Ao revisitar as declarações do Presidente dos EUA, Donald Trump, e do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, percebe-se que ambos estavam convencidos de que o regime iraniano soçobraria às primeiras vagas de misseis sobre Teerão.

E não estavam muito longe da verdade se estivessem a considerar que ao decapitar a cúpula política, com a morte do Supremo Líder, Ali Khamenei, logo no Sábado, 28 de Fevereiro, primeiro dos sete dias desta guerra, e as principais chefias militares, isso abalaria sem retorno o regime.

Só que, como vários analistas vieram explicar de imediato, entre estes Alastair Crooke, antigo diplomata e membro da intelligentsia britânica, esteve 30 anos no MI6, e um dos maiores especialistas vivos sobre o Médio Oriente, o Irão não foi atacado de surpresa, "está há mais de 20 anos a preparar-se para este guerra!".

Diz o também antigo conselheiro da União Europeia para o Médio Oriente e fundador do Fórum Conflitos, com sede em Beirute, que a sucessão de eventos que levaram ao ataque israelo-americano demonstra que esta operação militar foi mal calculada.

Mal calculada e ingenuamente pensada, sublinha Alastair Crooke, por negligenciar puerilmente a capacidade de resposta iraniana que este país nunca escondeu propositadamente para evitar um conflito, como forma de dissuasão para aquilo que acabou por acontecer agora.

Além disso, como nota ainda o jornalista e autor israelita Alon Mizrahi, fortemente crítico da política de Benjamin Netanyhau, o que Israel e os EUA estão a perceber é que o Irão tem muito mais capacidades que aquilo que admitiam.

E dá como exemplo o facto de Israel e os EUA estarem a apostar tanto na censura às consequências dos ataques iranianos sobre as bases norte-americanas e as cidades israelitas, sendo que, ainda assim, o que é possível verificar é que nunca os norte-americanos viram tamanha destruição na sua infraestrutura militar sem conseguirem travá-la apesar de todo o seu poderio militar a que se junta o de Telavive, que não é menos impressionante.

A prova de que esta operação militar conjunta, que, estranhamente, o que foi visto por alguns analistas como prova de má preparação e planeamento apressado, foi baptizada pelos americanos como "Fúria Épica" e pelos israelitas como "Rugido do Leão", é que o regime não vacilou apesar dos danos iniciais a que foi sujeito, desde logo a morte de Ali Khamenei.

A par dessa evidência, mesmo com os fortes apelos de Trump e Netanyhau para que o povo iraniano saísse às ruas para tomar o poder nas suas mãos, o que aconteceu foi precisamente o contrário, como tem lembrado Mohammad Marandi, analista e professor da Universidade de Teerão, que, a partir da capital iraniana, relata que, excepção feita a pequenos grupos que festejaram a morte de Khamenei, a generalidade da população saiu à rua em sentido contrário, a apoiar o regime, mesmo sob a constante chuva de bombas.

O mesmo têm sido relatado a partir de Teerão pelos jornalistas da Al Jazeera, a televisão do Catar, um dos países com bases norte-americanas alvejadas pelos misseis e drones iranianos, e cujo Governo já criticou fortemente Teerão devido a esses ataques, acrescentando um deles, Tohid Asadi, que os misseis israelo-americanos estão a destruir hospitais, esquadras de polícias, escolas e dezenas de prédios civis ...

... naquilo que começa a parecer uma repetição do que Israel fez nos últimos anos em Gaza, ao destruir vilas e cidades sem qualquer aparente propósito militar que o justificasse, mas com uma diferença crucial: as suas cidades, apesar da censura quase total sobre os media do país e no país, também estão a ser alvo de ataques diários e com evidente crescente severidade.

Até ao momento, já morreram 1300 pessoas no Irão, incluindo as 165 crianças da escola primária de Minab, suk do país, num ataque dos EUA, como a CNN e The New York Times demonstraram em investigações separadas...

Mas se este cenário não é bom, o que está a ser pensado para camuflar o insucesso operacional nesta guerra declarada ao Irão, sem que até agora tenha sido percebida a razão, como se vê nas várias avançadas pela Casa Branca, pode ser ainda pior, porque Donald Trump acaba de lançar um apelo aos grupos separatistas curdos para lançarem ataques contra as forças iranianas...

Naquilo que vários analistas estão a abordar como sendo a antecâmara de uma futura invasão terrestre americana, a CIA tem em curso uma gigantesca operação de distribuição de armas e financiamento entre os curdos iraquianos para entrarem no Irão, embora também esse movimento pareça estar a correr mal...

