E, no entanto, entre o dia em que americanos e israelitas mataram o Líder Supremo iraniano, aiatola Ali Khamenei, quase toda a sua família, e dezenas de figuras de proa da hierarquia militar e política do país, aconteceu um cessar-fogo e um acordo para acabar com a guerra.

Mas é como se não existissem. Porque ao longo destes quase três meses, por entre as ruidosas e renovadas ameaças do Presidente Donald Trump de destruição do Irão e as declarações públicas de Governantes israelitas contra o acordo de paz, voaram milhares de misseis e drones sobre o Golfo Pérsico.

O que configura um cenário quase perfeito para encaixar na tese de vários analistas menos crentes nas intenções benignas de Washington e Telavive quanto a este conflito e que o Memorando de Entendimento (MdE) é apenas um intervalo táctico.

Nesse intervalo, americanos e israelitas, embora estes estejam teoricamente afastados do campo de batalha, estão a reforçar stocks de armamento, de ataque e de defesa anti-aérea, e a manter os mercados energéticos, gás e petróleo, controlados.

Ao acordar, depois de ter adormecido nos primeiros dias de Abril, quando foi anunciado o conteúdo do cessar-fogo, e depois, em Junho, do MdE, essa pessoa não daria conta de qualquer alteração no calendário da guerra.

Apesar de, durante o seu longo - e ficcionado - sono, este indivíduo não teria como saber que os mercados petrolíferos quase voltaram a valores pré-conflito, que o Estreito de Ormuz foi reaberto por duas a três semanas, apesar das intermitências, e que americanos e iranianos estiveram olhos nos olhos, a falar de paz.

É que ainda não tinha chegado ao fim a primeira semana de Junho e, embora já antes tenham acontecido escaramuças diversas, EUA e Irão estavam a trocar "mimos" com misseis e drones às centenas, porque Washington e Teerão têm interpretações diferentes dos 14 pontos do Memorando de Entendimento que ambos... negociaram.

Os pontos mais escaldantes são o 1º, onde as partes entendem que esta guerra tem duas frentes, no Golfo Pérsico e no sul do Líbano, onde Israel mantém uma ocupação militar e deveria dali retirar as suas forças...

E os pontos 4º e 5º, onde, apesar de diferentes interpretações, algumas das quais claramente abusivas, fica claro que o Estreito de Ormuz volta a ser aberto mas com o Irão a ficar com a responsabilidade da coordenação e gestão do tráfego marítimo, sendo que Teerão poderá, ao fim de 60 dias, aplicar a cobrança de serviços prestados e não uma "portagem".

Embora o documento contenha 14 pontos, são duas situações que mais resistência apresentam na sua concretização, e, essencialmente, por duas razões, como começa a ser claro na leitura que fazem do contexto os analistas independentes.

Estas: Donald Trump só as aceitou porque estava com a corda da economia global a colapsar na garganta e precisava de reconstruir as reservas gigantescas de crude que gastara para manter os mercados sob controlo, mas nunca pensou em cumpri-las.

Isto, numa altura em que se aproximam a grande velocidade as eleições intercalares de Novembro onde corre o risco de perder a maioria nas duas câmaras do Congresso, a dos Representantes e no Senado, o que seria um pesadelo para a segunda metade do seu mandato que termina em 2028.

E a segunda razão é que em Telavive, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, e os seus ministros mais radicais, nunca aceitaram o acordo EUA-Irão, e avisaram repetidamente que não iriam cumprir a parte que os EUA deveriam obrigar Israel e cumprir.

O resultado está à vista, com uma sucessão tão acelerada de acontecimentos que é difícil de perceber quem primeiro violou as regras do cessar-fogo ao longo deste conturbado período que passaria desapercebido ao indivíduo que tivesse adormecido no início de Abril e acordado agora.

Mas, pelo menos nesta última derrapagem do MdE e do cessar-fogo, tudo indica que foi o Irão que atacou três navios de países do Golfo Pérsico que, contrariando o MdE, saiam para o Oceano Índico por uma rota não autorizada por Teerão no lado da costa de Omã, com apoio da marinha norte-americana.

Logo após se ter conhecido que o Corpo da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) tinha atacado dois petroleiros da Arábia Saudita e do Kuwait, e um metaneiro do Catar, que estavam, na perspectiva iraniana, a transgredir o MdE, os EUA atacaram dezenas de locais no sul e centro do Irão.

Recorde-se que este recomeço das hostilidades, a 06 de Junho, e que ainda perdura, como se viu nestas últimas 24 horas, aconteceu quando o Irão realizava as cerimónias fúnebres do aiatola Ali Khamenei, morto, com a sua família, e dezenas de chefias militares e políticas do país, a 28 de Fevereiro, nos ataques iniciais israelo-americanos.

Assim que os EUA ripostaram aos ataques iranianos sobre as embarcações no Estreito de Ormuz que violavam o MdE, centenas de misseis e drones iranianos caíram sobre bases norte-americanas em países como o Catar, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita e ainda na Jordânia...

Desde então, com Donald Trump a sair a público com declarações bombásticas, repetindo que se o Irão não aceitar as suas condições, será destruído, e com as autoridades iranianas a repetirem que Washington meteu-se com o adversário errado desta vez, a guerra no Médio Oriente está de volta e em força...

Ainda assim, apesar de o Presidente norte-americano já ter "matado" o cessar-fogo, dizendo que por ele o documento estava sem efeito, ainda não o enterrou, porque permitiu que a sua delegação continuasse a negociar com Teerão.

E na capital iraniana, onde as atenções estavam concentradas no enterro do aiatola Ali Khamenei, com mais de 15 milhões de pessoas nas suas das cidades iranianas e mais de 10 no Iraque, outro país de maioria xiita, as negociações, aparentemente, ainda respiram, mas com dificuldades...

Isto, porque a IRGC tem estado a subir o tom das ameaças e já neste Domingo, 12, ficou claro que o Irão está a retirar limites aos seus ataques na região, com a possibilidade de passar a ter como alvos as infra-estruturas energéticas dos países do Golfo Pérsico onde os EUA possuem bases e liberdade para dali lançarem ataques contra alvos no território iraniano.

Facto que não está a passar ao lado dos mercados energéticos globais, com o barril de Brent, em Londres, a referência principal para Angola, mas igualmente no WTI em Nova Iorque, a voltar a aproximar-se da fasquia dos 80 USD, ainda longe dos 100 USD, onde esteve entre Abril e Maio, mas claramente acima do calendário pré-conflito... e a subir.

Alias, olhar para um gráfico que mostre a evolução do preço do barril de Brent entre o início de Abril e esta segunda-feira, 13 de Junho, seria uma boa forma de mostrar a quem tivesse dormido ao longo destes mais de dois meses o que aconteceu no mundo.