O primeiro factor diferenciador foi a encetação de reformas económicas graduais e programáticas. O que isto quer dizer? A China não liberalizou tudo de uma vez. Começou pela agricultura, proporcionando maior autonomia produtiva às famílias rurais, depois avançou para empresas locais, indústria, comércio externo e sector financeiro. O que permitiu o fortalecimento da base da economia. Contrariamente às habituais reformas inspiradas no consenso de Washington, que apregoam a liberalização, sem a criação prévia de bases estruturais, estrangulando as cadeias produtivas e relações económicas existentes. Estamos recordados do que Jean-Baptiste Malet, relatou em "O Império do Ouro Vermelho", sobre a destruição da indústria do tomate em África, tema que abordei no artigo publicado no dia 13 de Agosto de 2024, com o título "Por que razões a agro-indústria tende a fracassar em Angola?"
Em segundo lugar, a China abriu-se completamente ao Investimento Directo Estrangeiro, criando Zonas Económicas Especiais, como Shenzhen, que permitiram testar políticas fiscais, laborais e industriais mais flexíveis, atraindo capital, tecnologia e conhecimento externo. Deram-se nesta altura as deslocalizações de indústrias intensivas em mão-de-obra do Ocidente para a Ásia. Como as condições humanas e de infra-estruturas já estavam criadas, o processo de transferência de tecnologia deu-se com normalidade. Referi, na reflexão passada, que uma das condições para o estabelecimento de actividades estrangeiras na China era a associação com cidadãos ou entidades chinesas, o que, de certo modo, facilitou a transferência de conhecimento e tecnologia.
Em terceiro lugar, a industrialização estava orientada para as exportações, ou seja, a concretização da política da promoção das exportações, o inverso da política da substituição das importações defendida pela Escola Cepalina. Como referi na reflexão anterior, confirmei o facto de a China ser hoje "a fábrica do mundo" resultado da sua aposta na manufactura, nas infra-estruturas, na logística, na energia, nos portos, na formação técnica e integração nas cadeias globais de valor. Em Angola, assistimos à implementação de diversas acções visando a dinamização da actividade económica, mas que se transfiguram em fúteis, por não estarem integradas numa estratégia coerente e articulada, são acções isoladas, que não produziram os resultados esperados.
Em quarto lugar, concorrentemente com o plano de reformas em curso, realizaram-se investimentos pesados em infra-estruturas. Construíram-se estradas, caminhos-de-ferro, portos, centrais de energia, cidades industriais e telecomunicações, o que, certamente, criou a base física necessária para produzir, transportar e exportar. Em quinto lugar, destacou-se o investimento no sistema de educação, a disciplina laboral (a cultura de trabalho chinesa é muito forte) e a capacitação técnica permanente. A transformação que se deu na China, não foi apenas económica, foi, fundamentalmente, humana! A expansão da educação, da saúde e da qualificação profissional acompanhou o crescimento em todos os outros sectores da economia. Creio mesmo que a educação e a investigação científica foram o principal sustentáculo da transformação que se operou, porque tudo assenta no homem, que deve ter as três dimensões da formação: o conhecimento científico, a formação técnico-profissional e a formação comportamental e cívica, transfigurando-se no patriotismo, no sentido de compromisso nacional, antes a lealdade política.
Em sexto lugar, foi o papel preponderante do Estado chinês em todo o processo, mantendo-se sempre presente em todas as etapas e orientando a sua intervenção com metas económicas claras, sem ambiguidade. O Estado chinês não se retirou da economia; pelo contrário, orientou o processo de concessão de crédito às empresas e iniciativas de negócios, tomou a peito a construção de infra-estruturas, definiu com clareza a política de exportações, apoiou o desenvolvimento tecnológico e estabeleceu prioridades na implantação das indústrias. A grande diferença foi que associou o planeamento com a avaliação permanente dos resultados. Finalmente, em sétimo lugar, a aprendizagem experimental. A China testava políticas numa província ou zona especial; se os resultados fossem positivos, expandia-as para outras regiões. Se falhassem, procedia à sua correcção. Este pragmatismo foi crucial para o sucesso. Qual é então a lição para Angola?