É que, depois da liderança dos curdos no Irão, com quem o regime tem relações de confiança antigas e sólidas, ao contrário dos curdos na Turquia, Iraque e Síria com os seus respetivos Governos centrais, também o Curdistão iraquiano "oficial" divulgou um comunicado a recusar a "oferta" norte-americana de apoio para que as suas milícias avancem com operações de desestabilização no Irão.

O Curdistão é uma geografia cultural, étnica e linguística que abrange regiões importantes do Iraque, Irão, Síria e Turquia, com raízes profundamente independentistas e com séculos de fricção com os respectivos poderes centrais ou os antigos poderes coloniais, como é o caso do Iraque e da Síria.

É por isso que a Casa Branca está a optar, ao invés de uma operação terrestre, similar à invasão do Iraque em 2003, em cooptar os curdos para a sua causa, indo incentivar a revolta no Iraque, onde a separação é mais nítida, tendo em conta que o Irão é dos quatro países, onde os curdos, com cerca de 10% da população global, estão mais inseridos socialmente, não havendo uma autonomia constitucionalmente reconhecida mas as suas tradições culturais são mais respeitadas.

O recurso aos curdos para desestabilizar o Iraque, que até agora ainda não se percebeu se terá pés para andar, acontece porque Donald Trump considera, em entrevista à NBC, que seria "uma perda de tempo" enviar militares dos EUA para o terreno, naquilo que foi a sua resposta ao ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, que disse que se tal suceder será "o maior desastre de sempre para os americanos" nas suas guerras além-fronteiras.

Apesar deste cenário, onde não se vislumbra um cenário de vitória para a coligação israelo-americana, com a Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) a manter as vagas diárias de ataques sobre Israel e as bases dos EUA na região, embora a destruição no Irão seja igualmente substancial, Donald Trump veio dizer que quer "ter a palavra definitiva" sobre a escolha do próximo Supremo Líder do Irão.

Para já, a realidade não parece encaixar na narrativa americana, que começou por Trump apontar para a "mudança de regime" como objectivo, depois o seu sceretário de Estado, Marco Rubio, dizer que os EUA foram obrigados a atacar devido ao avanço israelita de forma a evitar replicas iranianas sobre os interesses de Washington na região, e, por fim, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, que apontou como azimute desmantelar a capacidade dos misseis iranianos...

Seja como for, todos eles, contrariando o que o CEMGFA dos EUA, general Dan Caine, e o director da CIA, John Ratcliffe, foram explicar ao Presidente na Casa Branca, dias antes do ataque ao Irão, que os EUA só tinham meios para manter cinco dias de guerra intensa na região - já estamos no 7º dia -, apregoam agora que este conflito vai durar "100 dias" ou mais se for preciso.

O que contrasta totalmente com o que era o discurso inicia onde sobressaia a ideia de que bastariam alguns dias de intenso fogo sobre Teerão para o regime cair..., sublinhando Hegseth que "os EUA têm o tempo do seu lado", alegadamente porque o Pentagono está a enviar mais meios, equipamento e pessoal, para a região.

Isto, quando Abbas Araghchi, o chefe da diplomacia iraniana, contrariando as palavras de Trump, veio garantir que o Irão "não está a procurar qualquer cessar-fogo" e que em Teerão "ninguém vê quaisquer razões para negociar com os EUA" porque o mundo viu que foi quando estavam a decorrer negociações que a guerra começou com bombas a cair sobre a capital iraniana.

Isto, quando entre os países da região do Golfo omeçam a emergir críticas à opção militar do eixo Washington-Telavive, como o demonstra, e serve de exemplo crescente, especialmente no meio académico e diplomático do Catar, Kuwait, Bahrein e EAU, uma publicação de um dos empresários mais conhecidos da região, Khalaf Ahmad Al Habtoor, dos Emiratos.

Na rede social X, Khalaf Ahmad Al Habtoor questiona directamente Trump: "Quem lhe deu a autoridade para arrastar a nossa região para uma guerra com o Irão?"

E continua: "E em que base você tomou essa decisão perigosa?"

"Calculou os danos colaterais antes de puxar o gatilho? E você pensou que os primeiros a sofrer com essa escalada seriam os países da região?"

O empresário diz ainda nesta publicação que "os povos desta região também têm o direito de perguntar: Foi essa a sua decisão sozinha? Ou veio como resultado das pressões de (Benjamin) Netanyahu e do seu governo?", acusando os EUA de colocarem estes países no centro de uma guerra que não escolheram mas sabiam que seriam as primeiras vítimas da réplica iraniana por terem bases dos EUA nos seus territórios.