Joe Kent, o chefe do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, publicou, na rede social X, nas últimas horas, uma carta demolidora para a narrativa justificatória da guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão e que põe em cheque o próprio Presidente dos Estados Unidos.
Nessa missiva, Joe Kent, uma figura proeminente do movimento MAGA, com um vasto currículo militar, com dezenas de missões nos conflitos do Iraque e do Afeganistão, e ex-oficial da CIA, além de apresentar a sua demissão com efeitos imediatos, explica que o Irão "não representava qualquer ameaça iminente" para os EUA.
Mas Kent vai mais longe e espelha na missiva enviada a Donald Trump o reflexo de um sentimento que começa a ganhar proporções nacionais e ameaça criar problemas sérios ao Partido Republicano nas eleições intercalares de Novembro, acusando o Presidente dos EUA de ter sido "arrastado para mais uma guerra sem fim, contrária aos interesses americanos, pelo lobby israelita" em Washington.
Joe Kent, como a ele se refere Tucker Carlson, outra figura proeminente do movimento MAGA, e antigo pivot da FOX News, é um "herói nacional como poucos" e "o homem mais corajoso" que conheceu, diz na mesma carta enviada a Trump que, "em boa consciência, não podia manter-se no cargo sabendo que o Irão não constituía qualquer ameaça iminente aos EUA".
Simbolicamente, esta demissão de Joe Kent é uma "explosão" dentro da Administração Trump porque fez questão de publicar a carta enviada a Donald Trump na rede social X, o que fez este assunto tornar-se, nas últimas horas, o mais comentado tanto nas redes sociais como nos media tradicionais.
Na resposta a esta demissão e às ondas de choque que está a provocar nos EUA, o Presidente Trump, como sempre faz nestas circunstâncias, questionado pelos jornalistas na Sala Oval da Casa Branca sobre a saída de Kent, disse ser "uma coisa boa ele ter ido embora" porque "era muito fraco em segurança".
E Trump deu como exemplo da incompetência de Joe Kent, que achava antes desta missiva publicada no X, ser "um tipo simpático", para chefiar o Centro de Contraterrorismo Nacional, ele "não ter percebido que o Irão é uma ameaça não apenas para os EUA mas para todos os países do mundo".
Este episódio surge num momento em que Donald Trump está a começar a dar sinais de ter perdido o controlo da situação no conflito com o Irão, como se refere a isso John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos maiores especialistas mundiais em política internacional e autor de dezenas de livros sobre estes temas.
"Guerra mundial do petróleo"
Alguns dos exemplos avançados por Mearsheimer passam pela forma como Trump pediu apoio à NATO para ajudar a desbloquear o Estreito de Ormuz, que se tronou no foco principal desta "guerra mundial do petróleo", porque por ali passa 20% do crude e do gás globalmente falando, recuando logo de seguida, aso perceber que a resposta era um rotundo não, passando a dizer que não precisava da NATO para nada...
Isto, depois de ter, acrescenta John Mearsheimer, anunciado que iria enviar escoltas militares da Marinha dos EUA para garantir a segurança dos petroleiros na passagem pelo Estreito de Ormuz e recuar nessa decisão no minuto seguinte, optando por acusar os comandantes destes navios de cobardia para enfrentar o fogo iraniano naquela passagem marítima entre o Golfo Pérsico de o Ocenao Índico com 33 kms de extensão mas apenas 2,5 kms navegáveis para as embarcações de grande calado.
Uma das razões apontadas pelos analistas, juntando-se a Mearsheimer o também norte-americano Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, especialista em economia global e geoestratégia, é que Donald Trump estava convencido que iria resolver este conflito numa semana e já está na 3º semana de guerra, sem que o Irão, apesar das pesadas perdas, dê sinais de, como este exigia, "se render incondicionalmente".
Porém, naquilo que vários especialistas em questões militares e de intelligentsia, como Jacques Baud, antigo coronel da "secreta" suíça e da NATO, e autor de vários livros sobre os conflitos no Médio Oriente, a coligação israelo-americana está a conseguir sucessos extraordinários na sua estratégia de eliminação das figuras de topo do regime iraniano.
