E não é para menos, porque, como o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, tem lembrado, também em Junho do ano passado Teerão e Washington estavam em negociações quando Trump ordenou o ataque à sua infra-estrutura nuclear a 22 de Junho.

Com efeito, nessa data, Junho de 2025, naquilo que foi o fim explosivo da "guerra dos 12 dias" entre Israel e Irão, começada com um ataque israelita à cadeia de comando e controlo de misseis iranianos, ninguém esperava um ataque dos EUA 24 horas antes de uma reunião negocial previamente agendada.

Mas aconteceu, através dos famosos bombardeiros estratégicos B-1, que, apanhando todos de surpresa, numa vantagem estratégica clamorosa, voaram para o Irão bombardeando Fordow e outras instalações conhecidas do programa nuclear iraniano e a questão em Teerão é simples: "Vai acontecer de novo?!".

A pergunta é feita pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Majid Takht-Ravanchi, porque, tal como a 22 de Junho do ano passado, também agora exiete um contexto de flamejante ameaça de ataque dos EUA quando decorrem sucessivas rondas de negociação.

Não há uma resposta clara de Donald Trump, porque este reduz o seu vocabulário sobre o iminente ataque ao Irão, e à reforçada presença militar norte-americana no Médio Oriente, incluindo no mar e nas dezenas de barres regionais a um lacónico "vamos ver o que acontece".

É que, tal como nessa altura, aquando da "guerra dos 12 dias", onde o Irão mostrou que os seus misseis furam com facilidade os mais modernos sistemas de defesa antiaérea israelita, até aí vista como inexpugnável, também agora o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyhau anda num vai e vem para Washington a tentar convencer Trump a declarar guerra ao Irão.

O objectivo de Netanyhau é deixar como legado dos seus mais de 20 anos no poder, com 76 anos, e a braços com problemas na justiça que em circunstâncias normais o teria já levado à prisão, devido a comprovada corrupção e branqueamento de capitais, um Irão "livre" do regime dos aiatolas.

Também Trump parece disposto, como sempre, a cumprir o desejo do primeiro-ministro israelita, não apenas porque está a deslocar para a região do Golfo Pérsico uma gigantesca força militar, como o afirmou por palavras: "A mudança de regime no Irão é a melhor coisa que podia acontecer!".

Este é o contexto em que as autoridades iranianas, apesar de admitirem negociar com o Irão, de afirmarem repetidamente que não querem uma guerra, que estão receptivas a falar com os EUA sobre o seu programa nuclear, dizem querer provas efectivas de que não se vai repetir a "traição" de Junho do ano passado.

Os indícios apontam para a razoabilidade desta exigência de Teerão, que, como o afirmou o seu líder supremo, aiatola Ali Khamenei, está pronto para a paz e para a guerra, com o dedo no gatilho e a mente pronta para negociar, porque o passado é conhecido e porque já neste novo processo negocial, Washington muda as regras dia para dia.

Até então, o assunto de foco para os EUA era o programa nuclear iraniano, porque o Irão "nunca poderá ter uma arma atómica", como repete Trump, mas, agora, por pública pressão de Netanyhau, Washington juntou ás exigências dois temas que nem sequer são aceitáveis como início de conversa para Teerão.

São eles a questão dos misseis balísticos de longo alcance iranianos, especialmente os seus insuperáveis Fatteh I e Fatteh II, hipersónicos , que surpreenderam o mundo ao atingirem centenas de alvo no interior de Israel furando a sua defesa estratégica da "cúpula de ferro" na "guerra dos 12 dias".

E também o apoio iraniano aos seus aliados regionais, onde se contam as milícias xiitas no Iraque, o Hezbollah, no Líbano, ou ainda os Houthis, do Iémen, que Israel e EUA querem "secar" ao cortarem o apoio do Irão que lhes permite ser uma ameaça perpétua à hegemonia norte-americana e israelita na região.

Ora, se o Irão admite negociar a questão nuclear, quanto aos seus misseis e apoios regionais, isso são assuntos fora da agenda em definitivo e a razão é simples.

Alguns analistas, como Jacques Baud, antigo oficial da intelligentsia suíça e da NATO e prolixo autor sobre conflitos regionais notam que, principalmente, sem a capacidade de dissuasão dos seus misseis e sem as suas extensões regionais, o Irão ficaria à mercê de Israel, que, nessa circunstância, facilmente destruiria o regime iraniano.

E é isso que mantém a fogueira acesa no Médio Oriente que se pode espalhar ao resto do mundo como chamas em capim seco, não apenas com o envolvimento doutros actores, como o Iraque, que já ameaçou pegar em armas ao lado do Irão, mas essencialmente pela via da economia devido à relevância energética estratégica que o Golfo Pérsico tem.

Como se pode revisitar nos links em baixo nesta página, Donald Trump tem recuado na ordem para um ataque sempre que tudo aponta para que este venha a acontecer no imediato, e já disse, mostrando estar ciente das intenções do seu amigo Netanyhau, que prefere as negociações.

Mas o facto mais saliente é que em Washington se sabe que os misseis iranianos são um facto de dissuasão tremendo e, a somar a esse facto, nos últimos meses, a China e a Rússia, que têm no Irão um pilar fundamental da sua geoestratégia política, económica e militar para a EurÁsia, mantém um corredor aéreo permanente com todo o tipo de armas, incluindo caças, defesa anti-aérea, radares e, sobretudo, inteligência militar.

Neste contexto, onde uma faísca pode fazer rebentar o barril de pólvora, apenas o tempo dirá que tipo e desfecho espera o mundo, mas o vice-ministro dos Negócios estrangeiros iraniano, Majid Takht-Ravanchi, já deu o mote para a saída da zona de risco: "Se os Estados Unidos estiverem a negociar de boa-fé, muito em breve teremos um acordo!".

Em pano de fundo a este imbróglio de consequências trágicas potencialmente globais está o apertado calendário eleitoral nos EUA, com Trump a ter de gerir com pinças as eleições intercalares de Novembro, onde, como o próprio já admitiu, se perder, como as sondagens dizem que deve suceder, a maioria no Congresso, a oposição rapidamente avança para um processo de destituição (impeachment) com base no flamejante escândalo de pedofília "Ficheiros Epstein", onde o seu nome aparece milhares de vezes, além de repetidas aparições em vídeos e fotografias altamente comprometedoras.