz, a informar que a passagem está agora fechada para todos, embora os media atentem que petroleiros chineses e russos continuem a passar.

E isso levou a uma nova escalada no valor do barril, que, no caso do Brent, estava, perto das 12:20, hora de Luanda, a subir mais uns expressivos 9,80 %, face ao fecho de segunda-feira, para os 84, 75 USD, um valor recorde que Julho de 2024.

E nem a divulgação do resultado da reunião mensal da OPEP+, onde o cartel mexeu nos planos e, ao invés, dos 111 mil barris por dia, vai aumentar a produção em Abril em 206 mil barris por dia, naquela que foi a primeira resposta do cartel aos efeitos da guerra.

E os efeitos não foram sentidos sequer porque mais 100 mil barris ou menos 100 mil barris por dia, quando em risco estão mais de 20 milhões de barris por dia, cerca de 20% do petróleo queimado diariamente pela economia global, não fazem diferença...

Mas os analistas admitem que a OPEP+, que é a junção da Organização dos Países Exportadores (OPEP) mais a Rússia e um grupo assimétrico de outros independentes, pode, se a guerra israelo-americana-Irão continuar para a próxima semana, acrescentar de forma extraordinária mais umas centenas de milhares de barris/dia à oferta global.

Para já, o cenário mais previsível é que o conflito perdure no tempo, porque o Irão não apenas resistiu à decapitação do Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, morto no Sábado, como demonstrou uma capacidade inesperada, na perspectiva dos EUA, de manter as vagas sucessivas de misseis sobre Israel e os aliados dos americanos na região.

E o Presidente Donald Trump, perante esta reacção iraniana, de onde consta, o que é de grande relevância neste contexto, ataques á indústria do oil & gas dos petroEstados do Golfo Pérsico, com efeitos demolidores, o que os levou em uníssono a suspender a produção na totalidade, já veio dizer que também os EUA estão em condições de manter a guerra por semanas ou meses se necessário.

Se tal contexto se vier a concretizar, como alguns analistas já fizeram notar, deixa de haver limite para o potencial de escalada do barril de crude, com os 100 USD ao virar da esquina, sendo os 200 USD uma mera figura de estilo...

Com tal perspectiva, mesmo que o efeito possa ser apenas circunstancial, Angola, tal como outras economias ainda muito dependentes das exportações de energia, com o gás a pular mais de 50%, podem ter algumas semanas de folga orçamental com este inesperado encaixe...

Para já, o barril de brent, que é a referência principal para as ramas exportadas por Angola, está nos 84 USD, cerca de 23 dólares acima do valor de referência usado para o OGE 2026, o que abre a porta para que, pelo menos a crise de acesso ás divisas em que o país se encontra, possa ser minimizada.

Cenário de forte expectativa

O actual cenário internacional tende a manter os preços acima do valor estimado para o OGE 2026 ainda por alguns dias, ou mesmo semanas, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...

Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.