É uma "granada" diplomática ofensiva que o líder ucraniano atira para o centro da mesa das negociações que se deslocam agora de Abu Dhabi, nos Emiratos Árabes Unidos, para a capital da diplomacia mundial, porque quaisquer avanços negociais terão de ser à custa de cedências territoriais da Ucrânia à Federação Russa.
A 3º ronda negocial trilateral, marcada para a tarde desta terça-feira, 17, fica assim marcada por duas frases explosivas de Volodymyr Zelensky.
Uma para dizer que não vai ceder qualquer território aos russos porque não quer cometer o mesmo erro que o seu antecessor cometeu em 2014, quando aceitou tacitamente perder a Crimeia para Moscovo, repetindo ao Politico o mesmo que já tinha dito na Alemanha, nas últimas horas.
E a outra, também na recente Conferência de Segurança de Munique, para tentar espetar uma alfinetada no seu arqui-inimigo Vladimir Putin ao chamá-lo de velho e que ele, sendo mais novo, tem mais tempo para resolver os assuntos, porque "a idade é muito importante" quando se trata de olhar para assuntos dos Estados.
A resposta russa foi com actos e escassas palavras, sendo estas apenas usadas pelo porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, para reafirmar que a Rússia mantém o foco nas negociações mediadas pelos EUA e que isso não impede que a "operação militar especial" continue a perseguir os seus objectivos no terreno.
Já através de actos, Moscovo lançou nesta noite de segunda-feira para hoje, terça-feira, 17, lançou um "carnaval" de misseis e drones sobre várias cidades ucranianas, voltando a atingir com severidade a sua infra-estrutura energética e dezenas de centros de logística ferroviárias, rodoviárias e instalações fabris dedicadas ao esforço de guerra de Kiev.
Olhando para este cenário, onde ressalta claramente a tentativa de Zelensky desmantelar qualquer possibilidade de acordo, o que surge na forma de garantia de que nada tem para oferecer os russos, sendo que o que os russos querem, e é nisso que está centrada a conversa, são o reconhecimento da sua soberania sobre os territórios ucranianos já conquistados ou que estão "formalmente" anexados em 2014 (Crimeia) e Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporizhia (2022).
"Não faz sentido ceder territórios que são da Ucrânia e muito menos envolver geografia ucranianas em negociações marcadas pela necessidade de trocar terras da Ucrânia por terras que também são da Ucrânia", avisou Zelensky, ignorando ostensivamente que os russos alegam terem feito referendos nestas províncias obtendo resultados pró-anexação superiores a 90%.
Se se olhar para esta troca de galhardetes entre russos e ucranianos na sua forma consolidada, então emerge como razoável dizer que não vão a Genebra fazer nada... mas não é bem assim, porque existe o factor Donald Trump, e este já fez notar a sua presença, ao avisar, com a rudeza diplomática de quem pode decidir o destino de uma guerra, que "a Ucrânia tem de chegar a um acordo".
Se na semana passada, Trump vinha sublinhando que não aceita que esse acordo chegue depois de Junho, porque o conflito ucraniano é uma pedra no sapato incómoda para a sua estratégia eleitoral rumo às eleições intercalares de Novembro, onde se pode jogar o seu futuro político, e mesmo pessoal, devido ao escândalo de pedofilia "Ficheiros Epstein", esta terça-feira, citado por The Guardian, já veio encurtar o prazo: "Zelensky deve aceitar um acordo em Genebra".
"É melhor que a Ucrânia se chegue â mesa das negociações rapidamente!", disparou o Presidente norte-americano, e, para que tal aconteça, as delegações da Rússia e da Ucrânia, sob mediação de Steve Witkoff, o enviado especial da Casa Branca para a guerra na Europa, têm 48 horas a partir da tarde de hoje, para chegar a bom porto.
Trump não o disse agora, mas já o tinha dito antes, por diversas vezes, que é colocar como possibilidade a todo o momento carregar no botão que interrompe o fluxo de armas, dinheiro e intelligentsia norte-americanas para Kiev, o que, se visse a acontecer, deixaria a Ucrânia â merce da clara superioridade militar de Moscovo, porque os seus aliados europeus estão de mãos atadas pelas crises internas políticas e económicas.
Isto, quando vários analistas, como John Mearsheimer, analista norte-americano, professor da Universidade de Chicago e uma autoridade mundial em política internacional, dizem ser a superioridade russa que o tempo se encarregará de impor, sendo que este "relógio" se adianta sempre que Washington faz exigências a Kiev por saber e deixar saber que essa é a única via para a paz.
Mas em Kiev a perspectiva é substancialmente diferente, porque mesmo nas vésperas da ronda negocial de Genebra, os ucranianos lançaram duas poderosas ofensivas com resultados na reconquista de territórios que estavam na posse dos russos, nomeadamente na região de Zaporizhia e em Kharkiv.
O Financial Times diz mesmo que os ucranianos recapturaram mais de 200 kms2 no passado fim-de-semana, com o emprego de reservas em material e humanas que, segundo alguns canais de análise militar no YouTube, não estavam no radar da intelligentsia russa, aproveitando com mestria o fecho dos terminais da Starlink aos russos, deixando a linha da frente de Moscovo sem comunicações efectivas por quase uma semana.
Perante este cenário, não se pode dizer que a 3ª ronda negocial tripartida esteja a começar bem. Talvez por isso, o Kremlin voltou a avisar que não mexe na sua lista maximalista de exigências e que se não for na mesa das negociações, os seus objectivos serão conquistados no campo de batalha.
Também Kiev, apesar de na semana passada, Zelensky parecer ter tido algum espaço para reflectir sobre a possibilidade de aceitar algum recuo nas suas posições mais férreas, nomeadamente ao aceitar que vai ser preciso realizar eleições em pouco tempo e até fazer um referendo ao mesmo tempo sobre eventuais cedências de territórios, está agora solidamente fixado na recusa de dar ao Kremlin o que é de Kiev.
Tudo indica que terá de ser Trump a desatar este nó. E só há um forma de o conseguir, se o objectivo for mesmo acabar com o conflito a tempo deste não vir a ser um imbróglio perigoso para a campanha das intercalares de Novembro, que é tirar a Kiev o que só Washington lhe pode dar para continuar a resistir aos russos.

