Em 1759, o filósofo francês Voltaire publicou Candide ou l"Optimisme, uma das obras mais marcantes do Iluminismo europeu. Através de uma sátira mordaz, ridicularizou o optimismo metafísico de Gottfried Wilhelm Leibniz, segundo o qual vivemos no melhor dos mundos possíveis. A personagem central dessa crítica é o Doutor Pangloss, um filósofo incapaz de reconhecer a realidade. Enquanto guerras devastavam a Europa, epidemias ceifavam milhares de vidas e o terramoto de Lisboa de 1755 destruía uma das mais importantes cidades do continente, Pangloss insistia que tudo acontecia para o melhor.

Nenhum facto era suficientemente poderoso para abalar a sua convicção. Dessa personagem nasceu o conceito de panglossianismo: a tendência para interpretar qualquer acontecimento como confirmação de uma narrativa pré-definida, recusando confrontar a realidade quando esta se revela menos confortável. Poucas metáforas ilustram tão bem uma tentação recorrente da política económica: confundir melhorias conjunturais com transformações estruturais.

Ora vejamos.

Nas IV Jornadas do Grupo Parlamentar do MPLA, o Ministro de Estado para a Coordenação Económica apresentou uma comunicação dedicada à inflação em Angola. Os números revelam que, depois de encerrar 2024 em 27,5%, a inflação desacelerou para 15,7% em 2025 e voltou a recuar para 10,11% em junho de 2026, o valor mais baixo da última década. A própria apresentação atribui esta trajectória a um processo de desinflação gradual e consistente, acompanhado por indicadores macroeconómicos igualmente favoráveis, como a aceleração do crescimento do PIB e a redução da dívida pública em percentagem do produto.

Os progressos são reais e merecem reconhecimento. O problema começa quando um resultado intermédio é apresentado como se representasse o destino final. Afinal, uma inflação de 10,11% continua a ser uma inflação de dois dígitos, suficientemente elevada para corroer o poder de compra das famílias, desencorajar o investimento privado, aumentar os custos de financiamento e limitar a competitividade das empresas. Em qualquer economia verdadeiramente ambiciosa, este seria um indicador que recomendaria prudência. Em Angola, contudo, parece já ser suficiente para justificar aplausos. As causas da inflação identificadas pelo Ministro de Estado merecem uma análise mais aprofundada. Em termos gerais, o diagnóstico é, em vários aspectos, correcto. O problema reside menos na identificação dos sintomas do que na escassez de soluções e, nalguns casos, na incapacidade de reconhecer que é a própria política económica que alimenta parte significativa dos desequilíbrios que procura explicar.

A apresentação sugere que o défice orçamental, quando financiado internamente, tende a expandir a massa monetária e, consequentemente, a pressionar a inflação. A observação é correcta, mas permanece incompleta. Os défices orçamentais não surgem espontaneamente. Os mesmos resultam de opções de política económica. Durante vários anos, a Equipa Economia do Presidente João Lourenço insistiu numa orientação orçamental excessivamente expansionista, apesar de quase metade da despesa pública continuar absorvida pelo serviço da dívida. Quando mais de 47% da despesa do Estado é destinada ao pagamento da dívida, o verdadeiro debate deixa de ser o financiamento do défice para passar a ser a qualidade das prioridades orçamentais. A inflação, neste contexto, não é apenas uma variável monetária; é também a factura de uma política orçamental que tarda em reconciliar ambição com sustentabilidade.

Concordamos que a baixa produtividade constitui uma das principais causas da inflação estrutural. A questão relevante é perceber por que razão continua baixa. A estratégia de substituição de importações, prosseguida há vários anos, dificilmente produzirá os ganhos de produtividade de que Angola necessita. A experiência internacional demonstra que as economias que aceleraram o desenvolvimento não o fizeram protegendo indefinidamente os seus mercados internos, mas integrando-se nas cadeias globais de valor através da promoção das exportações. Exportar obriga as empresas a competir, inovar, investir em tecnologia e qualificar o capital humano. Substituir importações pode aumentar a produção, mas só competir nos mercados internacionais aumenta, de forma sustentada, a produtividade.

O diagnóstico sobre os subsídios merece concordância. Os subsídios generalizados distorcem preços, comprometem as contas públicas e reduzem a eficiência económica. Talvez o maior motivo de preocupação seja a lentidão com que o processo avança. Existe, porém, um risco ainda mais sério que a apresentação não aborda. Os atrasados do Tesouro estão a limitar a capacidade da SONANGOL de cumprir os seus compromissos perante os parceiros internacionais, situação que já começa a traduzir-se na retenção de petróleo bruto, por parte das operadoras estrangeiras, destinado à petrolífera nacional para compensação de créditos em atraso. Talvez fosse de sugerir que o Presidente João Lourenço alargasse o número de vozes ouvidas, porque nenhuma política pública deveria assentar na convicção de que todo o conhecimento reside numa única pessoa.

