É certo que o cessar-fogo entre Israel e o Líbano, começado às 22:00 de segunda-feira, 16, hora de Luanda, é ainda mais periclitante que a paz cronometrada entre norte-americanos e iranianos, especialmente porque o Hezbollah, o movimento de resistência à ocupação israelita fortemente implantado na sociedade libanesa, e com ligações fortes a Teerão, não esteve directamente sentado à mesa das negociações.

Mas as milhares de bandeiras do grupo xiita empunhadas por pessoas que participam nos festejos do cessar-fogo israelo-libanês em Beirute, são um sinal relevante de que o Hezbollah esteve sempre a par das negociações e que está a participar nas tréguas, o que é uma indicação optimista para o desenrolar deste "filme" de guerra no Médio Oriente.

O final feliz que o mundo espera, até porque os efeitos do conflito na economia mundial começam a ganhar exponencialidade preocupante (ver aqui), pode ficar ainda mais perto se se confirmar o que o Presidente norte-americano disse já nesta sexta-feira, 17, em declarações aos jornalistas nos jardins da Casa Branca.

Donald Trump não está apenas a contar com uma nova ronda negocial iraniano-americana para este fim-de-semana, na capital paquistanesa, em Islamabad, onde, naquilo que foi provavelmente a sua declaração mais relevante neste contexto de guerra, o próprio poderá estar agora ou muito em breve para se encontrar pessoalmente com o lado iraniano.

"Possivelmente já durante este fim-de-semana haverá um novo encontro com os iranianos", disse, explicando que esse momento servirá para definir os termos de um acordo sólido "sem armas nucleares" no Irão, o que é uma janela de oportunidade rara para um entendimento de longo curso com Teerão.

É que a narrativa norte-americana das últimas duas semanas, replicada abundantemente pelos media mainstream, tem progressivamente elevado a relevância da questão nuclear e do Estreito de Ormuz como as exigências fundamentais dos EUA, de forma a que, obtendo uma resposta positiva de Teerão, Donald Trump possa sair desta guerra reivindicando uma vitória, desde logo a retoma do trânsito marítimo no canal que liga o Golfo Pérsico e o Oceano Índico e por onde passam 20% do crude e do LNG mundiais.

E, do ponto de vista formal, tal cenário pode realizar-se, porque, com o entendimento tácito do Irão, o Presidente norte-americano pode mostrar mais esta "medalha", que lhe servirá os interesses de política interna, especialmente num contexto de eleições intercalares à porta, onde em Novembro corre o risco de perder a maioria nas duas câmaras do Congresso, Senado e Representantes.

Porém, a verdade é que a "vitória" de Donald Trump, nesse "filme", resulta de uma falsa cedência iraniana de que não persegue a obtenção de uma arma nuclear porque esse nunca foi o objectivo de Teerão, que sempre apontou como pretensão desenvolver um programa nuclear para fins civis, e ainda no que diz respeito á abertura do Estreito de Ormuz, que nunca esteve fechado antes de 28 de Fevereiro, dia em que começou a guerra com o ataque da coligação israelo-americana onde foi morto o Líder Supremo Ali Khamenei e dezenas de líderes políticos e militares do país.

Para trás, há muito retirados do circuito mediático, ficaram os objectivos que norte-americanos e israelitas usaram como razão para este conflito: eliminar o programa de misseis balísticos e hipersónicos do Irão; desligar Teerão dos seus aliados regionais, como o Hezbollah, no Líbano, ou a Ansar Allah (Houthis), no Iémen; e ainda mudar o regime iraniano com um novo Líder Supremo "escolhido em Washington".

Apesar deste optimismo que escorre pelas páginas e ecrãs dos media internacionais, o Irão, depois da traição de Junho de 2025, e de 28 de Fevereiro, quando o país foi atacado a meio de negociações, que depois se percebeu que tinham apenas como propósito distrair as autoridades do país, através do seu Presidente, Massoud Pezeshkian, e do chefe da diplomacia, Abbas Araghchi, tem vindo a avisar que só com garantias sólidas e verificáveis é que um acordo longevo será possível.

Paz a sério ou intervalo para rearmar?

Entre vários analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, com diversos livros escritos sobre conflitos no Médio Oriente, atendendo ao continuado reforço da presença militar, em equipamento e soldados dos EUA na região, que não pára de crescer, mesmo no contexto deste cessar-fogo, o risco de a coligação israelo-americana só estar a usar este período de tréguas para se rearmar e voltar à guerra é real.

Também o major-general Agostinho Costa, em declarações ao Novo Jornal, questionado sobre o objectivo do gigantesco aparato militar deslocado para a região pelos norte-americanos, com dezenas de milhares de militares, especialmente das suas unidades de forças especiais, admitiu que "o mais certo" é estar-se na antecâmara de uma invasão terrestre do Irão e que o cessar-fogo inicialmente pedido para 45 dias visará ultimar os preparativos para as "boots on the ground".

O mesmo sentido está contido nas palavras de Larry Johnson, antigo analista da CIA, Daniel Davis, coronel veterano das guerras do Iraque e do Afeganistão, ou Douglas MacGregor, coronel reformado e ex-conselheiro da secretária de Estado no primeiro mandato de Donald Trump, que afirmam categoricamente que a guerra está num intervalo e que o Governo israelita de Benjamin Netanyhau não deixará que a paz se consolide porque isso é contrário aos seus interesses estratégicos na vasta região do Médio Oriente.

Quase em sintonia com a perspectiva de um "intervalo" neste "filme" de guerra com palco no Golfo Pérsico, o Presidente francês, Emmanuel Macron já veio, embora com justificação distinta, afirmar que o cessar-fogo será desmoronado pela "continuação das operações militares" entre israelitas e Hezbollah, no sul do Líbano.

Macron deixou claro que apoia "fortemente" o cessar-fogo no Líbano, mas disse não acreditar que se mantenha e consolide devido ao retomar de operações militares, sendo que as tréguas israelo-libanesas são uma extensão e não um teatro diferente do conflito israelo-americano contra o Irão, o que só aumenta os interesses e razões para duvidar do fim das hostilidades.

O Chefe de Estado francês apontou ainda que tal cenário de regresso ao fogo só não se concretizará se o Hezbollah depuser as armas, Israel respeitar o território libanês e a soberania libanesa na íntegra e parar a guerra em definitivo. Condições que há décadas se mostram impossíveis de realizar.

Para já, a realidade parece dar razão ao líder francês, porque, logo nas primeiras horas as forças israelitas atacaram uma ambulância libanesa, ferindo com gravidade a equipa médica que estava no seu interior, quando circulava na localidade de Kounine, a alguns quilómetros da fronteira entre os dois países.

Uma realidade diferente parece estar a ser vivida nas margens do Golfo Pérsico, onde o Irão está a cumprir o acordo de cessar-fogo com os EUA e a coligação israelo-americana também parou os ataques em território iraniano.

Neste contexto, emerge como certo que as próximas horas, contado que as delegações americana e iraniana voltam mesmo a encontrar-se, como Donald Trump avançou, embora Teerão não tenha ainda confirmado, serão decisivas, porque, como todos os analistas admitem, são tantas as frentes que é preciso assegurar que qualquer faísca pode fazer explodir o barril de pólvora que o Médio Oriente não deixou de ser...