Parece ser uma jogada arriscada, porque o seu amigo Benjamin Netanyhau, o primeiro ministro israelita, tem de colaborar, e isso não está garantido, de todo, porque, como se pode ler na imprensa em Telavive, o plano de Trump não garante a segurança em Israel.

Em cima da mesa está uma proposta de Donald Trump para que o Hamas desarme totalmente em Gaza recebendo como contra-partida a saída total das Forças de Defesa de Israel (IDF) do território, o que, no limite do seu sucesso, significaria o fim da guerra.

Para já, o Hamas, embora apenas através de declarações de alguns dos seus dirigentes de topo, sem nada escrito oficialmente, veio dizer que concorda com o plano do Presidente dos EUA.

Mas em Israel, onde também não existe ainda uma resposta oficial para a proposta que ficou conhecida apenas nas últimas horas, e apanhou o mundo de surpresa, dificilmente haverá uma concordância sem exigências por parte do Governo de Netanyhau.

Entre os analistas israelitas ouvidos já nesta manhã de sexta-feira, 31, pelos media internacionais, como a Al Jazeera, a ideia com maior tracção aponta para a inevitabilidade de Telavive aceitar a proposta mas sem admitir uma saída de Gaza das IDF sem o total e inequívoco desarmamento do Hamas.

E a razão é que para Israel, Gaza só conta porque é a partir deste território que o sul do país tem vindo a ser atacado ao longo das últimas décadas, especialmente desde 2005, quando as IDF saíram para dar ao Hamas o controlo total do território.

Ainda por cima, o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau, cujo Governo esta dependente de dois pequenos partidos, com escassa representação parlamentar mas excesso de radicalismo nacionalista sionista, vai ser exposto a eleições a 27 de Outubro, com as sondagens a não lhe garantirem uma vitória inequívoca.

Além disso, Netanyhau sabe que estes dois partidos radicais e profundamente anti-palestinianos de que o seu Executivo depende, o Partido Sionista Religioso, de Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, e o Partido do Poder Judeu (Otzma Yehudit), de Itamar Bem Gvir, já lhe disseram que não vão admitir uma saída de Gaza nem ceder o poder naquele território ao Hamas de novo.

Pelo contrário, tanto Smotrich como Bem Gvir, especialmente este último, defendem abertamente a expulsão de todos os palestinianos, perto de 2.2 milhões, dos 365 kms2 de Gaza, onde há perto de três anos decorre um brutal genocídio protagonizado por Israel, como a Justiça Internacional reconhece, onde já morreram mais de 70 mil pessoas, na sua maioria mulheres, crianças e idosos.

Os intensos bombardeamentos israelitas e a invasão terrestre mais vigorosa começou (ver links em baixo) a 07 de Outubro de 2023, quando milhares de combatentes do Hamas e da Jihad Islâmica invadiram o sul de Israel, matando pelo menos 1.000 pessoas, ao mesmo tempo que levaram de volta para Gaza perto de 250 reféns, a maioria israelitas mas incluindo igualmente vários estrangeiros, entre norte-americanos, britânicos, tailandeses, franceses...

Tanto Smotrich como Ben Gvir apoiaram de forma cabal o famoso plano de Trump para erguer em Gaza um gigantesco complexo turístico de luxo, que permitiria a Telavive ter o controlo total da segurança no território.

A guerra aberta mantida por Israel em Gaza com o Hamas foi aligeirada com um cessar-fogo mediado pelos EUA assinado em Outubro de 2025, mas com vários buracos e com uma continuação dos ataques israelitas, embora com um menor grau de intensidade mas igualmente letais, com as organizações internacionais a apontaram para mais de 1.200 civis palestinianos mortos desde então.

Agora, com esta surpreendente proposta de Donald Trump, Gaza faz face a uma nova oportunidade de paz duradoura, que, segundo descreve a Al Jazeera, que cita uma explicação de Trump, o acordo será implementado em fases.

Com o desarmamento do Hamas, as forças de Israel deixarão por completo Gaza e uma força internacional de estabilização entrará no território para, em colaboração com as autoridades policiais locais, garantir a segurança das populações e dos vizinhos.

Vários dirigentes seniors do Hamas já admitiram ser um bom plano, mas a questão de Israel poder manter as suas forças no território no decurso do desarmamento deste grupo de resistência à ocupação israelita, não colhe uma simpatia generalizada.

"Um desses líderes, Ghazi Hamad, que integra a equipa negocial do Hamas, citado pela Al Jazeera, nota que o grupo não vai "tomar nenhuma medida ou acção no sentido de desarmar por completo antes de Israel retirar da Faixa de Gaza".

Por sua vez, em Israel, as posições semi-oficiais, como um oficial militar superior citado pela Al Jazeera aponta, são de que, seja qual for o resultado das negociações, em nenhum cenário ocorrerá uma retirada das IDF antes de o Hamas estar totalmente desarmado.

Porém, Donald Trump espera que um acordo seja assinado muito em breve por Israel, como relata, a partir de Washington, Alan Fisher, o correspondente-chefe do canal do Catar, e este já disse que vai ficar muito desapontado com Netanyhau se se recusar a dar esse passo.

Como sinal de boa-fé, ao que tudo indica, a Casa Branca já exigiu a Telavive o fim de todas as acções militares em Gaza, o que não acontece desde Outubro de 2023, incluindo após o cessar-fogo assinado em 2025.

Ainda de acordo com este acordo elaborado pelos norte-americanos, o Governo de Gaza que se seguirá à sua implementação, terá uma dimensão exclusivamente tecnocrata, que contará com o apoio da comunidade internacional, a força de estabilização e um prazo razoável para mostrar resultados.