A apresentação identifica o problema dos custos de financiamento, mas omite o principal responsável. O elevado custo do crédito resulta, em larga medida, da própria política de endividamento do Tesouro. A teoria sobre a economia financeira é inequívoca: a taxa a que o Tesouro se financia estabelece a referência para toda a estrutura de taxas de juro da economia. Quando o Estado remunera a sua dívida acima dos 16%, dificilmente empresas e famílias terão acesso a financiamento compatível com a rendibilidade do investimento no sector produtivo. O conhecido efeito de crowding-out desloca recursos financeiros do sector privado para o financiamento do Estado. A questão essencial, por isso, não é reconhecer que o financiamento é caro, mas perguntar o que está a ser feito para inverter essa realidade. Os dados disponíveis sugerem precisamente o contrário. Nos primeiros seis meses do ano, o endividamento público voltou a acelerar para níveis que recordam o período da pandemia. Pasme-se!

O diagnóstico sobre as imperfeições do mercado cambial é rigoroso, mas permanece sem resposta. Enquanto a maioria das receitas provenientes das exportações de petróleo bruto não for domiciliada no sistema bancário nacional ou, em alternativa, enquanto Angola não diversificar significativamente a sua base exportadora, será ilusório esperar uma estabilidade cambial duradoura. O obstáculo deixou há muito de ser técnico, e é essencialmente político e institucional. Será inevitável renegociar, com credibilidade e maturidade institucional, o relacionamento com as operadoras petrolíferas internacionais. Esperemos apenas que essa firmeza não replique os métodos de arrogância institucional tantas vezes utilizados contra o sector privado nacional.

Por último, o diagnóstico sobre os custos logísticos dificilmente suscita discordância. Os custos de transporte, armazenagem e distribuição penalizam fortemente a competitividade da economia e pressionam os preços. A questão, uma vez mais, reside na ausência de respostas concretas. Durante anos, justificaram-se inúmeras adjudicações directas em investimentos públicos precisamente com o protesto de eliminar estes constrangimentos estruturais. Meus Camaradas, se, depois de tantos ajustes directos, os custos logísticos continuam a figurar entre as principais causas da inflação, talvez seja igualmente oportuno avaliar a eficácia das políticas adoptadas.

Voltaire utilizou Pangloss para satirizar aqueles que confundiam esperança com realidade e optimismo com evidência. Mais de dois séculos depois, a lição permanece surpreendentemente actual. Angola conseguiu estabilizar a economia, mas ficou aquém de a transformar. A inflação desceu, as contas públicas ganharam alguma disciplina e alguns indicadores macroeconómicos melhoraram. Contudo, a produtividade permanece baixa, a economia continua excessivamente dependente do petróleo, o crédito mantém-se proibitivo e o sector privado continua longe de assumir o papel de verdadeiro motor do crescimento.

A escassos meses do próximo acto eleitoral, dificilmente haverá tempo para corrigir fragilidades que exigiam reformas profundas ao longo de todo o segundo mandato do Presidente João Lourenço. As grandes transformações não se improvisam nos últimos quilómetros de uma legislatura, mas, sim, se constroem com visão estratégica, consistência na execução e coragem para adoptar as políticas certas no momento certo. Como ensina um antigo provérbio africano, "por muito tempo que um tronco permaneça na água, nunca se transformará em crocodilo." Da mesma forma, a estabilidade macroeconómica, por mais tempo que seja celebrada, nunca se converterá, por si só, em desenvolvimento económico. Em verdade, o segundo mandato ficará, muito provavelmente, como o da oportunidade perdida de transformar a estabilidade conquistada em prosperidade sustentável. Talvez seja essa a maior lição de Pangloss: quando o optimismo substitui o diagnóstico, a realidade acaba sempre por cobrar a factura. É essa, afinal, a diferença entre gerir indicadores e transformar uma economia.n

*Professor Auxiliar e Investigador

ISG Business and Economic School

Bibliografia

• Massano, J. L (2026); A Inflação em Angola: Causas, Efeitos e Desafios para a Governação - IV Jornadas do Grupo Parlamentar do MPLA.

Epílogo: uma pausa para regressar mais preparado

Com este, o meu 37.º artigo de opinião, encerro, por agora, um ciclo de colaboração mensal neste Semanário, que constituiu para mim uma honra e um privilégio. Ao longo destes textos procurei contribuir para o debate económico nacional através de uma abordagem assente na ciência, na evidência empírica e na experiência acumulada ao longo de vários anos de serviço público, investigação e docência universitária. Escrevi sempre com um único propósito: estimular a reflexão crítica, desafiar ideias estabelecidas e contribuir para um debate mais informado, nunca para alimentar consensos fáceis nem conveniências circunstanciais.

Chegou agora o momento de me dedicar integralmente ao post-doc (pós-doutoramento) em Finanças e à conclusão de trabalhos científicos e literários que procuram sintetizar muitos anos de investigação, experiência profissional e reflexão sobre a economia angolana. Estou convicto de que esse será o contributo mais valioso que poderei oferecer nesta nova etapa do meu percurso académico e intelectual.

A todos os leitores que acompanharam estes 37 artigos, brindando-me com críticas, sugestões, palavras de incentivo e, sobretudo, com a generosidade do seu tempo, deixo a minha mais sincera gratidão. Espero regressar em breve, com novas ideias, novos trabalhos e a mesma convicção que sempre me guiou: a de que o progresso de Angola depende, antes de mais, da coragem de pensar melhor para decidir melhor.