Ao prazo de 48 horas dado por Donald Trump para que a passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã (Oceano Índico) seja aberta pelo Irão, Teerão respondeu com outra ameaça: a destruição total da infra-estrutura energética do Médio Oriente situada nos países aliados dos EUA, que são praticamente todos.
Ebrahim Zolfaghari, porta-voz do Comando Central Militar do Irão, acrescentou nesta resposta à ameaça de Trump, que além da indústria do petróleo e do gás no Golfo Pérsico, os misseis e drones iranianos arrasam ainda todos os sistemas de dessalinização da região logo após o primeiro-missil americano ser disparado sobre a indústria energética iraniana.
Os países aliados dos EUA no Golfo Pérsico, onde estão dezenas de bases norte-americanas que apoiam a guerra contra o Irão, dependem entre 50% e 95% da dessalinização da água do mar para abastecer as suas cidades de água potável.
Se o Irão cumprir a ameaça de atacar as fontes de água potável da Arábia Saudita, Catar, Kuwait, EAU ou Bahrein, milhões de pessoas terão de sair da região em pouco tempo e isso é um cenário caótico impossível de imaginar as suas consequências.
E o Irão possui capacidades para o fazer, como já o demonstrou ao longo desde 23 dias de guerra, sendo a demonstração mais recente também a mais perigosa ao atingir com um míssil hipersónico a cidade de Dimona, onde está a maior central nuclear de Israel.
O alvo atingido foi um edifício na cidade, mas tal, como referem quase todos os analistas, foi uma demonstração e um aviso a Telaviove de que também a central nuclear de Dimona pode ser flagelada.
Este momento, marcado pela surpreende ameaça de Donald Trump, escassas horas depois de ter dito que ia reduzir a intensidade dos ataques ao Irão "porque tudo o que havia para destruir está destruído", é a mais séria e perigosa escalada neste conflito.
O estreito Estreito de Ormuz é ainda mais estreito que a ideia generalizada que existe, sobre o canal onde passam 20% do crude e do gás (LNG) mundiais e outros produtos estratégicos para a economia mundial, como o hélio (indústria dos chips) e fertilizantes agrícolas.
É que dos 33 kms de extensão que possui, apenas 2,5 kms são navegáveis para os navios de grande calado, como os petroleiros, e este "estreito" dentro do Estreito de Ormuz está situado na zona encostada à costa iraniana, visto que a restante área são recifes e bancos de areia.
Isso permite ao Irão melhor controlar pelo fogo esta estratégica passagem, mas confere ainda como vantagem a facilidade de, por exemplo, minar o leito marítimo com minas magnéticas ou, no limite, ali afundar alguns navios para que o bloqueio fique garantido por longos meses mesmo que o conflito termine em breve.
Esta escalada retórica de Trump, que surgiu no Sábado, 21, o que não é descolável do período em que os mercados mundiais energéticos e bolsistas estão fechados, num colérico texto publicado na sua rede social Truth Social foi ainda mais longe ao avisar o Irão que a infra-estrutura destruída não seria reconstruível.
Porém, como alguns analistas, como Alastair Crooke, antigo diplomata britânico e um dos maiores especialistas do mundo em geoestratégia do Médio Oriente, já fizeram sentir, o que Trump está, sem preceber, a fazer, é mostrar que é o Irão que tem a vantagem da escalada neste conflito centrado no Estreito de Ormuz.
É que, além de poder, como o mostrou sucessivamente nestes 22 dias de guerra, atingir a infra-estrutura energética de Israel e dos países árabes do Golfo, estes podem sofrer ainda mais porque de Israel, que depende em 70% da água dessalinizada, ao Kuwait, 95%, sem essas fontes de água potável a vida nesta região do mundo é impossível de manter.
Tudo indica que é, assim, mais uma iniciativa impensada por parte da Casa Branca, porque horas antes do estranho "post" na Truth Social, Donald Trump tinha vindo a público, na mesma plataforma, anunciar que tinha dito a Israel para parar com os ataques ao gás e ao crude iraniano.
Esse pedido, rapidamente aceite pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyhau, aconteceu depois de Israel atacar o campo de gás de South Pars, a parte iraniana do maior campo do mundo, que partilha com o Catar.
Na resposta a este ataque, o Irão atingiu com misseis e drones a parte do Catar do mesmo campo de gás, que só por si tem potencial para abastecer todo o mundo por 13 anos consecutivos, o que levou os preços da energia a escalar perigosamente para a economia global.
Enquanto os ataques da coligação israelo-americana, que começou esta guerra a 28 de fevereiro, se repetem, tal como as respostas iranianas, o mundo volta a ficar suspenso de uma promessa feita pelo dirigente mundial que incomparavelmente mais promessas falha.
Desde logo Trump falhou as exaustivamente repetidas promessas eleitorais de que iria acabar com todas as guerras onde os EUA estivessem directa ou indirectamente envolvidos no mundo, e não entraria noutra enquanto fosse Presidente...ao ponto de estar agora marcado para a história de poder ter começado a mais catastrófica guerra para a economia global desde, pelo menos, a invasão do Iraque em 1991.
A Agência Internacional de Energia (AIE) foi ainda mais longe e disse que o impacto económico deste conflito já é superior à crise petrolífera de 1973, a primeira e maior de sempre registada até hoje, quando os países árabes exportadores deixaram de abastecer o mercado em protesto contra o apoio ocidental a Israel na guerra do Yom Kippur.
Na sexta-feira, 20, o barril de Brent, referência principal para as exportações angolanas, fechou a 112 USD, mas todos os analistas admitem que se não houver evoluções no sentido da desescalada no âmbito destas ameaças, na segunda-feira, 23, o mundo assistirá a nova subida estratosférica nos mercados energéticos mundiais e uma queda ruidosa nos mercados bolsistas...











