Nesta segunda-feira, 11, percebeu-se que o Irão iria continuar a reagir de forma assimétrica aos EUA, que, com Israel, iniciaram esta guerra a 28 de Fevereiro, e com uma ponta afiada de ironia.
Donald Trump recebeu a resposta do Irão à sua proposta de paz a escassas horas da abertura dos mercados petrolíferos e esta manhã o barril, tanto em Nova Iorque, o WTI, como em Londres, o Brent, estão a subir como se a retoma da guerra fosse já inevitável.
Ao proceder desta forma, o Irão usa da sua melhor arma contra os EUA, que é a manipulação dos mercados energéticos através do controlo efectivo que tem do Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico e o Oceano Índico e por onde passa 20% do gás e do crude mundiais.
Da mesma forma que o Presidente norte-americano tem por estratégia recorrente fazer declarações optimistas para o fim do bloqueio iraniano sobre Ormuz para pressionar o preço do petróleo para baixo, o Irão usou agora a mesma "táctiva" para fazê-los subir.
Isto, porque em Teerão, como vários analistas têm explicado, desde logo John Mearsheimer, um dos mais prestigiados especialistas em política internacional em todo o mundo e professor da Universidade de Chicago, já se percebeu que a sua melhor arma é a economia mundial.
E também como referiu na semana passada Mohammad Mokhber, ex-Presidente interino iraniano e actual conselheiro do Supremo Líder aiatola Mojtaba Khamenei, para o Irão ter o controlo efectivo como tem do Estreito de Ormuz equivale a ter armas nucleares como elemento de dissuasão.
E não é para menos, porque por ali transitavam, antes da coligação israelo-americana ter começado a guerra com Irão, a 28 de Fevereiro, 20% do crude e do LNG mundiais, mas também compostos para fertilizantes, alumínio e hélio, fundamental para a indústria 2.0 dos microchips, em valores insubstituíveis mundialmente.
É preciso ter em conta, para melhor perceber o valor estratégico do Estreito de Ormuz, que nestes dois meses os combustíveis subiram, nalguns casos, 30 a 40% nos EUA, além da inflação que atinge bens alimentares em valores recorde.
E este cenário pode ser um golpe irreparável nas aspirações eleitorais do Presidente Donald Trump, nas eleições intercalares de Novemro, nas quais, se o seu Partido Republicano perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, Representantes e Senado, como as sondagens para aí apontam, sabe que os dois anos seguintes do seu mandato serão um pesadelo.
Isto, porque, nesse cenário, terá de enfrentar processos de destituição (impeachment) como a oposição democrata já lhe garantiu, não apenas devido aos seus problemas com o escândalo de pedofilia nos "Ficheiros Epstein".
Além disso, também terá de se haver com o incumprimento de prazos legais de informação ao Congresso no contexto desta guerra e o seguimento com maiores probabilidades do trabalho da comissão criada pelos congressistas democratas para o afastar do poder por problemas mentais graves.
Apesar deste contexto, a reacção de Trump à resposta do Irão para a sua proposta de paz não poderia ser mais dramática, escrevendo na sua rede social Truth Social: "Não gostei nada. Totalmente inaceitável!".
Mas pouco antes, igualmente no Domingo, quando já estava na posse dos elementos da resposta iraniana, Donald Trump escreveu que "o Irão não vai voltar a rir-se dos Estados Unidos".
E o que disseram os iranianos que gerou esta "fúria épica" de Trump? Nada que já não se soubesse: que para haver negociações, é preciso parar a guerra em todas as frentes, incluindo no Líbano e, depois, na primeira fase negocial, tratar-se-á da questão do controlo sobre o Estreito de Ormuz e da segurança global no Golfo Pérsico.
A par destas questões, o Irão quer ainda ver solucionada a situação das sanções a que está sujeito há décadas, reaver as verbas congeladas no exterior e também o programa nuclear de Teerão, que tem sido apresentado por Trump como a questão fulcral nestas negociações.
Sobre o que o Presidente norte-americano diz ser "totalmente inaceitável", para o Irão, segundo uma fonte oficial citada pela Al Jazeera, é "uma proposta realística e positiva" que visa em concreto resolver "as diferenças com Washington" que parecem estar a impedir um avanço concreto para colocar um ponto final definitivo neste conflito.
"Uma resposta positiva dos EUA a estes pressupostos apresentados agora (pelo Irão) levará as negociações para um patamar de fim concreto das hostilidades", disse ainda a mesma fonte, o que parece não ser o entendimento na Casa Branca.
Isto, porque Donald Trump não saiu do ponto inicial que é dizer que "os iranianos andam a jogar joguinhos com os Estados Unidos e com o resto do mundo há 47 anos... mas não se vão rir por mais tempo".
O que vai Donald Trump fazer para que o Irão "não se volte a rir dos EUA", permanece, para já, uma incógnita, mas nos canais das redes sociais onde este assunto está em discussão contínua, a retoma dos ataques é a mais provável.
E em Telavive Benjamim Netanyhau já disse que Israel "ainda tem trabalho a fazer no Irão".










