As águas violentas destruiram, à sua passagen, pontes ferroviárias e arrancaram troços do caminho de ferro, interropendo a circulação dos comboios no troço Benguela, Lobito e Caimbambo.

Desde há muito pairam suspeitas que a má qualidade das obras ferroviárias, aliada à falta de manutenção nos troços ferroviários, incluindo o desassoreamento dos rios, têm estado na origem dos acidentes de comboios.

Há coisa de três semanas, o infortúnio voltou a bater à porta de dezenas de famílias angolanas como resultado de um acidente de comboio que ocorreu à saída do Luena, um dos extremos da linha férrea, de mais de 1300 Km, que liga o Litoral ao Leste do país.

Foi justamente à saída desta última localidade que um comboio do CFB, descarrilou, causando mais de 8 dezenas de feridos e danos materiais avultados na composição ferroviária e no material circulante.

Não se sabe, se por mera coincidência, o facto é que o mês de Março parece ser trágico para o panorama ferroviário em Angola.
Convém recordar que em 2022, um comboio do CFL, saído de Luanda com destino ao Kwanza-Norte, que transportava combustível, descarrilou próximo de Ndalatando, causando danos na composição, no material circulante e no meio ambiente.
Nesse mesmo ano, um comboio do Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB) havia descarrilado à saída do Luena.
Segundo informações obtidas na altura, o comboio de passageiros, que saía da capital do Moxico com destino ao Kuito, acidentou a 11 Km do Luena, deixando os passageiros quase sem meios alternativos devido à péssima condição das estradas.

Felizmente, nestes dois acidentes relatados não houve vítimas humanas, mas danos materiais avultados que levaram, inevitavelmente, à paralisação dos serviços durante algum tempo, até à reposição da circulação ferroviária.
A frequência com que se registam os acidentes ferroviários no país tem levantado vários questionamentos e comentários sobre as causas que têm estado na sua origem.

As especulações em torno dos acidentes medram devido à não divulgação dos resultados dos inquéritos que as direcções das empresas se comprometem diante do público, mas que não honram com as suas promessas.
À boca pequena, comenta-se que a deficiente qualidade do material aplicado nas linhas férreas pelos chineses, o débil sistema de comunicações, aliada à falta de manutenção dos troços ferroviários tem estado na origem dos constantes acidentes.
Há quem atribua a deficiente qualidade das obras nas vias ferroviárias ao facto das mesmas terem sido realizadas em vésperas do período eleitoral, sem a competente fiscalização, e que a sua rápida conclusão teria como objectivo "mostrar obra" para fins eleitoralistas.
Em meio às especulações, as direcções das empresas ferroviárias têm justificado alguns acidentes como tendo resultado do roubo de materiais nas linhas férreas desde parafusos aos carris, e a imprensa apresentado, agora com menos frequência, os meios apreendidos aos meliantes.
Sejam quais forem as causas, o facto é o número de acidentes têm vindo a crescer de forma assustadora, com todas as consequências negativas daí resultantes.

A sensação que se tem, apesar de não ser sustentada por dados estatísticas, é que nestes últimos 10 anos terão sido registados mais acidentes de comboio do que em meio século no tempo colonial.
Consta que no período da colonização portuguesa muitos acidentes eram evitados porque naquela época, antes de os comboios fazerem-se à linha, havia uma vagoneta que percorria e inspeccionava a linha, e fazia a reparação do troço ferroviário, se houvesse necessidade para tal.
Longe vão os tempos em que o CFB já chegou a ser o maior empregador do País, com mais de 13 mil funcionários, dentre operários de via, chefes de estação, guarda-freios, maquinistas, revisores, inspectores, contabilistas e administrativos
À época era no Huambo que se concentravam mais de metade de todos os funcionários da empresa e estava instalada a maior oficina de assistência aos comboios.

Convém lembrar que o CFB possuia uma barragem própria, a do Cuando, a dezenas de Km da cidade capital do Planalto Central e que abastecia às oficinas gerais e fornecia electricidade a uma parte da cidade.
Soube-se há uns anos que uma comissão iria efectuar um estudo de todos os corredores ferroviários do país, mas até hoje esse esse estudo não conheceu a luz do dia, ou seja, os seus resultados nunca foram divulgados.
Seria interessante que tal estudo fosse divulgado, sem tabus, caso tenha sido feito, de forma a ajudar a corrigir os erros e deficiências nos três corredores ferroviários do país, nomeadamente CFB, CFL e CFM.

A frequência com que ocorrem os acidentes leva-nos também a questionar que tipo de investimentos estão a ser feitos no chamado "Corredor do Lobito", ou se os mesmos estão apenas inclinados para o escoamento dos minerais raros a partir dos países vizinhos, nomeadamente a RDC e Zâmbia, em detrimento da segurança das pessoas e bens.