O que se percebe também é que antes de as delegações norte-americana, liderada por Steve Witkoff, o enviado especial de Donald Trump, e iraniana, chefiada pelo ministro dos Negócios estrangeiros, Abbas Araghchi, Washington já tinha tirado o dedo do gatilho.

Isso, para desespero do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, que, com o seu poderoso lobby em Washington, onde sobressai o senador e amigo de Trump, Lindsey Graham, tem tentado convencer os EUA a atacar Teerão e mudar o regime iraniano de uma vez por todas.

Lindsey Graham chegou mesmo a afirmar, nas últimas semanas, que ou Donald Trump ordenava um ataque contra o Irão "agora" ou estaria a "trair" os milhares de iranianos que saíram às ruas no início do ano por acreditarem que a ajuda dos EUA estava a caminho, como o Presidente norte-americano prometera.

Mas a razão que os analistas entendem estar por detrás do recuo, pelo menos aparente, porque os iranianos já avisaram que não se esquecem que foram atacados a 22 de Junho de 2025 quando estavam a decorrer negociações e ninguém acreditava que ocorreria um ataque, é que o Pentagono e os seus analistas militares perceberam que o Irão de agora não é o mesmo Irão do passado, mesmo do passado recente.

E isso, porque se até aqui Teerão sempre recusou o apoio expansivo dos seus aliados, mesmo com aquém tinha e tem parcerias estratégias na área da Defesa, como a Rússia e a China, agora alterou essa "doutrina" e começou a receber um fluxo intenso de aviões de carga e navios russos e chineses com todo o tipo de material militar, incluindo modernos sistemas de defesa anti-aérea e radares de última geração.

Além disso, como os media russos e chineses avançaram já, também a Teerão chegaram dezenas de helicópteros de combate e aviões de guerra, nomeadamente os sofisticados J-10 e J-20 chineses e os bem conhecidos SU-35 russos.

Sendo que, numa clara demonstração de que uma escolha foi feita, Pequim tem ainda divulgado, a um ritmo diário, imagens de satélite com o posicionamento dos navios de guerra dos EUA, incluindo o seu porta-aviões USS Abraham Lincoln, e dos meios aéreos deslocados para as suas bases no Médio Oriente.

A isto, somam-se imagens repetidamente colocadas online dos exercícios navais em curso no Golfo Pérsico, com meios iranianos, russos e chineses, onde os sistemas de misseis hipersónicos anti-navio iranianos são usados para destruir alvos no mar a velocidades que deixam em risco mesmo os sofisticados navios de guerra dos EUA enviados para a região.

E, perante o risco de ver nas televisões norte-americanas algum ou alguns destes navios a serem afundados ou danificados pelos misseis iranianos, ou as bases norte-americanas alvejadas pelos projectéis balísticos hipersónicos, os mesmos que em Junho do ano passado furaram com facilidade surpreendente os sistemas de defesa israelitas, na "guerra dos 12 dias", Donald Trump e os seus conselheiros optaram por... negociar.

É que Trump já mostrou que as eleições intercalares de Novembro, onde corre o risco de perder a maioria nas duas câmaras do Congresso, são incompatíveis com uma guerra que pode ter efeitos desastrosos na sua campanha.

Isto, considerando que, no meio do caos gerados pelos "Ficheiros Epstein", o maior escândalo internacional de sempre de pedofilia, onde o seu nome é citado milhares de vezes, um cenário plausível é que, sem a maioria na Câmara dos Representantes, e no Senado, ficaria à mercê de um processo de destituição (impeachment), como o próprio já admitiu como "quase certo".

E é neste contexto que, ao fim da ronda negocial desta terça-feira, no dia de Carnaval, se soube que tinha sido conseguido um acordo preliminar que, para já, afasta o risco de um conflito iminente, mas que, além disso, resulta numa clara derrota estratégica para Israel e o seu primeiro-ministro Benjamin Netanyhau.

É que Netanyhau não queria apenas levar os EUA par a uma guerra com o Irão para mudar o regime em Teerão, visto que sozinho Israel não consegue, como já testou por diversas ocasiões, queria ainda envolver nas negociações os sistemas de misseis balísticos hipersónicos iranianos, aqueles que em Junho do ano passado liquefizeram as defesas israelitas da "cúpula de ferro" até aí vistas como inexpugnáveis, e que são, hoje, a espinha dorsal da sua capacidade de dissuasão.

Nem isso, nem a questão das ligações de Teerão aos seus aliados regionais, como as milícias iraquianas xiitas, o Hezbollah, no Líbano, ou os Houthis, no Iémen, foram transportadas para a mesa das negociações em Genebra, onde Steve Witkoff também esteve a liderar as negociações entre russos e iranianos quase em simultâneo.

Em síntese, este desfecho está a ser visto pelo Irão como um sucesso negocial e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros considerou ter-se conseguido um desenho favorável para os "princípios negociadores" de forma "mais construtiva" que antes, o que permite um optimismo substantivo para as negociações sobre o nuclear iraniano.

Abbas Arahgchi disse ainda que "a atmosfera negocial é boa e favorável e foi conseguido um bom progresso em comparação com os encontros anteriores", apontando que "ambos os lados têm posições que podem levar algum tempo a conciliar" mas que o mais relevante é que se ficou a saber o caminho a fazer para lá chegar sem subterfúgios ou golpes baixos.

Apesar deste optimismo, em Teerão, o aiatola Ali Khamenei, que não se esqueceu do que aconteceu em Junho de 2025, quando o Irão viu os B-2, bombardeiros furtivos norte-americanos, atacarem as suas infra-estruturas nucleares 12 horas antes de ter início mais uma ronda negocial com os EUA sobre o programa nuclear iraniano, veio avisar que Washington, por mais que queira, "nunca conseguirá mudar o regime" iraniano.

Na resposta ao que Trump tinha dito antes, pouco tempo antes, que via como bom uma mudança de regime em Teerão, Ali Khamenei veio dizer, na televisão iraniana, que tal não está ao alcance do Presidente dos EUA actual, como não esteve ao alcance dos seus predecessores em Washington em quase meio século de "tentativas obsessivas", frisando que o país está seguro como uma rocha face às ameaças externas.