Influência não se presume. Demonstra-se. E demonstrá-la exige documentação. É precisamente aqui que a pergunta sobre a arquitectura global regressa ao problema do conhecimento nacional. A ausência de documentação não demonstra ausência de influência. Mas também não permite afirmar influência onde ainda não existem evidências suficientes. Não saber não é o mesmo que não existir. Esta distinção é particularmente importante para uma arquitectura que durante décadas foi insuficientemente inventariada, arquivada e estudada.
Podem existir obras relevantes que permanecem fora da história da arquitectura porque não foram publicadas. Podem existir autores cuja produção permanece dispersa. Podem existir experiências construtivas que nunca foram sistematizadas. Podem existir conhecimentos produzidos em determinados territórios que não chegaram às escolas ou à literatura disciplinar. A invisibilidade documental pode, assim, produzir uma falsa percepção de inexistência.
É por isso que a investigação dos 50 anos não deve começar pela influência. Deve começar pelo conhecimento. Inventariar. Documentar. Cartografar. Arquivar. Comparar. Entrevistar. Identificar actores. Reconstruir processos. Relacionar edifícios com territórios. Relacionar arquitectura com sociedade. Relacionar produção arquitectónica com cultura. E transformar informação dispersa em evidência analisável. Só depois será possível formular hipóteses sobre influência, circulação ou legado.
Esta perspectiva altera também a própria compreensão daquilo que chamamos arquitectura angolana. Talvez não exista uma arquitectura angolana única. Talvez existam várias arquitecturas angolanas, produzidas em diferentes momentos, territórios e condições culturais, económicas e sociais. Isso não significa necessariamente ausência de identidade.
A identidade pode estar menos na repetição de uma forma e mais na capacidade de estabelecer relações entre arquitectura, território, cultura e sociedade. E essas relações podem ser diferentes, contraditórias ou até inexistentes. A investigação deve ser capaz de registar também essas diferenças. Porque estudar arquitectura angolana não significa procurar uma essência nacional escondida nos edifícios.
Significa procurar compreender como uma sociedade produziu arquitectura e como essa arquitectura participou na construção da própria sociedade. É neste sentido que a arquitectura se torna uma fonte de conhecimento sobre Angola. Através dela podemos observar transformações territoriais, mudanças sociais, políticas públicas, modelos económicos, processos de urbanização, circulação de conhecimento, evolução tecnológica, práticas culturais e formas de apropriação do espaço.
Podemos também perceber onde determinadas continuidades foram preservadas e onde foram interrompidas. E podemos identificar uma questão talvez ainda mais profunda: o que acontece a uma arquitectura quando uma sociedade não dispõe de mecanismos suficientes para reconhecer, documentar, transmitir e valorizar o conhecimento que ela própria produz? Esta pergunta ultrapassa a história da arquitectura. É uma pergunta sobre conhecimento. E é também uma pergunta sobre futuro. Porque uma sociedade que não conhece suficientemente aquilo que produziu tem dificuldade em decidir conscientemente aquilo que pretende produzir a seguir.
Antes de perguntar o que o mundo fez à arquitectura angolana, precisamos de perguntar o que a arquitectura angolana fez de Angola - e o que Angola fez da sua arquitectura. Que territórios produziu? Que cidades transformou? Que modos de habitar incorporou? Que conhecimentos preservou? Que conhecimentos perdeu? Que referências apropriou? Que referências recusou? Que cultura conseguiu integrar? Onde deixou de a integrar? Que arquitecturas criou? E que arquitecturas ainda não conseguimos reconhecer? Só depois poderemos perguntar o que, dessa experiência, ultrapassou as fronteiras do país.
A questão sobre a influência global deixa, assim, de ser uma afirmação de orgulho ou uma procura de reconhecimento externo. Passa a ser uma hipótese científica. Conhecemos suficientemente a arquitectura angolana para saber o que podemos oferecer ao mundo? A resposta a essa pergunta não deve ser construída através de uma narrativa antecipada. Deve ser investigada. E é precisamente aí que começa o futuro da arquitectura angolana.
* Arquitecto e Investigador, PhD em Arquitectura
