Quando o líder chinês vem publicamente dizer, neste contexto, que a lei da selva não pode imperar no mundo, está claramente a dizer que os EUA não podem gerir a seu belo prazer e interesses as regras com que os outros países regem as suas relações económicas.

Isto, quando se sabe que a guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão afecta directamente a estabilidade energética do gigante asiático, e agora, com o bloqueio naval norte-americano ao Irão existe o risco de o crude iraniano deixar de chegar à China, ainda mais, criando mesmo uma situação insustentável para Pequim.

Tanto assim é que os media estão a avançar que petroleiros chineses já passaram o bloqueio da marinha dos EUA, um desafio claro a Washington, embora a Administração Trump, segundo a Reuters, tenha optado por não escalar para uma confrontação directa com Pequim aludindo a que se trataria de navios sem relação com os portos do Irão.

Com efeito, segundo o site marinetraffic, que regista o percurso de todos os grandes navios nos quatro cantos do mundo, informa que as embarcações em questão não tiveram portos do Irão como último porto de saída mas são provenientes destes, embora passando depois pelos Emiratos...

O que se trata de uma manobra de diversão que serve a todos os intervenientes porque o bloqueio norte-americano, segundo alguns analistas, visa manter a pressão sobre Teerão com vista a um acordo usando a táctiva preferida de Donald Trump que é a "diplomacia pela força".

Fazer passar os navios com crude e gás iranianos com destino à Ásia por portos dos países do Golfo Pérsico aliados dos EUA, como os Emiratos Árabes Unidos, é uma forma de evitar uma escalada e pode ter sido arquitectada durante a visita recente do príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed, a Pequim.

Ainda assim, com o bloqueio norte-americano a "funcionar" desde as 14:00 GMT de segunda-feira, 13 (15:00 em Luanda), no qual os EUA colocaram uma frota de 25 navios de guerra para garantir a sua inexpugnabilidade, onde já estava implantado o controlo iraniano sobre o Estreito de Ormuz, o risco de 20% do crude e do gás mundiais ficar "entalado" no Golfo Pérsico é real.

Coisa que, para já, Donald Trump parece querer evitar ao anunciar, segundo The Guardian e outros media internacionais, que as negociações com o Irão, interrompidas neste fim-de-semana, no Paquistão, podem ser retomadas já nos próximos dias, igualmente em Islamabad.

Pelo menos os mercados energéticos acreditam que as delegações iraniana e americana voltam à capital paquistanesa para retomar as conversações, e que destas podem sair resultados melhores, como, de resto, o Presidente do Irão, Massoud Pezheskian, também admitiu numa declaração pública esta segunda-feira.

Isto, quando a China decidiu avançar com uma proposta de quatro ponto visando a estabilização e pacificação do Médio Oriente e do Golfo Pérsico, que passam por aplicar o "princípio da coexistência pacífica", pela ideia de "promover a cooperação compreensiva e sustentável", ainda por garantir uma "arquitectura de segurança para a região"...~

... também pela criação de garantias para a "protecção da soberania dos Estados", incluindo de pessoas, numa alusão calara aos assassínios das lideranças iranianas por Israel e EUA, de instituições e infra-estruturas, garantindo que a Lei Internacional não é "apenas usada quando dá jeito" e abandonada a seguir, evitando assim o império da lei da selva.

Entretanto, em declarações aos jornalistas, o Presidente dos EUA, que entrou num braço-de-ferro com o Irão, ou, como lhe chamou Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de várias obras sobre conflitos na região, o jogo de quem pisca o olho primeiro, porque o bloqueio naval pressiona Teerão mas é igualmente uma fonte de preocupação para a Administração Trump.

E a razão é simples: se o Irão pode perder rendimentos vitais, apesar de estar há mês e meio a duplicar diariamente os dividendos do petróleo devido ao conflito, os EUA também estão a sofrer um brutal impacto devido ao aumento do preço do barril de crude e dos combustíveis, gerando inflação...

E com as eleições intercalares de Novembro à porta, Trump pode estar em risco de perder as maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes no Congresso, abrindo assim a porta ao risco de um processo de destituição (impeachment) bem sucedido, como a oposição democrata tem ameaçado repetidamente.

É por isso que o Presidente norte-americana disse agora que existe espaço para um acordo com o Irão, o que surge como um incentivo de Washington para as autoridades paquistanesas aumentarem os esforços no sentido de retomar as negociações de Islamabad.

Esse cenário parece uma possibilidade forte, visto que os EUA e o Irão estão a respeitar entre si o acordo de cessar-fogo que deverá durar mais uma semana, embora Israel o esteja a desrespeitar desde a primeira hora no sul do Líbano, onde mantém os combates com o Hezbollah.