Isto só é importante porque, tal como o republicano George H. Bush percebeu da pior forma possível, com uma derrota estrondosa contra o democrata Bill Clinton, por causa da economia, também agora Donald Trump está a ficar sem espaço de manobra na sua guerra com o Irão por causa do devastador impacto do fecho do Estreito de Ormuz na economia dos Estados Unidos da América.

Com o barril a subir sem travão, apesar dos esforços norte-americanos para abrir o Estreito de Ormuz, a "rolha" que o Irão está a usar, na sua guerra assimétrica, para manter fechados no Golfo Pérsico 20% do petróleo e do LNG mundiais, está a dar, mais que nunca, uma actualização "muito cara" para Donald Trump da frase de Bill Clinton.

"É a economia, estúpido!", percebeu Donald Trump com as eleições intercalares de Novembro à porta, os combustíveis a subir além da capacidade da carteira dos eleitores norte-americanos, a inflação a galope desenfreado, e, por isso, em risco sério de ver o seu Partido Republicano perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, Representantes e Senado, ficando entalado no meio de outra frase célebre: "Entre a espada e a parede".

E foi neste contexto que Donald Trump anunciou, nas primeiras horas desta quarta-feira, 06, que o seu "Projecto Liberdade" largamente anunciado como a solução para a definitiva abertura sem condições do Estreito de Ormuz, e com o qual iria, finalmente, vergar o Irão, obrigando Teerão a "levantar a bandeira branca", foi suspenso por tempo indeterminado.

Que é como quem diz, não funcionou e, em tempo de frases feitas mas concordantes com a realidade, porque "só os burros não mudam de ideias", Donald Trump mudou de ideias e não apenas anulou o seu "Projecto Liberdade" como admitiu agora que a sua principal prioridade é "chegar a um acordo com o Irão".

Claro que este anúncio foi precedido de uma sucessão de anúncios e desmentidos, em que o Irão informou que foram atacados navios de guerra americanos nas proximidades do Estreito de Ormuz e os EUA negavam como podiam.

Facto é que, como se ficou depois a saber, com a admissão de Washington, que vários navios comerciais receberam a "visita" de drones iranianos, levando a que, como mostrava o site marinetraffic.com, que tem em tempo real o mapa da navegação marítima global, aquela passagem estratégica entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã(Oceano Índico) estivesse exactamente na mesma: sem a passagem de navios.

Esta abrupa mudança de planos, que apanhou de surpresa a generalidade dos analistas, e deve ter deixado de queixo à banda os analistas "americanizados" que defendiam que agora é que o Irão iria conhecer o poder total da marinha norte-americana, permitiu, para já, e desde que foi publicada na sua rede social Truth Social, a Donald Trump, que o preço do crude baixasse igualmente de forma abrupta, dos mais de 112 USD na terça-feira para perto dos 105 USD, cerca das 09:00 de Luanda nesta quarta-feira, 06, e com tendência descendente.

A justificação não foi, todavia, essa, que queria baixar o preço do petróleo para aliviar a economia norte-americana, fortemente pressionada pela subida dos combustíveis, da inflação e das taxas de juro, que é o mecanismo mais usado para controlar a subida dos preços nos bens de consumo, mas sim a sua decisão de permitir um maior "conforto" aos negociadores de um acordo de paz com Teerão.

Aos analistas não escapou, todavia, que Donald Trump foi surpreendido com o efeito adverso e inesperado do seu "Projecto Liberdade", que consistia em colocar os navios de guerra americanos a escoltar/guiar os navios comerciais, petroleiros e cargueiros, que quisessem sair do Golfo Pérsico, porque ao invés de baixar, levou a uma subida abrupta do preço do barril de petróleo.

Com efeito, o "Projecto Liberdade" começou a ser aplicado na segunda-feira, 04, foi descrito pelo secretário da Guerra, Pete Hegseth, como o trunfo na manga que levaria a vitória de Donald Trump sobre o Irão, mas apenas, como se vê, obrigou o Presidente dos EUA a, mais uma vez, recuar numa decisão que foi anunciada como definitiva e infalível.

Na sua publicação na Truth Social, contudo, Trump avança que a suspensão do "Projecto Liberdade" acontece "a pedido do Paquistão e de outros países, o tremendo sucesso militar que os EUA tiveram durante a campanha contra o Irão, e, adicionalmente, o facto de grandes progressos terem sido conseguidos nas negociações de paz com os representantes iranianos".

Esta decisão do Presidente norte-americano coincide ainda com a chegada do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, à capital da China, Pequim, para encontros com o seu homólogo Wang Yi, e com o Presidente Xi Jinping, onde recebeu como oferenda á sua chegada uma declaração da diplomacia chinesa que não lhe podia cair melhor.

Segundo a agência de notícias semi-oficial iraniana, TASNIM, citada pela Al Jazeera, o ministro Wang Yi descreveu a guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão como "ilegítima", acrescentando que o Médio Oriente "está num ponto de viragem decisivo" e que "um acordo de paz é indispensável para a estabilidade regional".

Além deste recado excepcionalmente duro de Pequim para Washington, o chefe da diplomacia chinesa, e membro do circulo mais restrito do Presidente Xi Jinping na direcção do Partido Comunista Chinês, anunciou que a China está "inteiramente disponível para ajudar no baixar das tensões e na promoção do diálogo entre as duas partes.

Quando se aproxima vertiginosamente a data, 14 de Maio, da chegada do Presidente dos EUA a Pequim para uma histórica e muito aguardada visita de Estado, que já foi cancelada duas vezes, Abbas Araghchi disse à TASNIM ter apreciado sobremaneira a "posição firme" da China, especialmente na "condenação da guerra" lançada pela coligação israelo-americana contra Teerão, ao mesmo tempo que anunciada que a cooperação entre o Irão e a China "está mais forte que nunca".

Entretanto, o Presidente do Irão, alertou para o facto de nos EUA ainda ninguém parece ter percebido que estão a lidar com uma cultura multimilenar, com um povo capaz e que sabe o que quer, perseguindo "uma política de máxima pressão" à procura da submissão iraniana "que simplesmente é uma impossibilidade absoluta".

Esta nova fase criada pelos EUA surge ainda (ver links em baixo) depois de uma sucessão de ataques, ontem, terça-feira, 05, contra os Emiratos Árabes Unidos, os principais aliados dos EUA na região e os melhores amigos de Israel no Golfo Pérsico, com o Irão a negar a autoria, indiciando que poderia tratar-se de uma operação de "falsa bandeira" israelita para forçar o regresso à guerra dos norte-americanos.

Isto, numa altura em que, com idêntica surpresa, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, veio garantir que os EUA entraram numa fase "defensiva" de resposta a ataques do Irão onde os ataques acabaram e apenas vão responder a agressões de Teerão.

Além de Rubio, também responsáveis militares fizeram sair a informação de que as forças americanas entraram numa fase "defensiva" no Golfo Pérsico, especificamente nas imediações do Estreito de Ormuz, após ataques iranianos confirmados agora mas negados ontem, a navios comerciais.

O significado destas palavras do "ministro das Relações Exteriores" dos EUA ainda não está totalmente digerido entre os analistas, mas pode representar de facto uma nova fase, com possibilidades de paz renovadas, ou mais uma "armadilha" de Washington, comparável ao que sucedeu em Junho de 2025 e a 28 de fevereiro último, quando os EUA e Israel atacaram o Irão a meio de negociações.