Como escreveu recentemente o Jornalista Adebayo Vunge, no seu artigo publicado no Jornal de Angola, no dia 04 de Maio, Angola não precisa de copiar. Precisa aprender e adaptar. Acresço dizer que Angola não deve copiar a China de forma mecânica. Deve adaptar algumas lições à sua realidade institucional, demográfica e geográfica. No actual contexto económico angolano, há lições a aprender da experiência chinesa. Vejamos algumas: a primeira lição é o que de muito se tem falado em Angola nos últimos 40 anos e pouco se concretizou, é a da diversificação económica para além do petróleo. Angola continua muito dependente do petróleo: o sector representa cerca de 20% do PIB, 60% das receitas fiscais e 95% das exportações. Enquanto essa estrutura se mantiver, o país continuará vulnerável aos preços internacionais, sujeitando-se a vulnerabilidade externa. A segunda lição é a transformação dos recursos naturais em indústria, aspecto que tenho referido neste espaço repetidas vezes. Angola não deve apenas exportar crude, diamantes, pedras ornamentais, madeira, ou produtos agrícolas em bruto. Deve criar cadeias de valor: refinação, petroquímica, fertilizantes, agro-indústria, transformação alimentar, têxteis, materiais de construção e serviços logísticos. Exportar crude para depois importar produtos refinados é, efectivamente, absurdo! A terceira lição é a criação de zonas económicas realmente funcionais. Não basta decretar zonas industriais. É preciso garantir energia, água, estradas, serviços aduaneiros eficientes e confiáveis, canais de concessão de crédito, segurança jurídica, tribunais comerciais e mão-de-obra qualificada.
A quarta lição é a aposta na agricultura comercial e familiar ao mesmo tempo. A China começou o seu processo pela melhoria da produtividade rural. Angola pode fazer o mesmo implementando um programa de extensão rural (testar numa área e expandindo para outras progressivamente), implementação de irrigação (em Angola agricultura de sequeiro está condenado ao fracasso), mecanização agrícola ligeira, criação de banca de sementes, banca de fertilizantes, construção de sistemas de armazenamento de cereais, construção de estradas secundárias e terciárias (não necessariamente asfaltadas) e um sistema de compra de produtos pública organizada (fomento agrícola). A quinta lição, que em meu entender, apresenta maiores fragilidades em Angola, é a ligação entre a educação e o projecto económico nacional (quantos quadros formados e nem se sabe onde andam e nem o que fazem?). Angola precisa de ensino técnico-profissional orientado para agricultura, indústria, construção, energia, tecnologias digitais, manutenção industrial e gestão. A sexta lição, consiste em melhorar a qualidade do processo de decisão do Estado. O problema não é apenas ter planos; é executar. O problema de Angola nunca foi o da concepção de planos e programas, sempre esteve na execução. A China avançou porque criou capacidade administrativa efectiva. Angola precisa de combater a burocracia, a corrupção endémica, a informalidade excessiva e a instabilidade regulatória. A sétima lição e última, é a oportunidade de usar o petróleo como alavanca, e não como almofada permanente, como aconteceu nos últimos 50 anos. As receitas petrolíferas devem financiar infra-estruturas produtivas, capital humano e fundos de estabilização, não apenas consumo público, como aconteceu ao longo desses anos.
Efectivamente, é possível reverter o actual quadro de marasmo económico, que tem resultado no degradante quadro de empobrecimento dos angolanos. Quais seriam, então, os caminhos a seguir a partir da experiência e lições extraídas da China? Em minha opinião, sem ser muito sofisticado, porque nem sequer é preciso, o país precisa de um pacto nacional de transformação económica assente em cinco eixos fundamentais: i) agricultura e agro-indústria - produzir mais alimentos, reduzir importações e criar emprego rural; ii) industrialização selectiva - escolher alguns sectores prioritários e apoiá-los com crédito, energia e mercado; iii) infra-estruturas produtivas - garantir energia fiável, estradas agrícolas, portos, caminhos-de-ferro e plataformas logísticas; iv) capital humano - priorizar o ensino técnico profissional, universidades ligadas à indústria e formação de gestores públicos; instituições e confiança - assegurar uma justiça económica rápida, estabilidade fiscal, combate à corrupção e previsibilidade para os investidores. A transformação chinesa mostra que o desenvolvimento não resulta apenas da abundância de recursos naturais, mas da capacidade de transformar recursos em produtividade, produtividade em indústria, indústria em exportações e exportações em bem-estar social. Para Angola, a grande lição é clara: o petróleo pode ainda financiar o desenvolvimento, mas não pode constituir, por si só, o modelo de desenvolvimento do país.

+Economista

Bibliografia consultada
Candundo, Samuel, (2024). Por que razões a agro-indústria tende a fracassar em Angola? In Novo Jornal, online, publicado 13 de Agosto de 2025.
Vunge. Adebayo, (2026). Angola e China para além dos números da dívida, in Jornal de Angola, online, publicado 04 de Maio de 2026.

Malet, Jean Baptis (2019). O Império do Ouro Vermelho. Traduzido por Arnaldo Boch, Editora: Vestigio, Lisboa-Portugal.