A ONU alertou esta sexta-feira, 05, para a "deterioração das condições humanitárias" em Cuba devido ao impacto da crise energética, agravada pelo endurecimento do bloqueio e das sanções dos EUA.

"As condições humanitárias estão a deteriorar-se à medida que a crise energética se aprofunda" devido ao bloqueio norte-americano, indicou o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), responsável por coordenar respostas globais de emergência,

"O impacto combinado da crise energética resultante das ordens executivas dos Estados Unidos e de outras sanções, juntamente com os furacões e outros desastres naturais, é abrangente e expande-se diariamente" na ilha, referiu o organismo da ONU, citado pela Lusa.

Em janeiro, Washington impôs um embargo petrolífero à ilha, ameaçando com sanções e tarifas qualquer país que forneça energia a Cuba.

A Casa Branca afirma que o regime comunista cubano ameaça a segurança nacional ao acolher bases de espionagem eletrónica da Rússia e ao aprofundar a cooperação militar com a China, acusando ainda Havana de servir de porto seguro para grupos como o Hamas e o Hezbollah.

Todo este cenário tem agravado a crise de abastecimento de energia, sobretudo depois de Cuba ter perdido o seu fornecimento da Venezuela no início deste ano, após a operação militar dos EUA em Caracas, que resultou em mais de 100 mortes e no sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da sua mulher, Cilia Flores.

"Todos os serviços básicos, desde a água potável e saneamento à produção de alimentos e ao setor da saúde, estão a ser afetados pela falta de combustível e de eletricidade", explicou o OCHA.

"Mais de 100 mil procedimentos cirúrgicos foram adiados devido à grave escassez de medicamentos e material médico", lamentou o organismo de ajuda às emergências.

Segundo referiu, a ONU e os seus parceiros publicaram um Plano de Ação Humanitária para prestar ajuda a dois milhões de pessoas, embora "a crise energética esteja também a limitar a capacidade de entregar a ajuda já prometida".

Há "dezenas de contentores com alimentos e material médico que permanecem retidos nos portos devido à falta de combustível", alertou.

Por isso, apelou à comunidade internacional para que "facilite a entrega atempada e sem entraves de combustível para fins humanitários e outros auxílios vitais", bem como para que financie o Plano de Ação, que conta atualmente apenas com 21% dos fundos solicitados.

A campanha de pressão norte-americana a Cuba entrou numa nova fase na quinta-feira, com o anúncio dos EUA de que iriam impor sanções contra o Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, e outras quatro pessoas - incluindo o seu antecessor, Raúl Castro - bem como cinco entidades cubanas: o Ministério das Forças Armadas Revolucionárias, os Comités de Defesa da Revolução, a agência de viagens Amistur Cuba S.A., o Instituto Cubano de Amizade com os Povos e a empresa mineira La Victoria.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, classificou a decisão dos EUA como vil, enquanto Díaz-Canel considerou que estas sanções são uma tentativa de "reforçar as medidas de bloqueio" e criar um "cenário de conflito entre Cuba e os Estados Unidos".

E o próprio Miguel Díaz-Canel já veio reagir a esta nova medida sancionatória dos norte-americanos.

Presidente cubano condena "agressividade e perversidade" dos EUA após novas sanções

O Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, condenou a "agressividade e perversidade" dos Estados Unidos, após a imposição de novas sanções norte-americanas a si e à sua família e a vários elementos da família Castro.

"A agressividade e a perversidade do Governo ianque confrontar-se-ão com a nossa determinação de enfrentar os piores cenários e resistir ao ataque imperialista", declarou o chefe de Estado cubano na rede social X.

Estas sanções "pretendem reforçar as medidas de embargo e o clima de conflito entre Cuba e os Estados Unidos", acusou Díaz-Canel.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções financeiras a Díaz-Canel, à mulher, Lis Cuesta, ao enteado, Manuel Anido Cuesta, ao coronel Alejandro Castro Espin - filho do ex-presidente Raúl Castro - e ao seu filho, Raúl Alejandro Castro Calis.

O Governo do Presidente norte-americano, Donald Trump, impôs também sanções ao Ministério das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e aos Comités de Defesa da Revolução (CDR), uma rede de comités de bairro criada para articular o apoio popular à revolução comunista.

A lista de entidades sancionadas é completada com o Instituto Cubano de Amizade com os Povos, a empresa mineira La Victoria e a agência de viagens Amistur.

As sanções proíbem transações financeiras e comerciais com as pessoas e entidades designadas, cujos bens sob jurisdição dos Estados Unidos ficam congelados.

Esta ronda de sanções faz parte da estratégia do Governo republicano de pressionar Cuba para forçar mudanças económicas e políticas na ilha caribenha, enquanto Trump repete que, devido à sua situação geográfica, a apenas 150 quilómetros da Florida, ela constitui "uma ameaça extraordinária à segurança nacional dos Estados Unidos".

Desde a captura do então Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, num ataque militar norte-americano a 03 de janeiro deste ano na Venezuela, Trump impôs um embargo petrolífero a Cuba, o que agravou a crise económica do país, e tem repetidamente ameaçado "assumir o controlo" da ilha.

O Departamento de Justiça norte-americano apresentou também no mês passado uma acusação formal contra Raúl Castro por alegada responsabilidade na queda, em 1996, de dois aviões pertencentes a uma organização de exilados cubanos, que resultou na morte de quatro pessoas.

Neste contexto, Washington e Havana têm mantido negociações discretas nas quais Raúl Guillermo Rodríguez Castro, um dos netos de Raúl Castro, conhecido como "El Cangrejo" ("O Caranguejo"), terá atuado como um dos interlocutores cubanos.

O Governo de Cuba insiste que qualquer mudança no país deve ser decidida pelo povo cubano e denuncia que os Estados Unidos estão a preparar uma agressão militar à ilha.