Depois de eliminar o Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, logo no primeiro dia de guerra, a 28 de Fevereiro, juntamente com mais 40 oficiais militares do topo da hierarquia iraniana, já nesta semana foram eliminados mais dois, Ali Larijani, o secretário do Conselho Supremo de Segurança, e quem geria o esforço de guerra iraniano actualmente, e Gholamreza Soleimani, o chefe da Basij, uma força paramilitar com expansão nacional.
Só nestes 19 dias de guerra, a coligação israelo-americana eliminou dezenas de figuras de topo, incluindo, por duas vezes, os líderes da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), o corpo principal das forças de segurança do país, bem como os chefes da secreta civil e militar, além de que o novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, ainda não apareceu em público, suspeitando-se que possa também ter sido eliminado.
Apesar destas perdas pesadas no corpo directivo do Governo do Irão, o ministro dos Negócios Estrangeitros, Abbas Araghchi, veio, nas últimas horas, em entrevista à Al Jazeera, garantir que o poder está sólido, as normas constitucionais estão a ser respeitadas e que os cargos não carecem de gente qualificada para os ocupar.
Todavia, estas mortes sucessivas no topo das hierarquias militar e política do Irão começam a expor fragilidades sérias na segurança interna, visto que Israel e os EUA não apenas conseguem saber a localização exacta dos "alvos", como obtêm informação sobre as suas mortes imediatamente, por vezes, pelo menos é isso que parece, surpreendendo com esses anúncios o próprio poder central em Teerão.
No entanto, apesar de a decapitação e a mudança de regime ter sido o objectivo, pelo menos inicialmente, apontado por Washington e Teerão, estas sucessivas eliminações de figuras proeminentes do regime não levaram à sua queda e Abbas Araghchi sublinhou mesmo, na mesma entrevista, que a demonstração disso mesmo é que o país escolheu para o liderar Mojtaba Khamenei, filho do anterior, o aiatola Ali Khamenei, assassinado no início desta guerra.
Além de manter a estrutura de poder, aparentemente, intacta, porque tando do lado iraniano como do lado israelita e amerciano, o nevoeiro da guerra serve para esconder a verdade, através da manipulação da informação que chega aos media ou pela via da censura, claramente mais robusta em Israel, a IRGC iraniana mantém dia após dia um barragem de misseis sobre Israel.
Esta permanente chuva de misseis iranianos sobre Israel, incluindo diversos hipersónicos, imparáveis pelas antiaéreas israelitas, as mais sofisticadas do mundo, a que se juntam, há cerca de uma semana, os roquetes e misseis do Hezbollah, a partir do Líbano, está a surpreender Washington e Telavive, onde logo nos primeiros dias se pensava terem sido destruídos 90% dos lançadores em território iraniano.
A surpreendente resistência iraniana
Só não mantém, para já, intacta a capacidade de disparar misseis sobre Israel e as bases norte-americanas nos países do Golfo Pérsico, especialmente no Catar, Kuwait, EAU e Bahrein, como os seus drones estão a voar nas mesmas direcções 24 horas poer dia, o que ameaça, segundo vários analistas militares, como o major-general Agostinho Costa, secar a capacidade de defesa antiaérea israelita e americana muito em breve.
Tal cenário parece cada vez mais próximo, visto que os EUA estão, provocando a fúria do Governo de Seul, a retirar as baterias de defesa antiaérea THAAD, os mais sofisticados do seu arsenal, da Coreia do Sul, por estarem em falta no Médio Oriente devido às perdas provocadas, especialmente devido aos drones iranianos.
Alguns observadores, como Larry Johnson, antigo analista da CIA, defendem que os EUA estão obrigados a terminar esta guerra, no máximo do limite, nas próximas duas semanas, com uma vitória sobre o Irão ou com um acordo negociado com o barulho das explosões como "banda sonora" de um e do outro lado.
Acordo esse que terá de ser negociado sem Israel, porque para o Governo de Benjamin Netanyhau, e para a carreira do próprio, os EUA saírem deste conflito sem a derrocada do regime em Teerão levaria a uma situação de insustentabilidade para o próprio regime israelita, o que deixaria em aberto o cenário catastrófico de Telavive ser na contingência de ter de usar armas nucleares...















